Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

PORTUGAL É O QUE NÓS SOMOS (II)

No meu texto anterior, procurei caracterizar o quadro de desolação e pessimismo que alguns tecem sobre o nosso país. Talvez por farto de tanto negativismo a assolar os espíritos, alguém se encarregou de fazer circular pela net um documento intitulado “Novo Portugal”. Nesse documento, aponta o nosso país como situado entre os que mais mudaram nos últimos 30 anos e, para o comprovar, enumera as muitas realizações que o engenho e a criatividade dos portugueses tornaram ou vêm tornando possíveis. São citadas várias criações inovadoras no âmbito da software que conquistaram o mercado internacional. É enaltecida a competência da nossa engenharia civil, granjeando prestígio internacional, em especial na construção de pontes. São enumeradas inovações tecnológicas na produção têxtil, na concepção de equipamentos desportivos, na produção de energia fotovoltaica, na indústria farmacêutica, no fabrico de componentes automóveis e equipamentos electrónicos, na produção de derivados de madeira, na indústria corticeira etc. Em suma, o documento lembra-nos que não é uma quimera a afirmação das capacidades nacionais, com prestígio e projecção além-fronteira.

 
Mas a demonstração mais visível da evolução social e material do nosso país ocorrida nos últimos 30 anos, mau grado o pessimismo nacional, é-nos fornecida até mesmo por esse Portugal profundo, por essas muitas aldeias do interior do país. Tomo como exemplo a aldeia de origem dos avós da minha mulher, uma aldeia da Beira Baixa. Há mais de 30 anos, nela não havia energia eléctrica e muito poucas eram as casas que tinham instalações sanitárias. Hoje, todas ou quase todas têm energia eléctrica, frigorífico, televisão, fogão a gás, instalações sanitárias, e rara é a habitação que não tem um automóvel estacionado à porta, às vezes até dois. Há 30 anos atrás nem os carros podiam aceder à povoação porque não havia estradas transitáveis. Isto para não lembrar que todos os idosos têm hoje uma pensão de segurança social, coisa outrora inexistente. Significa isto que o país real mudou e mudou muito, pese a imagem tristonha que alguns profetas sem bordão não se cansam de apregoar. Os que às vezes clamam “volta Salazar” só podem ser autênticos esquizofrénicos.
 
No entanto, apesar do indesmentível progresso do nosso país, existe efectivamente um problema com os portugueses, mas que não tem travado a sua caminhada para o futuro, porque o progresso é um comboio que somos capazes de apanhar, em andamento ou em qualquer estação ou apeadeiro, graças a uma aptidão e engenho que não podem ser contestados. O problema dos portugueses não se prende propriamente com as suas qualidades de trabalho e com a sua imaginação criativa.  O problema radica na mentalidade e, pela sua natureza específica, tem um reflexo danoso na esfera política, se entendermos esta, numa definição simplificada, como a capacidade de a nação se organizar e unir para realizar os fins comuns, os do Estado. O problema dos portugueses, se problema é efectivamente e não uma fatalidade antropológica, como alguém afirmou, reside naquela área obscura do inconsciente sobre a qual já escreveram, entre outros,   o Eduardo Lourenço e o José Gil. É precisamente onde estão as raízes da nossa dificuldade em unir energias e vontades  face ao interesse colectivo, minimizando as querelas secundárias e mortificantes. É nessa área do inconsciente que  uma  radiografia  psicossomática não deixará, por certo, de colher imagens  das tais  moléstias  que os investigadores  mais lúcidos e descomprometidos não têm pejo nenhum em inventariar: inveja e despeito pelo sucesso alheio, dúvida congénita sobre as capacidades nacionais; discordância constante com o pensamento do nosso interlocutor (podemos estar de acordo mas há sempre um "mas", sem o qual parece que nos sentimos inferiorizados); tendência para a transgressão das regras sociais; hostilização sistemática de todos os que assumem o exercício do Estado.
 
