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A bem da Nação

“Elites em Portugal”

“A bem da Nação” tem o gosto de receber hoje a colaboração inaugural do Embaixador Luís Soares de Oliveira.

Eis o que nos diz relativamente ao livro “Elites em Portugal”, de João Medina (1), ed. Centro de História da Universidade de Lisboa (?):

1. O estilo é tumultuado o que nos prepara para uma exposição onde a emoção abunda e a razão escasseia. O uso de alcunhas e nomes distorcidos demonstra também falta de respeito por si, pelos outros e pelo tema. Trata-se pois de literatura panfletária que não faz o meu género e só por obrigação a li.

2. Acusar Almada de oportunismo é no mínimo injusto. Almada era um sincero nacionalista. Aliás, estava com o seu tempo. [Ver o que se passou com os intelectuais europeus das décadas de 20 e 30]. Almada não precisava de encomendas do Estado Novo para viver, pois tinha clientes dentro e fora do país. Os frescos da Grã Via em Madrid foram encomendados e feitos antes do Franco. Fica a crédito de António Ferro o ter sabido reconhecer, aproveitar e estimular Almada.

3. Ao contrário do que insinua o autor, Júlio Dantas nunca aderiu ao Estado Novo.

4. O que principalmente falta no texto é uma definição de elite, a descrição do processo de formação das elites e a sua tipologia. Só assim poderíamos compreender o porquê das elites que tivemos e da[s] que temos [?] e da respectiva qualidade.

5. O que caracteriza a elite é o grau de confiança recíproca que se estabelece entre os seus membros, a coesão do grupo e a racionalidade que este emprega na defesa dos seus interesses. [As massas desconfiam e só se movem por emoção e sentimento]. Houve ou há alguma classe em Portugal que reproduza as características de elite?

6. As elites têm domicílio: em França são as Grandes Escolas; em Inglaterra, a City e o Parlamento; nos EUA, era a Main Street, hoje está mais dispersa, mas isso não afecta a sua homogeneidade. Qual foi e é o domicilio da elite portuguesa? - Coimbra, a partir de 1834? O Colégio Militar de 1917 a 1928? O campo de Santana de 28 a 74? Hoje a sede é endógena ou exógena? Ou será que não tem sede porque não existe?

7. "Grei, de origem grega, vem de rebanho", diz o autor em tom depreciativo. E depois? Natione em Latim designava tanto o rebanho como a manada e passou também a designar o agrupamento humano fundado no sangue [mais tarde, na língua e no direito]. Os rebanhos requerem pastores; as manadas escolhem os seus chefes. É a diferença entre ovelhas e búfalos. Na manada bravia a elite são os mais fortes e avisados; no rebanho, são os mais solícitos e obedientes.

8. Em 1140 criámos o nosso líder; em 1385 repetimos a façanha. Éramos búfalos e afirmamos a nossa soberania. A partir de D. Manuel I começamos a aceitar o pastoreio alheio. Passámos a ovelhas. D. Sebastião tentou recuperar a qualidade de soberano. Foi um desastre. Os Braganças não souberam furtar-se às condições dos suzeranos de Westminster. Pombal reagiu, mas fracassou. Id. id. D. Carlos, etc.

9. Mudando as instituições poderíamos ter evitado tão triste e vil destino? Garrett pensava que sim mas já Antero foi reticente. Salazar parecia ter conseguido mas tudo indica que no final do seu longo consulado já estava desiludido. Aliás, não terá sido esse – o empenho soberano – exactamente o seu erro? Como poderemos criar condições para formar uma elite que simultaneamente não nos isole e não nos avilte? Este é o desafio a que nenhuma geração até hoje soube responder.


Cascais, Outubro de 2005

Luís Soares de Oliveira


Post-scriptum: Embora de menor importância, mas mesmo assim de referir, a visão que o autor tem de Espanha parece profundamente desactualizada."


(1) - O Prof. João Medina é Catedrático de História na Faculdade de Letras (Universidade de Lisboa). Já ensinou nas universidades de Aix-en-Provence, Pisa, Colónia e S. Paulo. Dirigiu uma História Contemporânea de Portugal, (7 Vols) e uma História de Portugal, (15 Vols, 1993). Autor de diversos estudos sobre a Primeira República Portuguesa, a Ditadura de Salazar, a Geração de 70, Eça de Queiroz, etc., é também co-director da Cátedra de Estudos Sefarditas A. Benveniste, na Universidade de Lisboa. Dirigiu a Revista da Faculdade de Letras

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