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A bem da Nação

A VIAGEM DA FAMÍLIA REAL PARA O BRASIL, 1807-1808

 

 
Por Kenneth H Light
 
2ª Parte
 
Ao sair do Tejo, a Esquadra portuguesa encontrou-se com o esquadrão britânico. Este esperava, velejando em linha de batalha, com todos os navios prontos para o combate. Até pouco tempo antes, Portugal e a Grã-Bretanha encontravam-se em guerra. Sir Sidney não queria correr qualquer risco. Somente após um diálogo amistoso, houve a troca de salvas. A jornada começou com os navios velejando rumo ao noroeste, pois os ventos de tempestade do sudeste não permitiam outra alternativa. Uma vela no mastro real era suficiente para manter a velocidade evitando que as ondas atingissem a popa. As peças mais altas dos mastros (mastaréu, mastaréu do joanete e vergas) foram desarmadas e amarradas no convés para reduzir o centro de gravidade. Este rumo era mais confortável e menos perigoso, do que aproar os navios rumo à Ilha da Madeira e receber o mar de través; mesmo assim ficaram submetidos à arfagem. O navio-capitânia britânico, o Hibernia, ao anoitecer, registrou 56 navios à vista.
 
No terceiro dia, com a mudança na direcção do vento, foi possível mudar o rumo; no dia seguinte atravessaram a latitude de Lisboa, indo em direcção à Madeira. Eram 18 navios de guerra portugueses, 13 navios britânicos e 25 navios mercantes. A 5 de Dezembro, aproximadamente a meio-caminho entre Lisboa e Funchal (Madeira), parte do esquadrão britânico, após a troca de salvas com a Esquadra portuguesa, alterou rumo para voltar ao bloqueio de Lisboa. Um pequeno esquadrão de 4 navios, Marlborough, London, Bedford e Monarch, sob o comando do Comodoro Graham Moore (Capitão do Marlborough), continuaria escoltando a Esquadra portuguesa até ao Brasil.
 
A 8 do mesmo mês, com receio de se aproximar à noite de um perigo conhecido como "Oito Pedras" que fica ao norte de Porto Santo (Madeira), a Esquadra portuguesa parou. O Marlborough e o Monarch também pararam. Durante a noite com visibilidade muito reduzida devido à chuva, o Príncipe Real e o Afonso de Albuquerque partiram com suas fragatas rumo noroeste (novamente o vento soprava sudeste) sem dar qualquer sinal. O resultado foi que, na manhã seguinte, se encontravam velejando escoteiro, o Príncipe Real com a fragata Urânia, o Afonso de Albuquerque com a fragata Minerva e o Bedford. Ainda parados no mesmo local, o Rainha de Portugal, o Conde D. Henrique, o Marlborough e o Monarch. Todos os Comandantes agora tomaram a decisão correcta: partiram para os rendez-vous previamente combinados, sucessivamente, a oeste da Madeira, ao largo da Ilha de Palma (Canárias), e Praia, na Ilha de S. Tiago (Cabo Verde). A 11 de Dezembro, o Príncipe Real e o Afonso de Albuquerque, que basicamente tinham seguido o mesmo rumo, encontram-se. A 14 de Dezembro, o Bedford avistou-os e, no dia seguinte, pôde anotar que viajavam "em conserva".
 
A 21 de Dezembro, D. João informou o capitão James Walker (Bedford) que tinha decidido ir, sem parar, ao Brasil. O andamento da Esquadra era razoável e não faltavam água ou mantimentos. Naquela noite, o Minerva fora enviado a S. Tiago para avisar os demais navios da decisão do Príncipe Regente. Os quatro navios, que tinham passado a noite parados perto da Madeira, entraram para fazer aguada em S. Tiago a 24 de Dezembro e lá encontraram o Minerva. O London, que tinha sido enviado para fazer aguada na Madeira, fundeou dois dias depois.
 
A 27 de Dezembro, partiram com destino a Cabo Frio, distante 823 léguas. Tinham conhecimento que os navios, com a Família Real, velejavam num rumo paralelo ao leste. Assim, diariamente, ao alvorecer, o Monarch recebia sinal para se deslocar para o horizonte no sudeste, aumentando desta forma a área sob observação. À noitinha, recebia sinal para voltar, evitando perder-se na escuridão. A 2 de Janeiro de 1808, o Bedford reportou que estava avistando três navios no horizonte. A falta de vento e o facto de que era o único navio de escolta junto à Família Real, impedia-o de investigar. Naquela noite, colocou uma luz azul no topo do mastro. O livro de quartos do Marlborough regista, às 11h30 da noite, que viu uma luz azul no horizonte. Ao meio-dia, as tomadas de posição dos dois navios mostram uma diferença de 5 minutos de latitude e 1 grau e 5 minutos de longitude. Podemos hoje ter a certeza de que as duas esquadras, que viajavam independentemente, pelo menos durante a noite, estavam à vista uma da outra e, por pouco, não se encontraram. Caso tivesse ocorrido, será que D. João teria ido à Bahia, aonde assinou a "abertura dos portos"? Como se teria desenvolvido a História?
 
Os navios com a Família Real a bordo, aproximando-se do Equador, entraram numa área de calmarias lá existente. Levaram 10 dias para galgar 30 léguas (esta distância levaria 10 horas com um bom vento). Após as calmarias, o vento continuou vindo do sudeste, não permitindo que os navios desenvolvessem uma velocidade regular. A 16 de Janeiro, o Príncipe Real arvorou sinal, dirigido ao Bedford, que tinham mudado de planos: alterariam o rumo para poder entrar na Bahia.
 
Neste mesmo dia, o Urânia interceptou o brigue Três-Corações, enviado pelo Governador de Pernambuco, com frutas e verduras frescas.
A 22 de Janeiro de 1808, após 54 dias no mar, fundearam em Salvador. O Príncipe Real levava 1.054 pessoas a bordo. A primeira etapa da viagem havia terminado.
 
Alguns dias antes, a 17 de Janeiro, os navios que tinham velejado directamente de S. Tiago entraram no Rio de Janeiro. Aos poucos, todos os navios foram chegando: o Medusa, bastante avariado, entrou no Recife a 13 de Janeiro; o D. João de Castro, avariado e fazendo água, fundeou, no início daquele mês, na Enseada de Lucena (Paraíba).
 
(continua)
 

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