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A bem da Nação

CEGO DE INVEJA

 

 

Aquiles acusa Agamémnon de ter lhe roubado a jovem Briseida quando Atena se faz invisível e lhe segura os cabelos para o acalmar.
Agamémnon, apesar de rei, era ganancioso, iracundo, invejoso e prepotente (nada a ver com Adriano, Imperador de Roma) e a história começa aí mesmo. Afinal, antes de Helena, há Briseida.

in http://leiturapartilhada.blogspot.com/2006_07_01_archive.html
 
 
 
  • Invejas. f. Desgosto pelo bem dos outros; desejo violento de possuir o bem alheio (Dicionário de Francisco Torrinha, ed. 1947)
 
 
A nossa inveja é oriunda da invidia latina enquanto o nosso verbo invejar deriva do homólogo latino invideo que etimologicamente significa «olhar excessivamente para…». Mas significa também «recusar», «tirar à força», «hostilizar», «impedir». O prefixo in, aplicado a vídeo, tanto pode significar «para dentro» ou «em» assim como assumir uma atitude negativa, do contra: neste caso, o contrário de visão, cegueira.
 
O olhar que se lança sobre outrem que tanta atenção despertou por evidenciar características que o observador gostaria de possuir pode transformar-se em hostilidade pois, constatando não possuir essas características, passa a não querer que o observado as possua. O que caracteriza a inveja como cobiça não é não-querer que o outro seja, mas querer que o outro não-seja aquilo que é. O mesmo pode suceder quando o observador reconheça no observado as suas próprias particularidades constatando deste modo não possuir o monopólio dessas mesmas características. Daqui resulta igualmente um sentimento de inveja. Eis duas vias para se chegar ao olhar hostil o qual pode conduzir à vontade extrema de destruição do observado.
 
Assim se percorre um caminho de extremos: olha-se de mais, admira-se, inveja-se e odeia-se.
 
E este ódio por inveja do observado extrema-se numa pregação do que só o observador vê a ponto de ditar o que apenas deve ser visto: o observado está travestido, não tem as qualidades que exibe; essas, tem-nas o observador invejoso e só ele. Daqui parte para uma campanha de angariação de quem testemunhe a seu favor de modo a convencer o observado da falsidade do que exibe. A demonstração da falsidade deve ser universal e o invejoso tudo fará para destruir o alvo da sua inveja. Assim chega a violência, o mal-fazer, a destruição.
 
E no meio de tudo isto, é frequente o invejoso não querer mais do que apenas maldizer pois que, se destrói o objecto do seu olhar hostil, deixa de ter um motivo para continuar na senda por que apaixonadamente se move. O refúgio no mundo do maldizer é apenas um álibi, um pôr-se à distância do objectivo anunciado da destruição. Quanto ao essencial – fazer as coisas como apregoadas – isso é coisa que o invejoso não pode admitir ora por saber que não as consegue cumprir ora por se passar a sentir alvo potencial das críticas destrutivas que no presente ele próprio desenvolve. E porque teme, não se «chega à frente».
 
O exercício do maldizer, da apologia da violência e da destruição, eis o modo de vida do invejoso, processo a que só o seu próprio desaparecimento pode colocar um fim. A menos que a psiquiatria intervenha e descubra uma solução mais amiga do ambiente social.
 
Daqui se conclui que a inveja não é apenas matéria religiosa, definida como pecado: é uma tara mental enquadrável no foro da psiquiatria.
 
Todos conhecemos casos mais ou menos doentios de inveja mas devemos ter um cuidado especial para impedirmos que esse mesmo sindroma se arvore em característica perene do regime político em que vivemos.
 
Lisboa, Dezembro de 2008
 
 Henrique Salles da Fonseca
 
 
BIBLIOGRAFIA:
«A RAZÃO INVEJOSA», Coelho Rosa, Joaquim – in “AO ENCONTRO DA PALAVRA – HOMENAGEM A MANUEL ANTUNES”, pág. 279 e seg. – Edições Cosmos, 1985
 

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