Vamos ver e quedamo-nos numa constatação curiosa. Se é na genética que encontramos a razão de ser de alguns comportamentos típicos, mais expressivamente em estratos menos escolarizados, é também aí que teremos explicação para o perfil e o estilo de algumas elites intelectuais e, necessariamente, da classe política. Por exemplo, aos nossos olhos pode parecer descabido que o presidente Bush esteja descredibilizado a nível internacional e, no entanto, ser sempre solenemente bem recebido, mesmo pelos seus adversários políticos, quando comparece no Congresso ou em outras sedes de decisão política interna. É respeitado pelo cargo que exerce, que não pode ser beliscado no seu simbolismo, sob pena de abalar a auto-estima nacional. Caso diferente se passa no nosso Parlamento, em que o debate de qualquer proposta política dá sempre azo a linguagens e atitudes rasteiras, insultuosas e provocadoras, reveladoras de menos consideração por aqueles que foram mandatados para exercer o poder, esquecendo-se que este é transitório e não tarda os papéis se invertem. É lamentável esta nossa insana dificuldade em apoiar uma proposta de grupo parlamentar diferente, só porque o é, independentemente do seu conteúdo e do interesse nacional que reveste. Não se compreende que a falta de honestidade e coerência intelectual seja tanta que se defenda uma coisa enquanto poder e a mesma é rejeitada quando na oposição, ou vice-versa.
 
Penso que os males que eventualmente podem retardar a nossa passada colectiva provêm menos da mentalidade do povo do que do comportamento das elites intelectuais. As classes sociais mais desfavorecidas tendem a evoluir com a aposta sempre continuada na educação, pois se elas no estrangeiro são obreiras quando bem enquadradas empresarialmente, no nosso país igual resultado pode ser conseguido, como em muitos casos está a ser uma realidade. O problema, a meu ver, reside mais nas elites porque elas é que lideram e influenciam a sociedade, mas o preocupante é elas não se darem conta da responsabilidade que lhes incumbe para elevar o nosso sentimento de auto-estima e para extirpar esta nossa tendência para o individualismo, para a desresponsabilização, para auto-comiseração e para a descrença.
 
Será necessário encenar o psicodrama nacional para podermos, olhos nos olhos, desmontar cada peça para definitivamente encontrarmos o tempo e o modo da terapia necessária? Em 1907, o médico e escritor Manuel Laranjeira questionava se “o nosso mal tem raízes mais fundas inextirpáveis, e se a falta de coesão da sociedade portuguesa assenta em factores antropológicos, indestrutíveis, isto é, se sobre a raça portuguesa pesava uma fatalidade mórbida originária, de natureza degenerativa, uma tendência irreprimível, progressivamente crescente para a dissolução”.
 
Manuel Laranjeira
(1877-1912)
 
Contudo, é o próprio que logo a seguir afirma que “tal afirmativa não resiste ao mais singelo exame”. Para Manuel Laranjeira, que emitia o seu juízo numa época em que o analfabetismo era um autêntico entrave nacional, a educação e a escolaridade eram a solução para o problema e acreditava que com o tempo haveríamos de poder saltar a fasquia do progresso a par de outros povos.
 
Pegando nesta observação de Manuel Laranjeira e considerando que a escolaridade nacional já não é a mesma de há um século, embora tenha ainda de atingir níveis superiores, então temos de concluir que é na mentalidade das elites, no que ela tem de mais subterrâneo, que subsistem os principais nódulos que emperram o país e não o deixam avançar mais depressa. Há que extirpar esses nódulos. Para isso, as ditas elites intelectuais têm de ir à raiz do problema e ousar meter o bisturi onde necessário. Entre outras providências, haja coragem e clarividência para reconhecer que o sistema político tem de ser regenerado para que o serviço público seja o nível máximo da aspiração cívica do cidadão em vez de trampolim para cargos posteriores escandalosamente remunerados. Resolvida consensualmente esta questão, talvez acabe o regabofe de inveja e despeito por quem está no poder, tão patente nos debates parlamentares como nas conversas de café. Será uma medida a articular com outras reformas importantes que o sistema político exige, mas se é a única que menciono é pelo seu simbolismo e exemplaridade.
 
 
                     
                             
Tomar, 26 de Novembro de 2008
 
 Adriano Miranda Lima

3 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2009
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2008
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2007
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2006
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2005
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2004
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D