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A bem da Nação

«Hoje são campos onde foi Tróia»

 

 
 
 
Meava o séc. XVI quando ali, onde começava o juncal na margem do Tejo e nele confluíam as ribeiras de Alcântara e do Alvito, um rico mercador genovês decidiu assentar arraiais mandando construir um casarão a que o povo chamava palácio. Ali desfrutava da brisa nas noites quentes e geria à vista os barcos que tinha por conta, fundeados ao largo, em escala das rotas entre o norte da Europa e os confins do Mediterrâneo. Era a partir daquela enseada que mandava rumar para Lisboa, para Génova ou para o resto do mundo.
 
Vivendo em Portugal, entendeu que devia contribuir com os seus cabedais para o bem do reino: fez empréstimo vultoso às tropas de D. Sebastião que zarpavam para Marrocos e tudo perdeu.
 
Depois do desastre de Alcácer Quibir, as tropas do rei de Espanha, desembarcadas em Cascais, encontraram-se nas margens daquela enseada com as que eram fiéis ao Rei D. António, Prior do Crato. Ao fim de três dias de luta, foi ali que Portugal chorou.
 
O novo Rei, Filipe, gostou do local e decidiu que quando viesse a Lisboa passaria a residir naquele palácio. Confiscou-o. Sem dinheiro e sem palácio que lhe desse crédito, do genovês nunca mais se ouviu falar.
 
E assim foi que o casarão perto do início do juncal passou a servir de morada aos reis espanhóis em Lisboa. Não vieram cá tanto como gostariam pois a consciência devia dizer-lhes qualquer coisa especial e foi mais o tempo que andaram pela Meseta do que pela foz do Tejo.
 
Frente ao palácio havia um terreiro e já quase sobre a praia o genovês mandara construir as cavalariças e aposentos da criadagem. Do outro lado do caminho que da praia subia para a encosta mandou o rei Filipe I construir um convento e respectiva Igreja para as freiras Flamengas em fuga da reforma calvinista na Flandres. Frente a este, do outro lado do caminho que levava ao longo do Tejo e já sobre a praia, foi construído outro convento, desta feita para as freiras do Monte do Calvário.
 
Morada dos reis Filipes quando por cá passaram, no palácio residiram por períodos consideráveis os Reis D. João IV, D. Afonso VI e D. Pedro II. D. João VI ainda por lá pernoitou uma ou outra vez mas Junot já não quis lá ficar pois achava que o local estava muito exposto a eventuais surtidas inglesas Tejo adentro.
 
Desprezado, cedo entrou em degradação e já então faltaram as verbas para preservar um edifício historicamente tão rico. Foi mais barato demoli-lo e suprir alguma da calista sofreguidão pública por finanças privadas dedicando o local à especulação imobiliária.
 
Ao terreiro do palácio chamamos hoje Largo do Calvário, ao juncal que se estendia a partir daquela zona da margem do Tejo chamamos Junqueira, nas cavalariças está actualmente instalada “A Promotora”[2], a Igreja das Flamengas continua aberta ao culto, o convento do Monte Calvário é agora a Academia Superior de Polícia e no sítio onde esteve o palácio... «hoje são campos onde foi Tróia». E nós passamos por lá sem sequer tirarmos o chapéu em sinal de respeito por tanta História que por ali se escreveu. Mas como poderíamos tirá-lo se nem sequer o usamos? É claro que é mesmo só por isso que não demonstramos qualquer respeito pelos locais que atravessamos e pelas pedras que pisamos...
 
E quanto ao genovês, eu hei-de descobrir-lhe o nome pois não é com esquecimento que se paga uma dívida a quem tanto fez para servir Portugal.
 
Junho de 2008
 
Henrique Salles da Fonseca


[1] - Padre Raphael Bluteau, 1712
[2] - Sociedade Promotora de Cultura Popular, dedica-se há cerca de um século à instrução das populações, nomeadamente ministrando o Ensino Básico e alfabetizando adultos

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