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A bem da Nação

Curtinhas XLI

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os aprendizes de Xamans
v      Mais velho ainda que a mais velha profissão do mundo é o temor de não saber o que futuro reserva. E, desde sempre, à sombra desse temor prosperaram todos aqueles que se atrevem a tratar por tu a incerteza e o desconhecido: os xámans, os iluminados para quem o futuro não tem segredos.
v      Prosperaram é uma maneira de dizer. Tempos houve em que predizer certeiramente uma ameaça ou uma calamidade era caminho seguro para uma vida regalada, mas desgraçado estava quem falhasse na predição: com sorte, perdia valimento; em dia mais aziago, perderia a cabeça.
v      Era o tempo em que predizer significava arriscar: arriscar a glória, ou arriscar a morte (da morte rápida às mãos do patrono insatisfeito, à morte lenta dos que não mais privariam com o poder). Tempos cruéis, esses, mas onde se podia fazer fé no futuro predito: anunciá-lo não era coisa de brincar – sabia-se bem o que estava em jogo.
v      Nos tempos que correm, lidar com a incerteza continua a não ser fácil. Que bom seria poder decidir hoje conhecendo com meridiana clareza o que o dia de amanhã trará - e assim sucessivamente, numa longa cadeia de informações completas, construída passo a passo, mas sempre por antecipação!
v      Hélàs! não. E, tal como outrora, o que não falta hoje é quem se deite a adivinhar. Uns, consultando os astros, as entranhas de animais sacrificados, os desenhos que pedrinhas, conchas e ossos, lançados ao acaso, deixam no pó; outros, consultando números. Cada um com o seu ritual, mas todos ao mesmo.
v      Infelizmente, perdeu-se entretanto aquela regra que apontava, ora para a glória, ora para a desgraça, e que dava mística ao ofício de predizer. Hoje, ligada à predição, permanece ainda uma atmosfera de prestígio e proventos. Mas o que se arrisca será, quanto muito, uma certa aura e a perda do mercado que essa aura sempre ia proporcionando. E, por vezes, nem isso. Convenhamos que é arriscar pouco.
v      Hábeis a prever eram, num passado ainda muito recente, os metereologistas: sabedores de que nada poderiam fazer para alterar o tempo que aí viesse, limitavam-se a anunciá-lo com fatalismo - e com simpática imprecisão. Não mais. A partir do momento em que puderam observar do alto a dinâmica de ciclones e anti-ciclones, passaram a conhecer de ciência feita o que nos cairia literalmente em cima nos dias imediatamente seguintes. Agora sabemos com o que contamos quanto ao tempo, mas a previsão meteorológica perdeu muito da sua mística.
v      Sucederam-lhes na cátedra das previsões imprecisas e fatalistas os economistas. Não há economista que se preze que resista à tentação de lançar, dia sim, dia não, a sua previsão sobre isto ou sobre aquilo. Como modelos suficientemente testados e calibrados em que tais previsões se apoiem é coisa que não existe, o que se passa é que os nossos economistas se deitam a adivinhar, dando uns palpites.
v      Arriscam algo? Como assim, se passados uns dias já ninguém se lembra do que fora previsto, muito menos se dá ao incómodo de confrontar o adivinho com os erros do que lhe palpitou. Eis pois uma actividade prestigiante e segura que seria tolice não aproveitar.
v      Quando as previsões económicas provêm de organismos internacionais, compreende-se que sejam anunciadas com um certo fatalismo - à imagem do que acontecia com as previsões meteorológicas, aliás. Afinal, estes previsores não dispõem de meios que lhes permitam contrariar as tendências que crêem ter detectado.
v      Mas que dizer quando são os Governos e as Autoridades Monetárias (para não falar noutras instituições ligadas à política económica) a prever como se o futuro que nos aguarda fosse inevitável? Não lhes foram confiados poderes e instrumentos para inverter o rumo da realidade? Não guardam eles o exclusivo desses poderes e desses instrumentos? Então porque não exercem uns e usam os outros - o que só eles podem fazer, pois é para isso, justamente, que são pagos?
v      É tempo de dizer que não nos impressiona a adivinhação dos novos xámans – os quais nem sequer se dão ao trabalho de dançar para que os maus espíritos se afastem. Se eles querem deitar-se a adivinhar, e é bom que desenvolvam a capacidade de “observar do alto” que os meteorologistas já alcançaram, então que cumpram as rezas rituais e que digam como pensam afastar os maus espíritos.
v      Uma previsão económica desacompanhada das medidas que reforcem a tendência detectada, se for favorável, ou que a contrariem ou mitiguem, se for desfavorável, é um acto gratuito e inútil. Não justifica a tinta da notícia que a faz pública.
v      Ah! Que saudades dos tempos em que predizer o futuro era um jogo de glória ou morte.
Lisboa, Maio de 2008
A. PALHINHA MACHADO

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