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A bem da Nação

CRÓNICAS DE MOÇAMBIQUE

 

 
 
Carta Aberta a uma muito amiga, Luso-Moçambicana, desiludida com a política em Portugal e no Mundo…
 
 “Where liberty dwells, there is my country.”
(Aonde estiver a liberdade, aí está o meu País - Benjamin Franklin[1] sábio norte-americano, 1706-1790)
 'Consolo'  (detalhe desenho de JC 1990)
Minha mui cara amiga, que dizer para te consolar?
 
Acompanhar os fenómenos políticos e discuti-los não é gostar de política mas estar atento/a. Ter consciência política é estar lúcido/a pois nossa vida (para o bem e para o mal) depende da política – palavra de origem grega - politiké [2]- que provém de (Póleis) polis = cidade; e da arte de governar a cidade, de planificar a vida como tu gostas de fazer e sentes essa necessidade de te organizares...no fundo revelas uma grande atitude política vivencial. És uma mulher muito “política” no bom sentido e não no sentido banal deturpado, negativo,  dado à palavra, pelos concidadãos portugueses (des) pensando no desempenho dos políticos e seus partidos.
 
Talvez sejas mais sensível, mais inteligente, por seres do Género feminino – Gender, como se diz agora e sofras mais e em silêncio neste mundo masculino tão violento se assumindo que ser matchô-man, Rambo style, é ser isso mesmo do género animal agressivo, do macho dominante, em que vale tudo. São resquícios da História da Raça dos homens de todos os 5 Continentes – AAAEO e no consciente colectivo da Europa (e EUA), sobrevivendo-lhes a memória do lendário guerreiro “Aquiles de pés velozes”, cantado nas tragédias gregas pelos vários Homeros adaptado para o latim de Virgílio[3] da Eneida[4] inacabada com o seu Eneias reconstruído, não o do nosso Conselho Municipal de Maputo[5] mas o verdadeiro de Tróia – Hisarlik (actual Turquia), na saga da fundação de Roma há Milénios.
 
Amiga –  Parece ser esse o teu grande erro de raciocínio (apesar de no fundo não ser bem assim...mas uma frustração tua deste mundo conturbado)...Não se trata de gostar ou de desgostar de política mas de ter uma atitude inteligente de observação distanciada e análise do mundo que nos rodeia, sem fechar a porta da nossa capacidade crítica de pensar... (é preciso um distanciamento dos problemas pessoais: annulatione[6] - anularmo-nos de emoção pessoal ou alienarmo-nos, não no sentido moderno (de Hegel e Marx), mas noutro sentido do latim clássico de alienatio[7]– alhear, distanciamento emocional para análise imparcial).
 
O mundo evoluiu com altos e baixos mas os avanços em todos os sectores foram feitos a pensar analiticamente (graças ao desenvolvimento da linguística na capacidade de falar e comunicar) – seja na medicina, mecânica industrial, electricidade, ciência e tecnologia, em todas as invenções para o conforto doméstico – arte e design do mobiliário, electrodomésticos, aparelhos de beleza e estética, até à simples água-de-colónia e after shave, et cetera.
 
Depois do sonho inspirador e da sua materialização, a máquina do progresso surge e move-se elevada num cenário criativo – “Deus ex machina”[8]. Sem essa disciplina matemática do pensamento, ficaríamos presos a conceitos grosseiros de involução, tornando-nos em “Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio sem vontade de evoluir, como o sugeriu na sua obra o poeta luso Guerra Junqueiro (1850-1923)[9] referindo-se com mágoa aos portugueses de seu tempo. (Apesar de adorar esse povo porque no fundo era bom, mas manobrado pelo poder político - financeiro).
 
Por outro lado, espírito crítico político, não é concordar com a política vigente nem com os políticos da oposição. Muito pelo contrário é perceber estudando o fenómeno e estar atento ao processo e nunca se deixar enganar. Mas para isso é preciso acompanhar o que se passa no mundo e como sobrevivermos nele sem abdicar totalmente de nossa liberdade individual. Evidentemente temos de fazer concessões pontuais. Neste caso é preciso usar a cabeça e não o coração. O coração utiliza-se para o Amor ao próximo nos afectos, gratificante na emoção da Paz interior no doarmo-nos aos outros e não se aplica ao estudo frio e analítico da razão na praxis materialista do quotidiano. É necessário um equilíbrio. Caso contrário podemos enlouquecer por total desenquadramento na sociedade, transformando-nos em bichos-do-mato – solipsistas[10] – isolados da vida em comunidade numa perspectiva salutar de convívio baseado no civismo e respeito mútuo.
 
