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A bem da Nação

A CIDADE E O “SENHOR SHOPPING”

 

 
 
 
    Li recentemente uma notícia sobre aquele que já é conhecido como o “Senhor Shopping”. Trata-se do cidadão de nome Jaime Lopes, citado como dono de 15 centros comerciais na Península Ibérica e em vias de abrir na Amadora o maior da Europa.
 
    O fenómeno “shopping” explodiu em Portugal apenas nos últimos dez anos, revolucionando consideravelmente os nossos hábitos de consumo. Espaços apetecíveis por arquitectonicamente atraentes e funcionais, os portugueses logo viram no “shopping” a vantagem que é ter tudo à mão de semear nas suas idas às compras. Antes era preciso calcorrear ruas comerciais e não poucas vezes demandar zonas diferentes da cidade para encontrar a indumentária ou o utensílio pretendidos, arrostando ainda com a maçada e a perda de tempo inerentes às deslocações, para não falar nos inevitáveis problemas com o trânsito e o parqueamento. O “shopping” veio resolver tudo de uma assentada, roupas, calçado, bijutarias, utilidades, géneros alimentícios e bebidas (estes quando há hipermercado integrado), serviço de restauração, livros, jornais, cinema e outros divertimentos, parqueamento do automóvel, segurança, etc, enfim, tudo e mais alguma coisa no mesmo universo concentracionário. E ainda com a vantagem de horários mais alargados e de manter o cidadão-cliente a salvo das contingências do tempo atmosférico, porque uma vez dentro do “shopping” cessa a relação com o mundo físico exterior. Quantas vezes estamos a sair do “shopping” e é quando reparamos que o tempo entretanto mudou e apresenta mau cariz, sem nenhuma cumplicidade com o ambiente quase asséptico no interior da moderna unidade comercial.
 
    Sem dúvida que o “shopping” é sinónimo de conforto e bem-estar mas também de fruição de condições de aquisição mais vantajosas graças a uma constante política de “dumping” de preços. E no que respeita ao serviço de restauração é indiscutível a obtenção de dois ganhos assinaláveis: à vista dos clientes, uma higiene bem cuidada no manuseamento e confecção dos alimentos; preços substancialmente mais baixos pela prática de refeições padronizadas e isentas dos custos do serviço à mesa.
 
    E é assim que na paisagem das nossas cidades e arredores se estampa hoje com a maior naturalidade o frontispício do “shopping”, enquanto se estreita cada vez mais a intimidade entre o consumidor e as novas unidades comerciais.
 
   Só que o “shopping” e o hipermercado vieram ditar a morte do comércio tradicional e, por consequência, acelerar a desertificação dos centros históricos de par com a degradação do seu parque habitacional. Um pouco por todo o país se comenta a desertificação dos centros históricos, assunto que até foi um dos pratos fortes nas últimas campanhas autárquicas em Lisboa. É fácil relacionar este novo fenómeno comercial com a desertificação dos centros históricos se nos lembrarmos que nestes se localizava outrora a quase totalidade da actividade comercial. Ora, o comércio é o maior catalisador da actividade humana, o verdadeiro oxigénio dos centros urbanos. Extinguindo-se, é uma questão de tempo a morte progressiva das comunidades humanas que desde os primórdios, pedra sobre pedra, construíram a urbe e escreveram as páginas da sua história.
 
    É um facto que este problema tem a ver igualmente, e em grande parte, com as políticas do arrendamento habitacional que vêm sendo adoptadas mas que se mostram insuficientes para revitalizar o sector. Isto associado a planos directores municipais que nem sempre se impregnam de uma correcta visão integral da problemática das cidades, visto que a perspectiva cultural tem sido obliterada por interesses do mercado imobiliário. Em consequência, os centros históricos da maior parte das nossas cidades enfermam de dois cancros que se revelam irremissíveis com simples paliativos. Um deles é a questão das rendas antigas usufruídas na maior parte por inquilinos idosos, rendas que de tão baixas nunca são ou poderão ser suficientemente actualizáveis de forma a permitir aos proprietários o investimento financeiro na recuperação dos imóveis. O outro cancro é o problema de prédios com muitos herdeiros. Nem habitam os prédios nem conciliam vontades no sentido de dar o melhor destino aos imóveis, que entretanto entram em acelerada deterioração. Assim, sem economia criativa e sem um património urbano reabilitado e revitalizado, os centros históricos definham tristemente.
 
 
 
    Por outro lado, as autarquias, embora querendo ou manifestando propósitos políticos assertivos, não têm encontrado suficiente energia e imaginação para fazer face ao problema, salvo algumas honrosas excepções (Évora, Guimarães e Angra de Heroísmo, centros históricos classificados pela Unesco). É mais rentável para os cofres camarários comprometer os planos directores com a urbanização de terrenos rústicos da periferia e os negócios imobiliários daí decorrentes, como aqui neste blogue já se denunciou, do que apostar na reabilitação dos centros históricos. Não ignoremos também que novos hábitos de consumo marcam toda uma evolução social que em boa verdade só é evolução na aparência porque claramente deficitária de uma componente nitidamente cultural. As pessoas sentem-se hoje mais atraídas para os bairros de prédios novos e modernos porque ninguém já dispensa o conforto do elevador, o videoporteiro, a banheira de hidromassagem, o estore eléctrico, a aspiração central, etc. Poucos querem, pois, saber dos miasmas que emanam dos centros históricos, dos ecos que vibram no silêncio das pedras antigas, dos vetustos sinais ali deixados pelos nossos avós. Abstraindo-se dos valores da sua identidade, as pessoas tendem a perder o sentido da sua relação com a história das suas comunidades, na medida em que passam a não resistir ao apelo das marcas e signos generalistas.
 
    Desta maneira, se nada se fizer para travar e inverter o processo, o esvaziamento progressivo dos centros históricos pode no futuro esbater na memória colectiva as referências físicas do património anímico das cidades. Estas têm de evoluir olhando para dentro de si próprias e não em função dos ícones sociais e culturais do mundo global.
 
 
Tomar, 1 de Dezembro de 2008
 
Adriano Miranda Lima
 

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