Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A bem da Nação

Burricadas nº 41

 

 
UMA CRISE, AFINAL, DÉJÀ VUE – I
 
v    Um ano, e sempre, sempre com o credo na boca... Penso que já é tempo de se tentar ver o que é que esta crise tem para nos ensinar. Antes do mais, que crise é esta?
v    Eis a pergunta que se ouve por aí a cada passo, mas que está irremediavelmente mal posta. De ciência feita, só é possível saber o que uma crise foi. Primeiro, há que ultrapassá-la, pois é na autópsia que ela se dá a conhecer por inteiro. Até lá, resta-nos descrevê-la como tem sido, tentando captar os seus traços mais evidentes. Esta, até ver:
Ø         Teve origem no mercado dos instrumentos financeiros garantidos por hipotecas residenciais (e nos seus múltiplos “derivados”) – como tantas outras antes dela;
Ø         Tem-se mantido circunscrita aos principais centros financeiros do mundo ocidental – como se não existisse ainda um verdadeiro mercado financeiro global;
Ø         Com excepção de uns quantos casos menores (Northern Bank, no Reino Unido; Ronskilde Bank, na Dinamarca; IndyMac, nos EUA) ainda não deu mostras de assustar o vulgar cidadão, nem provocou corridas ostensivas aos depósitos bancários – é nos mercados interbancários e no ambiente recatado das Salas de Mercados, longe das vistas do respeitável público, que tudo se tem passado até agora;
Ø         Começou por atingir com maior violência os Merchant Banks que se haviam especializado no modelo originador/distribuidor e na emissão/distribuição de instrumentos de dispersão do risco de crédito (CDO, CDS e outros “derivados” totalmente exóticos) – mas tem vindo a poupar os Bancos predominantemente comerciais;
Ø         Trouxe à luz do dia as fragilidades das estratégias de financiamento que privilegiam em absoluto os mercados interbancários, os mercados financeiros de médio e longo prazos e a subscrição de riscos financeiros – estratégias que ignoram os tradicionais depósitos bancários e que se excluem do conforto proporcionado pelos esquemas de protecção dos depositantes
Ø         Revelou quão difícil é gerir os riscos (de crédito, de mercado e, principalmente, de reputação) que se acumulam nos Veículos (leia-se sociedades instrumentais) de Titularização de Créditos;
Ø         Permitiu que a disciplina do mercado desse um ar da sua graça, o que deixou os Bancos Centrais muito, muito incomodados – surpreendente atitude por parte de quem, durante anos a fio, jurara e ansiara pelo efeito disciplinador do mercado;
Ø         Enfim, lá vai atormentando os investidores, mas é como se não existisse para os depositantes – e os beneficiários dos Fundos de Pensões (tal como os segurados) ainda não sabem muito bem o que pensar de tudo isto.
v    Há, certamente, notícias animadoras:
Ø         Muitos Bancos Centrais (com especial destaque para o FED) abandonaram ideias feitas, velhas da Grande Depressão, sobre o ritual de combate a uma crise sistémica; alargaram o leque dos Bancos admitidos como contrapartes; acrescentaram bastantes mais títulos à lista dos que eram até então aceites como garantia; prolongaram os prazos das operações de open market (aquelas onde os Bancos Centrais surgem como um operador mais nos mercados interbancários); ampliaram e refinaram o menu das operações de open market a que podiam lançar mão;
Ø         A cooperação internacional ganhou muito maior eficácia com a TAF (Term Auction Facility) – esquema pelo qual um Banco (não necessariamente um Banco em apuros) sedeado num país tem acesso à liquidez oferecida pelo Banco Central de um outro país utilizando como garantia os títulos que o Banco Central do seu país de origem está na disposição de aceitar;
Ø         A TAF conseguiu evitar, até ao momento, que a crise financeira contaminasse as paridades cambiais – o que teria acontecido fatalmente se os Bancos internacionalmente activos tivessem acesso unicamente à liquidez que o Banco Central do seu país de origem oferecesse (liquidez que viria sempre denominada na moeda desse país e não na moeda em que a liquidez iria ser utilizada);
Ø         Por enquanto, parece pouco provável que as taxas de câmbio entre as principais moedas mundiais (USD, EUR, CHF, YEN) iniciem um sobe-e-desce incontrolável – o que, a acontecer, fará com que esta crise salte para o topo da escala de Richter (um terramoto que torna a paisagem irreconhecível e cujos efeitos destruidores são impossíveis de prever).
Ø         Enfim, os Bancos Centrais dos principais centros financeiros (FED, Banco Central Europeu, Banco de Inglaterra, Banco do Japão e Banco Nacional da Suíça) têm conseguido que a política monetária permaneça imune às repetidas injecções de liquidez – liquidez que, recordo, visa: (a) manter os Bancos solventes; (b) manter os mercados interbancários a funcionar com um mínimo de eficiência; (c) manter as taxas dos mercados interbancários próximas das taxas de referência da política monetária.
v    Apesar disto, que não é pouco, as perspectivas continuam sombrias – e não é só porque o pas de deux entre estabilidade dos sistemas financeiros (injecções de liquidez) e estabilidade dos preços (política monetária) mal esboçou ainda as suas primeiras piruetas (cont.).
Setembro de 2008
 A. PALHINHA MACHADO

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2009
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2008
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2007
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2006
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2005
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2004
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D