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A bem da Nação

Curtinhas nº 63

 

...E a mousse, é caseira?
v    “Mas onde é que podemos ter a salvo os nossos modestos pecúlios?” É o que tantos perguntam, escaldados pela crise.
v    Se o pecúlio estiver em Notas bem fechadas a sete chaves, roem-nas as traças, surripiam-nas os larápios, estropiam-nas fogos e inundações, perde-se-lhes o rasto com terramotos (riscos seguráveis até certo ponto). Isto, se a inflação não diluir, primeiro, o seu poder aquisitivo (um risco de contexto macroeconómico), ou se uma alteração legislativa não lhes retirar o valor como meio de pagamento (risco político).
v    Se estiver depositado, o Banco pode ir a falência (risco de liquidez) - e, então, só os contribuintes, através de esquemas de garantia de depósitos, poderão proporcionar algum sossego. Isto se esse esquema funcionar de facto (risco operacional e risco político), e se houver folga orçamental para o que faltar (risco de contraparte).
v    Aplicado em Títulos da Dívida Pública, se houver que vendê-los, o preço obtido poderá ser inferior àquele por que foram adquiridos – logo, menos-valias (risco de mercado, no caso risco de preço). Isto se a Dívida Pública não for, entretanto, repudiada (risco político) – e lá se esfuma, de um golpe, o pecúlio.
v    Se investido noutras Obrigações, como assegurar que a entidade devedora vai pagar a tempo e horas juros e capital (risco de crédito)?
v    As cotações das Acções, ora sobem, ora descem (risco de preço) – e só com sorte, com paciência e sem urgências de liquidez será possível aproveitar o momento asado para colher umas mais-valias simpáticas. Isto se, entretanto, as empresas que emitiram essas Acções não abrirem falência, por má gestão (riscos operacionais)ou má fortuna (risco de mercado; risco estratégico) – e do pecúlio nada restar.
v    Se, à boa maneira de antigamente, a escolha tiver recaído em prédios para arrendar, como saber que eles não ficam devolutos tempos sem fim (risco de mercado); que o inquilino irá pagar pontualmente a renda (risco de crédito); que não surgirá um conflito qualquer (risco de litigância jurídica); que a tributação não se torna discriminatória, proibitiva mesmo (risco fiscal); ou que o regime do arrendamento, de um momento para o outro, não passará a ser semelhante à actual lei portuguesa (risco político).
v    E há o ouro. Ah! O ouro. Tem de ser guardado - o que custa dinheiro. Tem de ser seguro - mais dinheiro. Para que proporcione algum rendimento, há que efectuar operações com o seu quê de complexo – e as comissões a pagar não são baratas. Dê-se-lhe as voltas que se quiser, no ouro, o rendimento digno desse nome são as mais-valias (risco de preço) – que capricham em escassear a maior parte do tempo.
v     Segura-se o pecúlio? Corre-se o risco de a Seguradora não ter por onde pagar (risco de crédito), atrasar sem razão o pagamento (risco de contraparte) ou não querer pagar pura e simplesmente (risco de litigância jurídica).
v    No estrangeiro é que é bom, tudo gente séria e nada falha? Lá entram em cena as travessuras do risco cambial (excepto se tudo se passar na mesma zona monetária).
v    A teoria, em desespero de causa, socorre-se de um activo financeiro sem risco - coisa que não existe na prática. Mas se existisse não escaparia ao risco taxa de juro, ao risco de reinvestimento e às vicissitudes da política monetária (estas não são um risco – são uma fatalidade).
v    A ideia de que não há risco nem incerteza é uma ficção que a História, certamente por ironia, fez inscrever nos genes da sociedade burguesa pós-vitoriana. Certo, nesta vida, só a morte. O resto é tudo incerto. Vivemos na incerteza, expostos ao risco - uma hidra de muitas cabeças. Só na organização social poderemos encontrar algum abrigo.
