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A bem da Nação

Curtinhas nº 52

 

 
É pagar e rezar - i
v    O povo barafusta porque os preços da gasolina e do gasóleo não param de subir.
v    Os transportadores barafustam porque não conseguem repercutir nas tarifas que praticam os aumentos no preço dos combustíveis que têm vindo a suportar.
v    Os retalhistas barafustam porque uma fatia cada vez maior da revenda de combustíveis líquidos está a ser perdida para Espanha.
v    A GALP, acusada não se sabe muito bem de quê, sente-se injustiçada – e barafusta também.
v    Os restantes distribuidores não barafustam, encolhem os ombros - e murmuram umas coisas vagas.
v    O Governo, esse, medita - dividido entre dois sentimentos contraditórios: mais receita fiscal que acabará por arrastar mais despesa pública, como ele bem sabe.
v    Por onde andará a racionalidade de tudo isto? Andará, se bem vejo, por causas remotas e por causas próximas, tanto externas como muito nossas. Vejamos quais.
v    Externamente, à oferta de crude vinha a apetecer-lhe, de há uns tempos a esta parte, umas subidas de preços. Não eram só os países exportadores a queixarem-se de que já tinham conhecido melhores dias. Nem os fabricantes de equipamentos para a fileira do petróleo a deitarem contas à vida porque os investimentos por essas bandas andavam meio parados.
v    Eram também as grandes petrolíferas ocidentais que tinham sido apanhadas numas pequenas falcatruas contabilisticas: distraídas, continuaram a registar nos seus Balanços jazidas de crude (e gás natural) que não era rentável explorar aos preços de então - e isso violava gravemente normas em vigor nas Bolsas onde estavam cotadas.
v    Ora, a subida do preço do crude viria mesmo a calhar: (1) permitir-lhes-ia contabilizar como reservas conhecidas jazidas até então mantidas fora do Balanço; (2) reforçaria as respectivas estruturas financeiras, um pouco depauperadas com os ajustamentos contabilísticos que lhes tinham sido impostos; e (3) dispensaria boa parte dos aumentos de capital que as autoridades de supervisão não cessavam de lhes exigir.
v    Enfim, a guerra do Iraque teria de ser paga – e lá só há crude por onde pagar. Quanto mais elevado estivesse o preço do crude, mais depressa a guerra ficaria paga (ou o custo de mantê-la ficaria amortizado), sem deixar nos iraquianos a sensação desagradável de estarem a ser espoliados.
v    Em data mais recente, o anúncio, um tanto exagerado, mas habilmente esgrimido, de que estavam à porta mil e trezentos milhões de chineses e quase outro tanto de indianos a exigirem o seu quinhão de crude e prontos a consumirem-no como norte-americanos, fez o resto. E o resto foi criar nas economias desenvolvidas uma paranóia de escassez.
v    O golpe decisivo veio, porém, dos investidores institucionais. Escaldados no mercado das acções (a “bolha” dot.com), escaldados no mercado imobiliário (a crise dos créditos hipotecários subprime e não só), restava-lhes os mercados das commodities, suficientemente líquidos e bem organizados, para cuidarem das suas vidas - antes de se lançarem de cabeça no jogo suicida da especulação cambial.
v    E que melhor commodity para especular (isto é, para correr riscos elevados na expectativa de ganhos ainda mais elevados) do que aquela que faz girar a economia mundial, cujo mercado vivia em equilíbrio algo instável, em que a oferta anunciava vezes sem conta que não conseguiria responder de imediato a eventuais acréscimos da procura e onde começava a instalar-se um sentimento de escassez?
v    A tentação dos investidores puros e duros era irresistível: (1) tirar partido da lógica dos contratos “de futuros” sobre crude, onde é possível fazer e desfazer posições (quer compradoras, quer vendedoras) a qualquer momento; (2) aceder a ganhos fortemente alavancados; e (3) constituir com dinheiro emprestado as contas margens que são necessárias para operar nos mercados “de futuros” pagando as taxas de juro extremamente baixas que a política monetária do FED tem vindo a praticar com desvelo.
v    Para se fazer uma ideia do esquema: uma posição de USD 100 no mercado “de futuros” exige uma margem inicial de não mais que USD 6; se esta margem inicial for totalmente financiada em USD, como é usual, o custo efectivo de a manter durante seis meses será de 6x3%x6meses/12meses = 0.09 (9 cêntimos); uma variação favorável de 10% no valor da posição (o preço do activo subjacente) corresponderá a um proveito bruto de USD 10 com um custo de 9 cêntimos - ou seja, um lucro limpo de 11000%, só em 6 meses!
v    Quem voltaria as costas a uma oportunidade destas, quando o sentimento do mercado era que o preço do crude, daí em diante, só poderia subir? Mas, acima de tudo, quando não se avistavam alternativas de investimento credíveis no horizonte?
v    O sentimento, algo manipulado, de escassez; a liquidez no sistema financeiro internacional, que a há em abundância; a sobreliquidez de muitos investidores internacionais, designadamente dos Fundos de Pensões; e a ineficiência dinâmica nos mercados financeiros denominados em USD - levaram o mundo ao ponto em que nos encontramos hoje. (cont.)
Lisboa, Maio de 2008
A. PALHINHA MACHADO
 

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