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A bem da Nação

ACORDO ORTOGRÁFICO - 6

 

 
 
 
As línguas vivas evoluem; as mortas não bulem.
 
E evoluem a partir de uma base através de um processo etimológico-fónico. Essa evolução pode ser mais ou menos elaborada conforme feita por uma de duas vias: a erudita ou a popular. É frequente coexistirem expressões com a mesma origem que evoluíram em paralelo por cada uma dessas vias. Por exemplo, têm actualmente plena legitimidade expressões alternativas como «morto» e «morrido» ou «matado» e como «frito» e «fritado». Os exemplos são tantos que seria fastidioso estender o rol.
 
Ou seja, a cátedra fica-se hoje pelos mesmos direitos que a rua mas aquela sabe o que diz enquanto esta repete o que ouve e frequentemente deturpa pelo que lhe soa. Isto é, a via erudita respeita a base etimológica enquanto a via popular segue sobretudo a base fónica.
 
A reconhecida igualdade de direitos entre as duas vias resulta claramente da necessidade sentida por alguém de legalização duma delas – a popular – que até há pouco tempo representava a larguíssima maioria da população. Basta-nos recordar que aquando da implantação da República (1910) o analfabetismo adulto rondava os 90% da população residente, que em 1974 essa taxa ainda era de 25% e que hoje, 2008, ainda devemos padecer de uns 4 ou 5%. Ou se legalizava a via popular ou se ilegalizava a maioria da população... ao contrário do que alguém terá dito nos tempos soviéticos: «O povo não concorda com o Comité Central, mudemos de povo».
 
Então, no que ficamos? O que mais vale?
 
A resposta só pode ser uma: há que optar pela educação ou pela falta dela.
 
Mas como nesta sociedade post-moderna em que vivemos o que prevalece é o alcance das metas sem grande preocupação com os meios para atingir esses fins, havia que arranjar estatísticas nivelando por baixo para nelas cabimentar uma sociedade avessa à erudição, desconfiada dos Doutores que equipara aos burros carregados com livros.
 
Mas se até os navegantes sentem necessidade de faróis e bóias sinalizadoras, como poderemos encarar o futuro da nossa língua se sucessivamente desprezarmos a etimologia e optarmos pela sonoridade?
 
Camões e Fernando Pessoa têm versos que parece terem sido escritos a semana passada e os mais conhecidos escritores dos PALOP’s escrevem em português europeu. Ou seja, a erudição lusófona tem uma claríssima tradição europeia e uma parte importante da erudição brasileira é pertença da mesma escrita. Em todos os escritores de renome, as expressões populares são maioritariamente reservadas ao discurso directo, raramente ao indirecto e praticamente nunca às partes descritivas.
 
E como a erudição popular não existe, essas expressões mais vernáculas acabam por desempenhar nos textos literários a função folclórica e são sobretudo registadas como a forma que o autor escolheu para lhes garantir a vida para além da morte: - Naquele tempo e naquele lugar falava-se assim... Verdadeira visita a museu da língua, para não dizer que se trata da visita a algum jardim zoológico.
 
Daqui resulta uma reacção negativa por parte da erudição portuguesa face ao Acordo Ortográfico agora ratificado: se perdermos o padrão, nunca uma variante se imporá como norma pois não faltarão regionalismos que não farão sentido noutras regiões. Basta recorrermos ao calão actual da juventude portuguesa para deixarmos qualquer plateia escolástica perturbada com a eventualidade de um novo Acordo Ortográfico que dê abrigo a essa variante agora já tão legitimável como qualquer outra.
 
Não é por os carregarmos de livros que eles serão Doutores e à mesa dos eruditos não são chamadas a savana, a favela nem o Cais do Sodré. Temos que os educar para que subam à nossa mesa, não somos nós que nos devemos baixar. Para não referir os interesses comerciais que o fundamentam, o actual Acordo Ortográfico é favelar.
 
Lisboa, Julho de 2008
 
 
    Henrique Salles da Fonseca
(na Mesquita de Delhi, Janeiro de 2008)

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