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A bem da Nação

NA TERRA DOS BACALHAUS

 

 
 
 
O nosso rei D. Afonso V (1432 – 1481), primo de Cristiano I da Dinamarca, sabia das viagens dos vikings pelos mares nórdicos. Também lhe tinham dito que por esses lados se deveria conseguir chegar à China. Assim foi que os primos se associaram numa expedição luso-dinamarquesa com o intuito de desbravarem terras que se dizia poderem ser bom caminho para o Oriente e, melhor ainda, o de descobrirem o caminho marítimo que passaria ao longo da costa ocidental da Gronelândia já então conhecida dos dinamarqueses. O comandante dinamarquês dessa expedição – realizada por volta de 1472 – foi Didik Pimmy enquanto a parte portuguesa era comandada por João Vaz Corte Real; os segundos comandantes eram Poythorst e Álvaro Martins Homem.
 
E o que conseguiram estes aventureiros? Várias coisas: começaram por repetir as viagens dos vikings mas desta vez usando as velas latinas das caravelas e não mais as quadrangulares dos drakkars assim conseguindo navegar à bolina e alcançarem lugares a barlavento. Ou seja, depois de concluírem que não conseguiriam romper os gelos eternos que se formam no estreito entre a Gronelândia e a «terra firma do Norte», rumaram a Sul à descoberta de terra nova: se o caminho marítimo setentrional era impraticável, havia que descobrir uma alternativa. E a isso se dedicaram os portugueses pois os dinamarqueses estavam mais interessados em povoar a Islândia e a Gronelândia. Mesmo assim, foram descobertos vestígios dinamarqueses em L’Anse aux Meadows no actual território canadiano mas tudo aponta para que os Melungos sejam descendentes dos primeiros cruzamentos entre portugueses e índias nativas da costa leste e que com o desenrolar dos anos se tenham espalhado pelos Apalaches onde actualmente mais se concentram.
 
Só que tudo isto eram matérias a manter no maior secretismo devido à cobiça alheia. Para Portugal a conclusão era uma: a passagem do Noroeste não era praticável. Por isso mesmo D. João II não perdeu tempo com aquele a que actualmente se chama Cristóvão Colombo e o deixou «pendurar-se» nos reis de Espanha que assim se entretinham com coisas que por cá se sabia não servirem o propósito de se alcançar o extremo oriente.
  
João Vaz Corte Real repetiu a viagem – agora na companhia de João Fernandes, o lavrador de Angra que queria expandir as terras de cultivo – e transmitiu aos filhos a ideia da busca do desconhecido, da obtenção de novas terras, de novos comércios. Foi já nos Açores como Capitão Donatário de Angra que soube do desaparecimento do seu filho Miguel naquelas costas frias e foi na sua nova ilha que soube do desaparecimento do seu outro filho, Gaspar, que para lá zarpara em busca do irmão. O rei D. Manuel proibiu que o terceiro filho de João Vaz, Vasco Annes, seguisse em busca dos irmãos por vários motivos: primeiro porque o próprio Vasco Annes desempenhava o cargo de Vedor do Reino (algo parecido com o actual Ministro das Finanças), segundo porque o caminho para Oriente não era possível por aquelas latitudes e em terceiro lugar porque povoar aquelas terras faria que faltassem povoadores ao longo da alternativa viável que já se conhecia, a de África.
 
E quando hoje ouvimos falar de New Foundland não podemos deixar de traduzir por Terra Nova, a que os Corte Reais possuíram por as terem descoberto para os reis de Portugal e que por isso mesmo ficaram referidas na cartografia da época por Terra dos Corte Reais; quando ouvimos falar da península do Labrador logo nos lembramos desse João Fernandes lavrador dos Açores que expandiu a sua actividade para aquelas ricas terras e quando sobrevoamos S. João da Terra Nova não podemos esquecer os pescadores portugueses que ainda hoje por lá insistem na labuta constante que deu à terra o nome de Terra dos Bacalhaus.
 
Sabendo que hoje demoramos 3 horas a sobrevoar o percurso de S. João da Terra Nova a Nova Iorque e duas horas apenas no sentido inverso, compreendemos bem a impossibilidade que os vikings tinham em navegar nos drakkars para sul da Gronelândia; quando hoje sabemos que os pescadores de S. João da Terra Nova tiveram que trocar a sua actividade de gerações pela de mineiros de lamas betuminosas no interior do Canadá, compreendemos que o nacionalismo canadiano não queira mais pescas portuguesas de bacalhau nas suas águas territoriais mas sabemos que as espécies que alimentavam os canadianos foram devoradas pelos bacalhaus entretanto promovidos a espécie protegida mas não proibida de manter as características de predadora que sempre a caracterizaram.
 
E foi pensando em tudo isto e em todos esses bravos que chegaram àquelas terras numa época em que nem sequer se conseguia calcular a longitude que cheguei à Terra Nova e reverenciei D. João II que substituiu o Tratado das Alcáçovas pelo de Tordesilhas e mais tarde corrigiu este de modo a ficar com o Brasil mas sem terçar armas por esta terra fria. É que Cantino não tinha razão. E, pelos vistos, o rei sabia.
 
Planisfério de Cantino colocando a linha do Tratado de Tordesilhas de modo a que a Terra dos Bacalhaus ficasse portuguesa.
 
 
 
Lisboa, Janeiro de 2009
 
 
Henrique Salles da Fonseca
 
 
BIBLIOGRAFIA:
 
TAVIRA – TERRA DOS CORTE REAIS – Fernandes Vaz, Adérito – Edição Jornal do Sotavento, Tavira

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