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A bem da Nação

A VIAGEM DA FAMÍLIA REAL PARA O BRASIL, 1807-1808

 

 
Por Kenneth H Light
 
 
1ª Parte
 
Em Novembro deste ano (2008) comemoraremos 190 anos de um dos mais importantes eventos da História Luso-Brasileira: a viagem do Príncipe Regente D. João, da corte, e de todos aqueles que encontraram lugar num dos 36 navios, para o Brasil. Talvez um total de 12.000 a 15.000 portugueses.
 
A decisão sábia deste grande estadista, que foi D. João, teve consequências positivas para Portugal, Brasil e Inglaterra. Apenas a França lamentaria o evento.
 
Ao contrário de outros países invadidos por Bonaparte, a sua decisão salvou a própria essência da nação portuguesa – a sua Família Real e corte – que sobreviveu incólume, manteve seu reino e até mesmo prosperou em sua rica colónia.
 
A presença da monarquia portuguesa no Brasil acelerou seu desenvolvimento; uma vez criado o Reino Unido de Portugal, Algarves e Brasil em 1815, a independência tornar-se-ia inevitável. A Inglaterra, após vários meses de bloqueio do Tejo, apoiada na Ilha da Madeira, atacaria as tropas francesas em território português e, após derrotá-las, continuaria a guerra até a batalha final em Waterloo. A abertura dos portos, promovida por D. João, logo após a sua chegada a Salvador, traria grandes benefícios.
 
Devido à falta de documentação, detalhes desta importante viagem, até há pouco tempo, eram totalmente desconhecidos. Agora tudo mudou, pois foram descobertos no Arquivo Nacional de Londres os livros de quartos de todos aqueles navios que bloqueavam o Tejo em Novembro de 1807 e daqueles que escoltaram a Esquadra portuguesa na sua jornada. Os livros, escritos à mão muitas vezes debaixo de severas tormentas no mar, reflectem o inglês da época e a terminologia única da Marinha britânica. O trabalho de decifrá-los levou cinco anos e, mesmo sendo orientados para os navios britânicos, é praticamente a única documentação com detalhes que sobreviveu. Em 1995, ao completar a pesquisa, publiquei este trabalho que hoje se encontra em bibliotecas, universidades e museus, no Brasil, Portugal, Estados Unidos, Inglaterra e Espanha; especialmente onde se concentra o estudo da História Luso-Brasileira.
 
Em 1807 a França tinha derrotado todos os seus adversários, com excepção da Inglaterra. Esta tinha frustrado a tentativa francesa de a invadir pois dominava os mares após a batalha de Trafalgar em 1805. O bloqueio continental, introduzido pela França em 1807 como forma de pressionar economicamente a
Inglaterra, era quase total; apenas faltava a adesão de Portugal. Em Novembro daquele ano, mesmo após ter implantado as medidas exigidas pela França contra seu aliado tradicional – a Inglaterra – Portugal encontrava-se sem alternativas. Sua fronteira terrestre estava invadida pela França e pela Espanha, que marchavam rumo a Lisboa. Em retaliação às medidas tomadas contra os seus súbditos, um esquadrão britânico, sob o comando de Sir William Sidney Smith, mantinha o Tejo sob bloqueio. França e Espanha tinham, a 27 de Outubro, assinado o tratado de Fontainebleau; Portugal deveria ser repartido em três e entregue aos invasores. A gota de água foi a entrevista com Bonaparte publicada no Le Moniteur de 11 de Novembro, na qual, Bonaparte deixava claro o que iria acontecer com a Família Real de Portugal, quando suas tropas lá chegassem. O jornal chegou às mãos de D. João, vindo de Inglaterra no navio HMS Plantagenet, a 24 de Novembro. O Conselho de Estado, presidido pelo Príncipe Regente, a 24 Novembro tomou a decisão de partir para o Brasil. A inteligência de D. João revelava-se mais uma vez; os navios da Esquadra estavam todos prontos. Durante os seis meses anteriores, a viagem tinha sido organizada, sem levantar suspeitas junto a França ou Espanha. Outro trunfo era o convénio que tinha sido assinado, a 22 de Outubro. A nação que dominava os mares escoltaria a Esquadra portuguesa na sua jornada.
 
A 27 daquele mês, pela manhã, a Família Real embarcou. Ela estava assim distribuída:
- no Príncipe Real: Rainha D. Maria I, Príncipe Regente D. João, Príncipe da Beira Infante D. Pedro, seu irmão Infante D. Miguel e o Infante da Espanha D. Pedro Carlos;
- no Afonso de Albuquerque: Princesa do Brasil D. Carlota Joaquina, com suas filhas, Infantas D. Maria Isabel Francisca, D. Maria da Assunção, D. Ana de Jesus e Princesa da Beira Infanta D. Maria Tereza;
- no Príncipe do Brasil: a Princesa viúva D. Maria Francisca Benedita e a Infanta D. Maria Ana, ambas irmãs da Rainha;
- no Rainha de Portugal: as filhas de D. Carlota Joaquina, Infantas D. Maria Francisca de Assis e D. Isabel Maria.
 
Na noite do dia 28 o vento mudou de direcção, agora soprava do sudeste, permitindo a saída do Tejo. Cedo, no dia 29, os navios começaram os preparativos para a viagem: levantar o ferro e guardar o cabo, colocar mastros e vergas em posição, soltar velas e receber a bordo o prático do rio. A partida não poderia ter sido adiada pois apenas 18 horas depois, Junot, comandante das tropas francesas, alcançaria Lisboa. Hoje, nosso conhecimento dos navios que empreenderam esta viagem é quase nulo. Prova disto é a resposta correcta para uma pergunta relativamente simples – o trabalho de levantar o ferro, amarrá-lo na proa e guardar o seu cabo, ocuparia quantos homens? A resposta correcta, que poderá surpreender muitos, é 385 homens! Também desconhecemos a qualidade das refeições, a medicina e a higiene a bordo, o tédio, o perigo e as incertezas do futuro. Devido ao espaço limitado, somente aqueles fatos novos ou diferentes daqueles que foram escritos anteriormente estão incluídos neste artigo. Vale a pena lembrarmos que, até então, tudo que foi escrito sobre a viagem, foi escrito por observadores em terra; agora podemos ser observadores no mar!
 
(continua)

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