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A bem da Nação

Trabalhadores, valentes, de antanho !

 

 
Há quanto tempo terão sumido do cenário de trabalho, em Portugal, os rogas, os charnecos ou cortilhões, os caramelos de estar e os de ir e vir, os gaibéus, os talvez mais conhecidos ratinhos, e as saudosas varinas? Só prevalecem talvez alguns saloios!
Vai sumindo, e ainda bem, este tipo de trabalhadores, substituídos por equipamentos modernos, mas é pena que se apague da memória dos portugueses, quem foram, o que faziam e porque se chamavam assim!
As célebres varinas devem ser as mais lembradas, sobretudo na área de Lisboa! Com a deslocação de pescadores da região de Aveiro, Ílhavo, Ovar, que procuravam melhores condições de vida, assim se estabeleceram em Sesimbra e nas margens de Lisboa, e fizeram surgir esta figura impar, que ficou a dever o seu nome a uma origem geral: Ovar. As ovarinas! As «mulheres de andar flexuoso e língua pronta, que em canastras graciosamente equilibradas à cabeça vendem peixe nos bairros populares».
 
  Varina
 
E os ratinhos? Ainda hoje recordados, com saudade, no Alentejo, os trabalhadores idos das Beiras e até de Trás-os-Montes, na altura da ceifas. Chegavam às centenas, nos primeiros tempos a pé ou em carros de bois, mais tarde em autocarros, sempre alegres, cantando, e desempenhando o seu trabalho com muito cuidado e conhecimento. Nos momentos de laser, juntos cantavam, dançavam e davam àquele Alentejo de gente rude e cantigas arrastadas, como o clima e o terreno, a sua alegria trazida das terras agrestes!
Os rogas? Quem sabe o que eram? Gente das terras altas da margem do Douro, homens, mulheres, crianças e por vezes até idosos, desciam a encosta, também cantando e bailando para ir colher as uvas que davam, e dão, o famoso vinho do Porto. Vinham alegres porque era uma das raras oportunidades para ganhar algum dinheiro, comer uvas e se distraírem da vida pobre das serranias despidas. Os rogas!
Os charnecos ou cortilhões, gente da Beira Baixa, sempre das terras altas e pobres de xisto, que desciam para a tirada da cortiça e apanha da azeitona nos campos da Raia, onde lhes puseram estas alcunhas (apelidos) desprezíveis, que lembram as serras de matagais de onde vinham e as pobres casas de pedra onde viviam, semelhantes aos cortelhos, nome dado aos abrigos para porcos!
Para trabalhar valas e arrozais eram especialistas os caramelos, da Beira Litoral, que sabiam preparar para culturas os terrenos alagadiços do baixo Mondego, da Ria de Aveiro e mais tarde nas charnecas e brejos da península da Arrábida. Alguns acabaram por se fixar à volta de Setubal: os caramelos de estar! Os que continuaram a ir e voltar das suas terras para novos trabalhos, eram os caramelos de ir e vir! Caramelos, talvez porque parte das novas terras conquistadas aos brejos se destinavam à cultura da cana de açúcar de onde se faziam os caramelos (do latim cannamellis, cana doce como o mel!).
Com a mesma finalidade iam do norte do Ribatejo para as lezírias os gaibéus. Dormiam em abrigos improvisados que se infestavam de malária, mas voltavam sempre que os seus serviços eram requeridos. Este seu ir e vir fez com que na região de Lisboa o termo gaibéu ficasse na gíria como vadio, o que é uma tremenda injustiça, visto tratar-se de gente trabalhadora e sofrida.
Muitas outras profissões desapareceram. Para os saudosistas é uma pena. Para essa gente foi uma benção!
Só devem sobrar hoje os saloios, gente brava sempre da região de Sintra, onde já na época da moirama (de onde vem o nome) eram conhecidas as suas maçãs como as maiores e melhores que o mundo conhecia! As deliciosas reinetas! Eram os saloios que abasteciam Lisboa de frescos, e como à entrada da cidade havia que pagar um imposto, este ficou também conhecido como «o saloio»!
Bons tempos... ou saudade?
 
Fonte principal: Geografia de Portugal - III - O Povo Português. O.Ribeiro, H. Lautensach, S. Daveau
 
 
 
Rio de Janeiro, 24 de Junho de 2008
 
Francisco Gomes de Amorim

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