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A bem da Nação

Burricadas nº 40

 

Agora é que são elas - III
 
v   A última vez que escrevi sobre a crise financeira, haverá um mês, tinha acabado de vir a público a situação financeira particularmente difícil em que se encontravam duas das agências de crédito hipotecário patrocinadas pelo Governo norte-americano (GSE): FREDDIE MAC e FANNIE MAE (que eu, para vergonha minha, confundi, então, com GINNIE MAE).
v   Na altura, não tinha ainda números exactos sobre a dimensão destes dois colossos do mercado de instrumentos de dívida de taxa fixa (ITF). Sei agora, graças à cortesia do FED, que será para cima de USD 5 milhões de milhões (5,000,000,000,000) – um valor que fez gelar o sangue a muito boa gente por esse mundo fora (termos de comparação: 6 vezes os twin deficits somados; aproximadamente, o total da Dívida Pública dos EUA; 40% do PIB norte-americano estimado para 2008).
v   Antes de reflectir sobre o que isto significa e prenuncia, não resisto à pergunta fatídica: Como é que tal foi possível?
v   Pois não era que a crise envolvia, apenas, créditos hipotecários subprime - justamente aqueles que as GSE estão estatutariamente proibidas de financiar? Será que a onda de créditos malparados não se confinou aos empréstimos subprime (afinal, uns “míseros” USD 400 a 600 mil milhões) e avançou pelas carteiras prime e ALT A adentro? Ou será que estas duas GSE (pelo menos estas), fazendo uma interpretação demasiado permissiva da sua missão estatutária (e para abicharem umas comissões mais), começaram a garantir a torto e a direito todo e qualquer crédito hipotecário, ainda que só financiassem directamente as tais operações prime e ALT A?
v   A julgar pelas entrelinhas das declarações oficiais (Board do FED e Secretário do Tesouro) vindas a público, terá sido um pouco de tudo – até ingerência política em momentos de aflição, durante o 2º semestre de 2007. Com a complacência do Supervisor das GSE - e sossego satisfeito dos restantes (são vários) Supervisores lá do sítio, para quem os seus supervisionados teriam assim o risco de crédito bem coberto.
v   Por fim, os danos tornavam-se previsíveis: o colapso do mercado de ITF, que arrastaria os mercados de “derivados” e faria regressar a vida financeira aos bons velhos tempos em que se transaccionava a contado umas acções e pouco mais. Além de se abrir uma guerra de taxas de câmbio com consequências, essas sim, impossíveis de prever.
v   Para evitar o caos nos mercados financeiros internacionais, o Secretário do Tesouro norte-americano (H. Paulson) não foi de modas. Solicitou e obteve do Congresso: (a) uma linha de crédito praticamente ilimitada para acorrer às GSE em apuros (só estas?) - se, quando e sempre que necessário, até final de 2009; (b) autorização para entrar no capital de FREDDIE MAC e FANNIE MAE (uma medida surpreendente em mentes tão neo con). Ou, visto a outra luz: mais uma vez os contribuintes norte-americanos a serem chamados a pagar porque alguém não fez aquilo para que estava a ser pago.
v   A estratégia é de meridiana clareza: saiba quem tem de saber que a dívida emitida, e a emitir, por FANNIE MAE e FREDDIE MAC será pontualmente servida. É claro que as yields (isto é, as taxas de retorno que as cotações actuais proporcionam) dos Títulos do Tesouro norte-americanos (que são ITF, também) deram logo um salto - e, com elas, o preço da liquidez em USD por esse mundo fora.
v   O interessante é que, graças aos mecanismos embutidos no modelo do mercado (e, sublinhe-se, à sensatez de Paulson), a realidade está a repor o cenário de eficiência dinâmica (em que pedir emprestado tem sempre um custo real para o devedor), levando de vencida a estratégia Greenspan (assente na ineficiência dinâmica e no prémio concedido a quem se endividar).
v   Pedir emprestado para especular não será mais uma decisão que possa ser tomada com a ligeireza de há uns meses a esta parte – e os mercados de commodities (sobretudo aquelas cuja procura mundial seja bastante rígida) vão conhecer finalmente alguma acalmia. Como acontece sempre que uma bolha especulativa rebenta, quem se deixou surpreender pela mudança de cenário (quem ficou com o diabrete, na feliz expressão do Prof. Jacinto Nunes), tramou-se. Estranho é que os moralistas que verberaram os lucros dos especuladores finjam não ver agora o reverso da medalha.
v   Não se pense, porém, que os preços das principais commodities vão regressar aos níveis de há dois anos. O rendimento mundial está a crescer aceleradamente e, com ele, a procura solvente, sem que se vislumbrem inovações qualitativas para os lados da oferta. Nestas circunstâncias, uma qualquer notícia poderá desencadear surtos especulativos intensos, mas de curta duração. Até que a economia baseada em USD se habitue, de novo, à eficiência dinâmica, muito haverá ainda que penar por força da imprevisibilidade.
v   A habituação mais custosa vai acontecer, porém, nos mercados financeiros, até porque a reposição de um custo efectivo para o dinheiro vai coexistir com medidas destinadas a enxugar a liquidez que os Bancos Centrais têm vindo a injectar nas suas economia para evitar o colapso de uns quantos Bancos.
v   E é a disciplina do mercado (esse 3º pilar do Basileia 2 que muitos viram como um simples adorno bem pensante) que irá impor, por fim, as suas regras, exigindo à generalidade dos Bancos (e a muitas Instituições Financeiras) que, ou revelam com maior clareza os riscos a que se encontrem expostos e reforçam os seus capitais em conformidade, ou saem de cena.
v   Mas é na regulação e na supervisão dos mercados e das instituições financeiras, que nada poderá ficar como dantes. Nos EUA, as manobras para pôr a casa em ordem, também neste capítulo, já começaram – por enquanto, a nível institucional, com o FED a assumir todo o protagonismo, como Supervisor Alfa. Na Europa, conhece-se um pouco do que a FSA (Reino Unido) anda a fazer – e quanto aos restantes países, nada.
v   Em Portugal, menos que nada - que a supervisão, por cá, é um segredo bem guardado.
 
Agosto de 2008
 A. PALHINHA MACHADO

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