v    São os regimes de capitalização com contribuições definidas que vão resolver o problema das reformas? Fie-se, Leitor. Acaba de ver como os mercados financeiros, matreiros, escondem a incerteza e o risco. Louco será quem esperar obter aí, sem sobressaltos, os rendimentos que planeou para a velhice.
v    Total segurança nos depósitos bancários? Só se se contar com o dinheiro dos contribuintes, sob a forma de esquemas de garantia.
v    Colapso dos mercados financeiros? Eis o dinheiro dos contribuintes, actuais e futuros, a entrar para inverter a espiral de depressão.
v    Dívida Pública credível (o que mais se aproxima do que seja um activo financeiro sem risco)? È porque os contribuintes são de confiar.
v    Rendimento com um mínimo de dignidade na reforma? Se não for uma mescla de esforço familiar e de seguro colectivo (com o dinheiro dos contribuintes para o que der e vier), não se chega lá.
v    As técnicas de mitigação do risco (o seguro/garantia, a diversificação e a cobertura/hedging) também não são à prova de fogo: o seguro, substitui um risco por outro, desejavelmente menor - mas não elimina de todo a exposição ao risco; a diversificação e a cobertura não funcionam quando são mais necessárias – na iminência do colapso dos mercados financeiros.
v    Por isso, Leitor, desiluda-se: volte-se para onde se voltar, sem a rede proporcionada por uma organização colectiva eficaz, estará sempre à mercê do risco. E mesmo assim...
v    Convença-se: não nos afastámos assim tanto das sociedades primitivas. O melhor que poderemos almejar é que os mercados financeiros sejam eficientes q.b. de forma a proporcionarem expectativas de rendimento mais elevadas quando o risco aumenta. O que, convenhamos, nem sempre acontece
v    Mas pelo facto de o risco ser incontornável não significa que nada se possa fazer para, no plano individual, evitar a exposição a riscos desnecessários. O risco é susceptível de ser gerido, contido e, em condições normais, minimizado. Haja Deus!
v    Por exemplo, quando lhe falarem de depósitos com capital garantido, pergunte quem garante. É que há muita publicidade por aí em que o anunciado garante vem a ser, afinal, o próprio Banco depositário: o devedor a garantir a sua própria dívida! E o BdP consente.
v    Ainda nos depósitos com capital garantido, averigúe bem se não serão, por acaso, uma subscrição disfarçada de Unidades de Participação em Fundos de Investimento. É que as aplicações em Fundos de Investimento (mesmo em Fundos de Tesouraria) não estão abrangidas por nenhum esquema de garantia - são investimentos sem rede. E a CMVM consente.
v    Se lhe propuserem PPR’s ou, Fundos de Investimento “conservadores”, peça para lhe descreverem, tim-tim por tim-tim, os critérios de investimento contratualmente seguidos. É que há por aí muito Prospecto (isto é, contrato de constituição e gestão) de PPR’s e Fundos de Investimento que se limitam a indicar que o respectivo património será constituído por Obrigações, sem mais. Ora há Obrigações para todos os gostos, desde as emitidas pelo Tesouro Alemão (Bunds) até às Junk Bonds. E mesmo as Obrigações Soberanas (ou seja, emitidas por Estados e representativas de Dívida Pública) não oferecem risco por igual. E CMVM e BdP consentem.
v    É certo, Leitor, que nalgum lado o seu pecúlio tem de estar aplicado. Antes de decidir, porém, aconselhe-se com quem sabe. Os Bancos (e outras Instituições Financeiras) sabem (quero crer que sim). Mas estão atingidos por conflitos de interesses insanáveis: aconselham o que têm para vender, ou o que lhes interessa mais vender. E o seu interlocutor, quase de certeza, terá objectivos comerciais a atingir.
v    Aconselhar-se com quem distribui instrumentos financeiros (Bancos e não Bancos) é o mesmo que perguntar no restaurante se a mousse é caseira. Ingénuo será quem esperar receber uma resposta franca: “Não, senhor. É de pacote e não presta para nada”.
Novembro de 2008
 A. PALHINHA MACHADO

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