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A bem da Nação

COISAS VISTAS

 

 
 
O que há de comum entre Hughie O’ Donoghue , pintor irlandês em exposição no Museus de Arte Moderna, na Haia e Richard Avedon, fotógrafo americano em exposição no Jeu de Paume, em Paris? Ambos acreditam na desconstrução, à Jacques Derrida. 
Richard Avedon (N.Y., 1923 -Texas, 2004) levou anos a tentar desconstruir o pai. No último ano de vida deste, aproveitando-se de um licença que nunca antes o pai lhe concedera, fotografou-o todos os dias até ao da morte registando um documentário único sobre a decomposição física do ser humano, que expôs no Modern Art de NY. Ultrapassar sempre os limites; nada aceitar que possa converter-se em fórmula, era a sua maneira.  Sobre o seu métier, não tinha dúvidas: o fotógrafo é um ficcionista. Quem tira uma fotografia está a contar uma história. A verdade é secundária pois não se trata de documento; a mensagem é o que conta. Susan Sontag chegaria á mesma conclusão: - “o fotógrafo é o grande mitólogo”.
Avedon descobriu em Suzy Parker - a famosa modelo nova-iorquino dos anos 50 -, que a beleza da mulher é inseparável da vulnerabilidade, da ansiedade, e da solidão. E, como recomenda Derrida, recorreu ao contraste para melhor se fazer entender. Colocou o seu modelo entre elefantes! A ninguém restam dúvidas quanto ao que Avedon entendia ser a essência do belo feminino: tudo, menos paquidérmico.
 
                                           
Inspirado (literalmente) por  Avedon, Billy Willer  faria a glorificação do belo feminino servindo-se do contraste Audrey Hepburn /Humphrey Bogart na inesquecível Sabrina. No caso, coube a Humphrey vestir a pele do elefante. (Que tempos maravilhosos, os anos de 50 – antes do de Gaulle !!!. Nunca mais voltarão; os anos 60 estragaram tudo, a começar pelos Beatles). Avedon – como todos nós - perdeu-se no caminho. Os anos de 70 tornaram-no ávido do sórdido. Faria contrastes do belo manequim semi-despida com esqueletos vestidos a rigor. Aceitou Derrida e enveredou pela fotografia sistemática das deformações  que o trabalho provoca no corpo humano. Os que não compreendiam a intenção desconstrutiva, acusaram-no de falta de respeito pelos modelos. É desta fase que data a ilustração da destruição física de seu pai.
O’Donoghue faz também questão de nos transmitir a decomposição física do seu pai, no final da vida. Usou para tanto a fotografia e o pincel. Simplificou e neutralizou. A figura do pai  diluí-se como tudo o que o cerca. O pai de O’Donoghue não é destruído; apaga-se, desaparece.
 
                 
 
A mulher de O’Donoghue flutua
                  
 
A filha parece ser a única pessoa da família que se quer prender ao mundo. Procura abrigo, se bem que este pareça algo improvável. 
 
                           
 
 
 
Avedon e O’Donoghue ambos rejeitam padrões impostos ao artista, limitativos da sua capacidade de criar. Dizem isso, mas será mesmo assim? A preocupação, partilhada por ambos, de exibir exclusivamente em museus não será indício claro da aceitação dos moldes consagrados, prova de conformidade com os padrões estabelecidos? Diria que sim.
 
Estoril, 2 de Agosto de 2008
 
Luís Soares de Oliveira. 

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