Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

DITOS ANTIGOS

 

 
 
Basta já termos alguns anos para nos lembrarmos dos antigos dizerem que Fulano ou Beltrano estava muito doente, que «tinha a espinhela descaída».
 
Sempre me intrigou tal expressão e foi debalde que perguntei e gente antiga mais ou menos culta ao que se referia tal moléstia. A primeira vez que ouvi a expressão foi ao médico que assistia aos meus Avós.
 
Para grande alívio do meu Avô que julgava estar com uma insuficiência coronária a que então se chamava «angina de peito», o médico disse-lhe que não era isso que ele tinha, que sossegasse, que talvez fosse a «espinhela descaída». Bastava ir ao hospital fazer uma radiografia e ficava-se logo a saber se era isso ou não. Mas que angina de peito não era pois o electrocardiograma não enganava.
 
Pela radiografia se ficou a saber que também não era a espinhela que o incomodava e... já esqueci a conclusão do diagnóstico e tratamento sequente mas ele acabou por morrer muitos anos mais tarde duma causa para que ainda hoje, passados 40 anos, não há cura: idade muito avançada.
 
E volta que não volta, lá ouvia eu referências à famosa «espinhela descaída». Neste sisma andei quase meio século até que há dias numa conversa de esplanada no meu clube veio o tema à baila e, mais uma vez, nem cultos nem remediados de Cultura souberam responder. Mas uma das presentes era a minha prezada amiga Dr.ª Elsa Simão, ilustre investigadora de ciências farmacêuticas, cuja curiosidade se deve ter sentido “picada” e, vai daí, pôs-se à procura da solução do mistério.
 
Passados uns dias estava eu em casa a estudar outros assuntos na Internet e eis senão quando noto que tinha uma mensagem nova na caixa de correio. Fui ver e... a neve não caía do azul-cinzento do Céu, nem branca e leve nem branca e fria... Era, sim, uma mensagem da minha amiga farmacêutica que me esclareceu definitivamente sobre o significado da expressão misteriosa.
 
Então, assim reza a Wikipedia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Espinhela que cito sem transcrever na íntegra para aguçar o interesse de quem quiser saber mais:
 
  • Espinhela descaída é a designação popular de uma doença caracterizada por forte dor na boca do estômago, nas costas e pernas, além de um cansaço anormal que acomete o indivíduo ao submeter-se a esforço físico. Segundo a tradição popular, a espinhela é um osso pequeno, flexível, parecendo um nervo, que se encontra no meio do peito, entre o coração e o estômago e que pode curvar para dentro.
 
 
Mais objectivamente, trata-se da ossificação do apêndice xifóide, cartilagem no extremo inferior do externo, que desse modo perde a flexibilidade e passa a interferir com os órgãos próximos – estômago, diafragma, fígado, pâncreas – causando incómodos como os referidos, ou seja, gastralgias, vómitos, perturbações respiratórias, pancreáticas e hepáticas.
 
Da terapêutica moderna nada refere a dita enciclopédia mas do receituário antigo faziam parte certas rezas que se dizia serem muito eficazes.
 
 
Espinhela descaída, portas para o mar;
Arcas espinhelas, em teu lugar.
Assim como Cristo, Senhor Nosso andou,
Pelo mundo arcas espinhelas levantou.
 
Mas havia quem se sentisse melhor com estoutra:
 
Espinhela descaída, ventre derrubado,
Eu te ergo, eu te curo, eu te saro.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo,
Da espinhela descaída estás curado.
 
E os exemplos são tantos que seria fastidioso transcrevê-los. De qualquer modo, se quem me lê sentir algum daqueles sintomas, sugiro que procure o médico e não o xamã. Posso garantir de fonte segura que não foi com rezas que o meu Avô – uma das pessoas mais eruditas que alguma vez conheci – se curou mas sim e apenas com o apropriado conselho médico.
 
Junho de 2008
 
Henrique Salles da Fonseca

2 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D