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A bem da Nação

PÁGINAS SIMPLES DE DOMINGO – 6

 

 
 
MÚSICA CONTEMPORÂNEA PORTUGUESA 
 
Dogma: música é melodia de sons harmónicos; sons desarmónicos de sequência aleatória são ruído.
 
Se a sequência de sons tem lógica, pese embora alguma falta de harmonia, então podemos condescender reconhecendo-lhe musicalidade; o mesmo se diga quando a harmonia não é sempre melódica.
 
Contudo, é frequente a dita música moderna confundir-se com ruído e não me queiram convencer de que hei-de ter prazer ao ouvir coisas que de facto me zurzem os tímpanos e bulem com o gosto.
 
Dizem-me que tenho falta de cultura. Aceito isso como um facto indiscutível. Sou multidisciplinarmente inculto e não há discussão possível que leve alguém a concluir de modo diferente. Só que, em boa verdade, detesto certas peças que me querem impingir como música e eu, ostensivamente, não as encaixo nos meus auriculares.
 
Nesta posição andei eu cerca de meio século mas ultimamente achei que era altura de avançar a direito contra as minhas tradicionais dificuldades. E assim como aos 60 anos decidi que era altura de passar a comer de tudo o que a civilização ocidental põe habitualmente à mesa, meti-me ao caminho das estantes de música contemporânea e vá de ouvir os excertos que as discotecas habitualmente facilitam.
 
António Pinho Vargas, António Vitorino de Almeida, Clotilde Rosa, Constança Capdeville, Emanuel Nunes, Eurico Carrapatoso, Jorge Peixinho, Luís Tinoco, só para referir compositores portugueses e eis que dei por mim a gostar de várias peças que ouvi. Cito-os por ordem alfabética a fim de não ferir qualquer espécie de susceptibilidade.
 
         Luís Tinoco
            (Lisboa, 1969 - )
 
Mas se Carrapatoso tem melodia e é harmónico – e talvez por isso não seja considerado um inovador vanguardista (mas de que gosto) – já o mesmo não podemos dizer de alguns outros.
 
Dentro da minha debilidade cultural, permito-me alcandorar ao expoente máximo da modernidade vanguardista Clotilde Rosa, Constança Capdeville, Emanuel Nunes e Jorge Peixinho. Volto a referi-los por ordem alfabética porque não os quero graduar de modo diferente.
 
Com o que tinha ouvido dizer sobre cada um deles, esperava que os meus ouvidos aceitassem relativamente bem as obras de Emanuel Nunes e relativamente mal as de Peixinho. E qual não foi o meu espanto quando o contrário se revelou: gostei de Peixinho logo aos primeiros sons e achei que Nunes estava a gozar comigo. Mas se, como é óbvio, o Professor do Conservatório de Paris não quer de todo gozar comigo, sou eu que tenho ainda muito caminho pela frente até que as suas peças me façam sentir confortável.
 
Daqueles com que me cruzei na estante, só Constança Capdeville e Jorge Peixinho têm obra concluída pois já faleceram mas todos os outros estão felizmente em condições de me educarem com mais trabalhos.
 
Mas esta lista de personalidades da nossa cultura não é – nem pretende ser – exaustiva: trata-se apenas daqueles com quem me cruzei na discoteca. Sei que há outros que por raras vezes ouço na Antena 2 da RDP e continuo a achar que a música de autores portugueses (vivos ou mortos) devia ser a base da emissão daquela rádio paga com os nossos impostos e não com os dos conterrâneos de Bartok, Beethoven, Debussy, Falla, Grieg ou Purcell. Mas como os complexos de inferioridade, o medo do nacionalismo e a febre internacionalista imperam, temo que para os valores nacionais continuem a ficar reservados os camarotes de segunda.
 
Pergunta: - Quando será que enterramos o nacional-saloismo?
Resposta: - Quando houver um membro do Governo com responsabilidades no assunto que dê uma punhada na mesa e puxe as orelhas aos esbanjadores dos nossos Impostos.
 
Lisboa, Junho de 2008
 
Henrique Salles da Fonseca

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