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A bem da Nação

PATE DE FOIE GRAS D'OIE

 

 
 
 
Se o penitente resiste às tentações publicitárias, então há que urdir tentações mais eficazes para que o imberbe baixe os braços. Assim estão os cheques que recebemos em casa no montante de milhares de Euros que bastaria assinarmos para que a conta bancária fosse creditada … e com uma simples assinatura nos passarmos de credores a devedores do Banco.
 
É que a questão é precisamente essa: o Banco não está aí na praça para nos dever dinheiro a nós, os depositantes; o Banco existe para que nós, os «tesos», lhe devamos dinheiro. O negócio do Banco é cobrar juros sobre o dinheiro que empresta e se os clientes não aparecem, então há que os chamar à lida. Se o ganso não come a bem, há que lhe enfiar a comida à força pela boca a baixo para se fazer o paté de foie gras d’oie.
 
Eis como disparou o consumo de bens mais ou menos duradouros porque todos temos direito a tudo sem esforço. O mesmo pensaram todos desde os xeques da Arábia com o petróleo a rebentar o barril e os cereais a fazerem de combustível. Os preços enlouqueceram, a fartura empanturrou e o sistema global claudicou. E quando os pequenos-almoços emagreceram porque o Senhor Belmiro da mercearia da esquina já não fiava mais, então o Governador do Banco Central apareceu a dizer que o endividamento das famílias ultrapassara os limites do razoável. Curiosamente, não disse que o crédito fora emitido «à la Diable». É que se o dissesse reconhecia implicitamente que se havia demitido da sua função controladora. E porque é que havia de se aplicar mais se pululava urbi et orbi quem apregoasse o rating que calculava para cada um, nomeadamente para os próprios bancos?
 
Foi isto que aconteceu no país do Senhor Belmiro, merceeiro da esquina daquela rua lá do bairro mas a moda foi geral e o próprio FED a ela aderiu.
 
Mas as empresas de rating trabalham para os respectivos clientes e, vai daí, está-se mesmo a ver um fornecedor a dizer mal do cliente...pelo menos, enquanto as facturas pelos serviços prestados forem atempadamente liquidadas.
 
É como se a PSP se demitisse da missão que lhe cumpre de controlar a ordem pública e endossasse essa missão a empresas privadas de segurança. Mas estas defendem os interesses dos respectivos clientes; não defendem obrigatoriamente o interesse geral, cumpre-lhes defender interesses específicos.
 
É por lhe caber a salvaguarda do interesse geral que à PSP chamamos Autoridade enquanto não reconhecemos esse epíteto às empresas privadas de segurança que, de facto existem mas de jure não contam.
 
Por definição, a Autoridade «aos costumes diz nada» porque é estranha a quaisquer interesses particulares; os privados «aos costumes dizem tudo».
 
Por imanência democrática, aos Bancos Centrais cumpre o exercício da Autoridade Monetária e, portanto, o controlo da actividade bancária; na legitimidade democrática as empresas de rating não cabem e, in limine, podem ser equiparadas a agências de publicidade.
 
Tudo começou na América e ao darem crédito a quem não o merecia, os bancos assumiram o risco que é próprio da actividade que exercem mas, como hoje é sabido, abusaram descaradamente; ao venderem esses créditos duvidosos – e mais do que duvidosos, tóxicos – sabiam o que estavam a fazer e, portanto, ludibriaram quem neles confiava. A isso se chama dolo.
 
Ora se o doloso agiu e o polícia fez que não viu...
 
Apesar de todo o desvario, houve bancos – e no nosso país são vários – que mantiveram uma atitude ética. Será lastimável que possam ter problemas pelo efeito arrastamento como se tivessem estado do lado dos torpes.
 
Outubro de 2008
 
Henrique Salles da Fonseca

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