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A bem da Nação

A história de um guerreiro

 

 
                                     
 
Faial
 
 
       Por volta das primeiras décadas dos 1600, no Faial, os LACERDAS eram gente de estirpe e categoria. Naquela época habitava na freguesia dos Cedros, um fogoso e inflado jovem chamado Antonio Silveira de Lacerda Brum, herdeiro da tal família. Valente, porém rude e despótico, até onde a “nobreza” lhe permitia, dedicava-se às caçadas, aos cavalos e às conquistas femininas.
Certa ocasião, então com uma amásia, caiu-lhe na orelha que ela andava de “confidências” com o padre da freguesia. Ficou indignado. Mas como podia ser isto? Ele ser enganado, assim, na frente de toda aquela gente! Brios feridos, preparou uma desforra, mostraria quem era ele realmente.
 
 Dias depois, estando a procissão em homenagem à padroeira pronta para sair, tomado por um sentimento de hostilidade contra Antonio, que se atrasava..., o padre, não se sabe bem o motivo..., mandou repicar o sino e deu inicio ao cortejo, sem esperar pelo jovem que como do costume desfilava no lugar de honra, como exigia a sua posição social. Não andaram muito e Antonio chegou. Irado com tal ousadia, para espanto e incredibilidade dos presentes, avançou para o padre e, com vontade, desferiu-lhe um tremendo soco, derrubando-o no chão. Foi um escândalo, a noticia do episódio se espalhou e indignou toda a comunidade. Mexeu com a Igreja. O resultado não podia ser outro, foi submetido a um processo civil e eclesiástico, porém sua arrogância a todas as chamadas desobedeceu ou ignorou. As autoridades não tiveram escolha, sob coação, capturam-no e enviaram-no para a prisão em Lisboa. Lá , a fama de exímio cavaleiro se propagou e chegou aos ouvidos do rei, que lhe fez uma proposta, lhe daria o perdão se ele domasse e adestrasse um ginete real, temido pela capacidade de espinotear e derrubar os montadores. Hábil como era na arte da equitação, aceitou o desafio. Não demorou muito, logo se fez a troca, ei-lo de novo em liberdade. Tempos depois, para espanto geral, estava de regresso aos Açores.
Recebeu com euforia patriótica as notícias da restauração de Portugal. Temperamento belicoso aguçado pela educação e pelo momento independentista, quando D. João IV foi aclamado rei, partiu com outros patriotas para a ilha da Terceira para auxiliar os habitantes a expulsar os espanhóis que ainda ocupavam o Castelo de São João Batista. Conseguido seu intento, atraído pela carreira das armas, onde se sentia muito à vontade, seguiu para o Continente e assentou praça em Lisboa. 
 
Em 1658, com um terço do regimento, foi para a fronteira juntar-se às forças que sitiavam Badajós. Prestou serviço à praça de Elvas, fortificou Assumar. Combateu na Galiza em 1662, no Alentejo, na batalha de Ameixal e na recuperação de Évora, em 1663. Passou a Trás-dos-Montes, invadiu a Galiza, voltou a Beira para socorrê-la. Após rija peleja, deslocou os espanhóis do forte Lamoso e Castelo Rodrigo em 1664.
Já conhecido pela sua coragem e valentia, foi promovido a capitão e logo se deslocou para combater em Vila Viçosa , rompendo com audácia o cerco espanhol, abasteceu a praça com armas e gente, provocando a retirada do inimigo. Combatia com gana. Participou da Batalha de Montes Claros, tornou a invadir a Galiza, no regresso tomou o forte e a vila da Guarda. Fortificou Chaves. Quando enfim foi estabelecida a paz, entre os dois paises ibéricos a 13 de fevereiro de 1668, recebeu como prêmio por sua atuação em defesa da pátria e do rei, títulos, honrarias (Cavaleiro da Ordem de Cristo) e o cargo de governador de Monte Alegre.
 Em 1670, casou com a patrícia Maria Carrascosa de Bettencourt.
Anos depois,em 1672, marcado de cicatrizes obtidas em tantas lutas, cansado, volta à sua terra natal, como comandante da Companhia de Infantaria e governador do Castelo de Santa Cruz, no Faial. Em 1681, obteve finalmente a sua reforma.
Quando morreu em 10 de dezembro de 1686, aos 66 anos, leram no seu testamento:
“Servi o rei por mais de 26 anos, tanto nas fronteiras e praças portuguesas como nesta ilha do Faial...cujos os benefícios dos serviços deixo a meus filhos para que possam requerer o que julgarem conveniente”.
 
Antonio Silveira de Lacerda Brum foi um homem do seu tempo. Espírito rebelde, altivo e independente, mostrou o valor e uma outra face da personalidade da sua gente.  
 
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 28/05/08
 
Notas bibliográficas:
 
Em Dias Passados (Fernando Faria Ribeiro)
(Figuras, instituições e acontecimentos da História Faialense).
 
Famílias Faialenses (Marcelino Lima)

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