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A bem da Nação

Burricadas nº 38

 

Agora é que vão ser elas - I
v    Dificilmente o Leitor se recordará do que eu escrevi nos idos de Abril (Burricadas nº 28).
v    Perdoe-me a imodéstia, mas cito-me: “Se isto (a propagação da crise do crédito hipotecário às Agências Financiadoras norte-americanas: FANNY MAE, FREDDIE MAC e GINNIE MAE) acontecer, será o colapso do sistema financeiro internacional, tal como tem vindo a ser laboriosamente construído nos últimos vinte e cinco anos”.
v    Aconteceu! Duas destas Agências, FREDDIE MAC e GINNIE MAE (que não são as maiores GSE/Government Sponsored Entities, como melifluamente as Autoridades lá do sítio se lhes referem), encontram-se em sérias e públicas dificuldades - havendo mesmo rumores de que estão em completa ruptura financeira.
v    Estranhamente, os comentadores de serviço só parecem ter olhos para o trambolhão que as acções das GSE (e não só daquelas duas em aflição) deram nestes últimos dias. Situação certamente desagradável para quem é accionista, mas sem nenhuma expressão ao nível das maiores Bolsas, muito menos dos mercados financeiros internacionais.
v    Passou despercebido a esses “fazedores de opinião”, até agora pelo menos: (a) que as GSE são, depois do Tesouro dos EUA, os maiores emitentes mundiais de Obrigações de Taxa Fixa (OTF); e (b) que todos os instrumentos financeiros, dos mais rudimentares aos mais sofisticados, giram em torno das OTF de risco (de crédito) desprezável (como eram consideradas, até ao ano passado, as Obrigações emitidas pelas GSE, uma vez que as Obrigações do Tesouro norte-americano não chegavam para as encomendas).
v    Antes de tentar adivinhar o que isto significa, há que averiguar porquê Instituições com critérios de aprovação reconhecidamente rígidos (por exemplo: só aceitavam devedores “prime”; a quantia emprestada não podia representar mais que 80% do valor atribuído à casa dada em garantia; a taxa de juro permanecia constante até ao fim do empréstimo; o prazo global dos empréstimos não ia além de 30 anos) acabaram por ser tão duramente atingidas pela crise dos créditos hipotecários “subprime” (justamente aqueles que não respeitavam nenhum desses critérios).
v    Dizia Sherlock Holmes que, uma vez afastado o impossível, o que resta é a verdade. Ora o impossível, neste caso, tem muitas caras:
v    Um amplo lote de devedores “prime” caiu, de um dia para o outro, na insolvência. Devido a quê, se a economia norte-americana vinha de um longo período de prosperidade?
v    De um ano para o outro, o valor de mercado das casas hipotecadas caiu abaixo do capital ainda em dívida. Como assim, se o grosso dos créditos hipotecários em carteira fora constituído pelas GSE anos atrás, quando os preços no imobiliário não tinham atingido ainda os píncaros de 2005/2006?
v    O serviço de todas essas dívidas tornou-se insuportável. Por que bulas, se as taxas de juro eram as mesmas de antanho e o capital em dívida, muito provavelmente, menor?
v    O que se passou, então?
v    Como sempre em episódios destes: Autoridades (no caso, Autoridades Monetárias, Autoridades de Regulação e Autoridades de Supervisão) distraídas, Autoridades míopes (que tomavam as suas ficções pela realidade, e assim eram fintadas pelo vulgar cidadão), Autoridades negligentes (que viam, mas fingiam não ver) e Autoridades cúmplices (que não hesitavam em violar as suas próprias regras, na esperança de abafarem más notícias).
v    Pegando na tese dos devedores “prime” que, num ápice, se teriam transfigurado em devedores de alto risco.
v    A política de dinheiro barato que vinha a ser seguida pelo FED (Reserva Federal Americana) desde praticamente a crise de Outubro de 1987, deu riqueza, deu bem estar, mais recentemente escaldou os dedos nas Bolsas (a crise dot.com) – e acabou por desencadear uma escalada de preços no mercado imobiliário dos EUA (e de tantos outros países).
v    Com os preços a subir (e a subir muito), nas casas hipotecadas, uma vez deduzido o capital ainda em dívida, sobrava cada vez mais valor residual (aquilo que se designa por “home equity”). E havia sempre um Banco interessado em fazer um 2º empréstimo sobre esse valor residual que se cria perpétuo.
v    Com taxas de juro muito baixas (e com teóricos, práticos e sábios a jurarem pelas alminhas que taxas de juro baixas assim tinham vindo para ficar), aí estava um dinheiro fácil e baratinho para gastar e alegrar a vida. Muitos, veio-se a saber tarde demais, não resistiram à tentação (acenada, ainda por cima, como sendo a decisão verdadeiramente racional).
v    E se as taxas eram baixas para uma 2ª hipoteca, também não seriam altas para uma 2ª habitação. Deste modo, devedores inicialmente solventes, aqui, reuniam sobre uma mesma casa um crédito hipotecário “prime” e um crédito hipotecário “subprime”; ali, ficavam a servir dois empréstimos que, isoladamente considerados, até poderiam ser “prime”, mas que o sobreendividamento do devedor comum tornava de alto risco.
v    Teria bastado esta conjugação de 2ªs hipotecas / 2ªs habitações para contaminar rapidamente as carteiras de créditos hipotecários “prime” – designadamente as das GSE.
v    Os Supervisores, esses, insistiam em ver os créditos sobre pessoas singulares como operações independentes. Mas, tivesse havido o cuidado de apurar quanto cada devedor devia ao nível do sistema financeiro, e o sobreendividamento de tantos deles ressaltaria de imediato.
v    Vê-se agora que muitos Bancos não possuíam Capitais Próprios suficientes para acomodar o cúmulo de risco a que se iam expondo. Mas dava-se o caso de esse cúmulo de risco se formar e ser visível, não tanto no Balanço deste ou daquele Banco mais imprudente, mas no conjunto do sistema financeiro.
v    Não só. Como no caso dos grandes Bancos norte-americanos, Supervisor e Autoridade Monetária eram uma e a mesma entidade (FED), as preocupações sobre a estabilidade do sistema bancário sobrepuseram-se, logo nos primeiros dias da crise, a tudo o mais.
v    Diz-se (mas não consegui confirmar) que as GSE foram convidadas, bem cedo, a dar uma mãozinha aos Bancos mais aflitos, cedendo-lhes Balanço (o que é dizer, adquirindo-lhes créditos hipotecários “subprime”, em clara violação dos estatutos que deviam observar). Isto, sabendo-se já das dificuldades do Banco Bear Sterns - cujo Balanço era constituído, na sua grande maioria, não por créditos hipotecários “subprime” (como se julgaria à primeira vista), mas por créditos hipotecários “prime” e “Alt A” adquiridos junto das GSE, tempos antes.
v    A contaminação, já então, se fazia sentir. Só que ninguém estava preparado para vê-la. (cont.)
 
Lisboa, Julho de 2008
 
A. PALHINHA MACHADO

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