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A bem da Nação

Os manezinhos da Ilha

 

 

 

Sambaqui ( Ilha de Santa Catarina)

 
 
Guardiões da cultura açoriana na Ilha de Santa Catarina, os manezinhos estão desaparecendo empurrados pela onda de migrantes gaúchos, paulistas, brasileiros de outras plagas e estrangeiros que vêm em busca de uma vida mais calma, junto ao mar e à natureza. Os políticos, ambiciosos, facilitam e estimulam a expansão imobiliária e industrial, a qualquer preço, em nome da modernidade e do desenvolvimento. Esquecem o passado dessa gente, ignoram o risco do desrespeito ao meio ambiente.
 
Eles chegaram há mais de 260 anos atrás em busca de um pedaço de chão que lhes desse paz, segurança e pão. Fugiam da miséria que a superpopulação e os vulcões dos Açores lhes infringiam periodicamente. Sozinhos, aos poucos esquecidos e abandonados pelas autoridades, tiveram que vencer toda a sorte de privações e dificuldades. Ainda mais uma vez, nestas terras brasileiras, a vida não lhes seria fácil. Para sobreviver agregaram-se em grupos familiares e comunidades de mesma origem. Abriram matas cerradas, venceram a hostilidade dos índios e aprenderam com eles  novas técnicas de cultivo, caça e pesca. Com as sementes, um facão e uma enxada, dados pelo governo, construíram nas suas quadras de terreno rústicas casas, fizeram roças e plantaram hortaliças. Aprenderam a utilizar a mandioca, no lugar do trigo, para ter a farinha, usando a tecnologia daqui e a que traziam do velho continente. Tiraram do mar, o peixe para seu alimento. Fizeram da caça à baleia, das rendas de bilro, do artesanato e da criação de gado meios econômicos de sustento. Místicos, usavam as raízes e a bruxaria para tratar e afastar os males físicos e imaginários. Tinham medo de assombração. Erigiam igrejas em homenagem aos santos, faziam procissões marítimas em louvor a Nossa Senhora dos Navegantes, comemoravam com festas o Divino Espírito Santo.
 
Os colonizadores açorianos vieram em levas, alguns individualmente. O Brasil precisava ocupar espaços, demarcar e defender as fronteiras. Os portugueses eram poucos para tanta terra conquistada. A solução veio com a colocação dos mais pobres e sofridos, os oriundos da periferia portuguesa (ilhas, regiões ultramarinas e mais pobres do reino), nessas áreas. Vinham também degredados políticos e criminosos, além de nobres de segunda linha para postos administrativos e de comando.
 
Em 1619 aportaram ao Maranhão 200 casais de colonos açorianos. No Pará, em 1666, chegaram mais outros 200. No final do século XVIII desembarcaram mais mil pessoas. Mas o maior contingente deles foi para Santa Catarina. De 1748 a 1756 chegaram 6071 almas que se juntaram às 4197 pessoas já lá existentes. Dessas, 1400 migrariam para a região mais meridional do pais, dando inicio à colonização do Rio Grande do Sul.
 
Os manezinhos, açoriano-catarinenses descendentes, viveriam na ilha de Santa Catarina até 1960 em relativo isolamento, longe dos benefícios (e malefícios) da civilização. Se para o meio ambiente e cultura tradicional foi uma grande coisa, pois houve preservação da natureza e de uma identidade, para a genética do homem trouxe algumas deficiências, como o aumento da incidência de más formações físicas e mentais, resultantes das freqüentes uniões consanguíneas. A partir da segunda metade do século XX, enfim, chegou a modernidade para essa gente. Veio com a gula dos migrantes que descobriram na ilha de Santa Catarina a beleza e a paz preservadas, o paraíso perdido, entregue segundo as palavras um senhor estrangeiro, pouco conhecedor da história da ilha, à inércia improdutiva dos ilhéus.
Pobres manezinhos, rechaçados,  acuados no seu habitat tão duramente conquistado, desta vez pelo apetite voraz e a força capitalista dos migrantes nacionais e internacionais, que vêem na ilha um tesouro financeiro a ser explorado.  
Desenvolvimento é preciso, mas que chegue com inteligência e sabedoria. Temos um rico patrimônio natural e cultural herdado que faz a diferença com as outras regiões do país. Só com critério e especificidade teremos um bom e rentável crescimento com qualidade de vida. De que vale muitas e grandes indústrias, uma larga rede imobiliária se não tivermos, águas limpas que dêem o peixe, áreas verdes de mata que dêem ar puro e histórias para contar para nossos filhos. A ilha dos manezinhos sem a natureza e sua cultura não é nada.
 
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 25/05/08
 
Dados estatísticos:
Oswaldo A.  Furlan (Prof. titular da UFSC) no livro INSVLANA ( vol. LIV)
(órgão do Instituto Cultural de Ponta Delgada, São Miguel, Açores) 
Foto de propriedade de Maria Eduarda Fagundes: Praia do Sambaqui ( Ilha de Santa Catarina)
Nota: Ao fundo casa típica açoriana
 

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