Em relação à tua apreensão pelo momento político e socioeconómico vivido em Portugal, sentindo na pele as avaliações laborais injustas, a insegurança das reformas e outras discriminações, tens a minha solidariedade. Apesar de tudo estamos em Democracia não te esqueças.
 
Em 1940, Mohandas KaramachandGhandi – o Ghandiji Mahatma da Índia e do Mundo teria dito: Western democracy, as it functions today, is diluted Naziism  or Fascism”[11](A Democracia Ocidental, como ela hoje funciona, é nazismo ou fascismo diluído). Mais longe foi Benjamim Franklin, no século XVIII, com a sua fábula metafórica: - Democracy is two wolves and a lamb voting on what to have for lunch. Liberty is a well-armed lamb contesting the vote.” [12] (A Democracia é dois lobos e um cordeiro votando o que vai ser o almoço. Liberdade é um cordeiro bem - armado em igualdade na votação).
 
Bem, como ainda não foi inventado um sistema melhor temos que saber conviver com esta Democracia herdada dos Gregos e dos Romanos[13] e exportada pela Europa à escala global. Mesmo dentro do pressuposto de hegemonia do eurocentrismo é preciso saber adaptá-la “para um futuro melhor”.
 
Amiga,
Aquele abraço (não da canção do artista-ministro Gilberto Gil, brasileiro, mas o meu abraço, mais perto de teu coração).
 
 João Craveirinha
(este JC - não o verdadeiro. Ecce Homo[14], viveu há mais de 2 mil anos)
 
in Jornal Autarca da Beira – Moçambique
Novembro 2007-11 – 07
Coluna Dialogando
 


[1] Benjamin Franklin. Diciopédia 2004. Porto Editora.
[2] Dicionário da Língua Portuguesa. Política. Diciopédia 2004. Porto Editora.
[3] Virgílio – Publius Vergilius Maro – 70 a.C.-19 a.C.
[4] Vergílio (2005). ENEIDA. Bertrand Editora, Lisboa. (ISBN 972-1311-7)
[5] Dr. Eneias Comiche, economista e autarca moçambicano. Presidente do CMM eleito em 2003. http://www.canalmoz.com/default.jsp?file=ver_artigo&nivel=1&id=7&idRec=2256
[6] Dicionário da Língua Portuguesa. Annulatione.Diciopédia 2004. Porto Editora.
 
[7] Dicionário de Português-Latim (2ª edição, 2000). Alienatio.Porto Editora.
[8] Deus ex machina: “Um deus que desce por meio de uma máquina (elevador) ”. Técnica de teatro clássico grego, mencionada na tragédia de Medeia escrita por Eurípides, n.480ª.C /f.406 a.C.
[9] Guerra Junqueiro (Obras de), pag.630. Lello & Irmãos – Editores. Porto. (sem data)
[10] Diciopédia 2004. Solipsista derivado do latim: solu (só) + ipse (si mesmo). Porto Editora.
[11]Arquivo da Time de Segunda-feira, 08 Julho, 1940:http://www.time.com/time/magazine/article/0,9171,795048,00.html (4.11.2007 / 11h00)
 
[12]Benjamim Franklin http://www.benfranklin300.org/ (4.11.2007 / 12h00)
Benjamim Franklin http://jpetrie.myweb.uga.edu/poor_richard.html (4.11.2007 / 12h10)
[13] Mª H. R. Pereira (2006). I Vol. Cultura Grega. Est.Hist.Cult.Clássica. F.C.G, Lisboa.
 (ISBN 972-31-1164-0) e II Vol. Cultura Romana (ISBN 972-31-0959-X)
[14] Ecce Homo – palavras de Pilatos apontando Jesus aos judeus. Dicionário Enciclopédico (a cores) Koogan–Larousse-Selecções 1978 (Lisboa-Rio de Janeiro-Nova Iorque-Paris) página 924.

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