Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A bem da Nação

HERESIAS 07

 

In dubio, pro mercato - VII
 
Também a função de garante de último recurso, que muitos Governos têm vindo a assumir recentemente, põe à prova todas as anteriores considerações - e muitos consideram-na uma versão bem mais subtil do modelo do ditador iluminado[1]. Mas será assim?
Há-que distinguir entre dois tipos de risco. Num, todos os indivíduos encontram-se igualmente expostos ao risco (por exemplo, riscos catastróficos) que o Governo entende dever cobrir (isto é, as distribuições de probabilidade a priori individuais, para esse risco, são idênticas). No outro, só alguns indivíduos estão.
No primeiro caso, a mutualização do risco, intermediada pelo Governo, pode ser vista como uma característica mais da organização social subjacente ao modelo (de distribuição do produto social e de orientação do excedente) adoptado - e só o que se passar com a restrição nominal desse Governo e/ou com os preços relativos dessa economia poderá revelar qual o modelo que está a ser objectivamente seguido.
No segundo caso, porém, a vulnerabilidade a comportamentos de "moral hazard"[2] por parte daqueles que podem beneficiar da actuação governamental leva a suspeitar que serão necessários cuidados extremos para que o Governo se mantenha no modelo do mercado. O mais provável é que representem uma maneira subreptícia de modificar os preços relativos num dado sentido.
Em conclusão: nenhum argumento ideológico poderá validamente contrariar - ou, simetricamente, sustentar - a intervenção do Governo na vida económica (enquanto parte de trocas monetárias, redistribuidor de riscos e segurador de último recurso; não já no papel de regulador e supervisor) sempre que actue segundo as regras do mercado - as quais são, como referi: sujeição a uma restrição nominal que é reconstituída exclusivamente mediante trocas monetárias; e não manipulação dos preços relativos. Como qualquer outro agente económico num Estado de Direito, aliás. Se não o fizer, porém, não será a ideologia que o condena, mas a razão que o adverte.
Mas modelo do mercado, por mais voltas que se lhe dê, não é completo. Escapam-lhe as duas variáveis que caracterizam a liquidez: volume e preço.
Dito de outro modo. Um dado produto social, um dado padrão de distribuição do produto social e uma dada estratégia para o excedente são compatíveis com diferentes volumes de liquidez e com diferentes preços da liquidez. Mas o inverso não é verdadeiro: nem todo o volume de liquidez, nem todo o preço da liquidez, servem para atingir e sustentar um dado produto social, um dado padrão de distribuição do produto social e uma dada estratégia para o excedente.
Quando está em causa o volume e o preço do dinheiro, o modelo de mercado não dispensa um ditador iluminado.
Post scriptum: Talvez seja evidente, agora, o motivo que me levou a preferir o termo "Governo" a "Estado". Falar em Estado sugere, quase sempre, finalidades de tal modo importantes que tudo sobrelevam, às quais tudo deve ficar subordinado, contra as quais não é legítimo opôr argumentos - na realidade, é pretender subtraír certos temas à análise independente e ao debate. Ora, como se viu, as duas questões fundamentais do pensamento económico não envolvem finalidades - antes, circunstâncias e modos de agir.
Novembro de 2008
 A. PALHINHA MACHADO


[1] Ou para concluir que o modelo do ditador iluminado não pode ser dispensado por nenhuma sociedade moderna, o que dá um toque de inevitabilidade a uma convicção ideológica. Ou para condenar liminarmente uma tal actuação do Governo, com argumentos igualmente ideológicos.
[2] Moral hazard é a expressão inglesa para definir situações em que o agente económico só aparentemente está exposto ao risco. Pertencer-lhe-ão os ganhos, se ganhos houver; mas será outrém a assumir as perdas, caso ocorram, sem que receba uma qualquer compensação por esse seu sacrifício.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D