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A bem da Nação

25 DE ABRIL: CRAVOS, BOLAS E CORNOS

 

Talvez haja por aí alguém que tenha saudade da festa dos cornos, celebrada antigamente nas ilhas Faial e Pico. Por coincidência, o dia dos cravos veio mesmo a calhar no dia dos cornos, no mesmo dia em que o calendário litúrgico celebra São Marcos. E pelos vistos, os ares liberais do 25 de Abril desobrigaram os cornudos da procissão e do sermão dos cornos. Já se sabe que era uma brincadeira arreigada à cultura popular. Mas, visto a bons olhos, nos nossos dias não há consentimento cívico para tais festividades, embora notório seja que o número de cornudos esteja sempre a aumentar significativamente.

Adiante-se que esta crónica está sendo escrita sem intenção de ofender ninguém. Simplesmente achamos algumas curiosidades que vieram precisamente a coincidir com esta data e somos de opinião que um riso ou uma gargalhada faz bem à saúde.

 

Do muito que se tem lido e escrito sobre este assunto, se fizéssemos um pequeno estudo etnográfico encheríamos, de certo, umas cento e tal páginas. Por isso, passando por ele, recordamos que em certos lugares todos os homens casados se incorporavam na procissão, à medida que ela passava por suas portas, percorrendo as ruas da freguesia. Aquele que havia sido traído pela mulher, ou tinha fama disso, levava o chapéu na mão. Os restantes levavam o chapéu na cabeça.

 

Aconteceu que, um dia, na festa dos cornos, o João ao ver a procissão aproximar-se da sua casa, pergunta à esposa se devia levar o chapéu na cabeça ou na mão.

A mulher soltou-lhe dois ou três palavrões, deixando-o nervoso e ele enfiou a cabeça no chapéu. Mas quando o marido se dirigia à porta da rua, a mulher sentindo qualquer culpa, com medo que o marido não fosse publicamente denunciado, avisou-o: - Eh, João, pelo sim ou pelo não, leva o chapéu na mão.

 

Na minha terra, ser cornudo era uma condição de desprezo, embora houvesse cornudos contentes, tristes, bem enfeitados e mal amanhados. E por mais cornudo que seja o corno, não gosta, de maneira nenhuma, de assim ser reconhecido.

 

Quem vai à festa

De cornos a seu jeito,

Leva uma mão na testa

E a outra mão no peito.

 

Os cornos foram enfeitados com flores muito antes das espingardas do 25 de Abril. Mas também há quem os enfeite com bolas. Por isso, bolas e cornos andam de mãos dadas. Duvidam? Pois, com certeza!... Vão ter paciência, mas esta estória tem de sair:

 

Albano Cordeiro (1914-1964) é um dos meus poetas preferidos, por duas razões: primeira, porque é meu conterrâneo; segunda, porque a sua poesia é simples e carinhosa pela terra e pela gente. Foi mencionado, há alguns anos, pelo meu outro conterrâneo, Flávio Paiva, no seu livro "História de vida de um emigrante açoriano", onde deparei com uma batalha de versos e uma ligeira explicação. Dizia Flávio que Albano Cordeiro, empregado no Grémio da Lavoura da Ribeira Grande, havia recebido uma mensagem de um colega do Grémio de Ponta Delgada, juntamente com uma remessa de "cápsulas metálicas", daquelas de cor dourada que os homens do campo costumavam adornar os chifres do gado bovino, protegendo-lhes as pontas. Ao que parece, Albano não gostou da mensagem e mandou ao colega uma resposta.

 

Uns dias depois comentei o par de quadras com a minha amiga D. Filomena Morais Sarmento Machado Matos, a filha única do Sr. José Tibúrcio Machado, que foi o braço direito da saudosa Dona Maria Mota, na ressurreição e organização das Cavalhadas de S. Pedro. O que eu não sabia era que este Senhor também trabalhara no Grémio da Ribeira Grande e era um grande amigo de Albano Cordeiro, pelo que a filha logo me disse que já tinha lido aquelas quadras em qualquer parte. No dia seguinte ela informou-me que as tinha encontrado entre os papéis que eram do seu pai, dizendo-me que não se tratava de duas quadras, mas sim de doze. Portanto, aquelas duas foram as armas da primeira batalha de uma guerra poética travada em São Miguel, onde os guerreiros nunca deixaram de ser amigos.

 

A amiga Filomena fez questão de me oferecer a papelada. Assim, fiquei sabendo que o colega de Albano a que Flávio se referiu era o poeta Virgílio de Oliveira (1901-1967).

 

Em S. Miguel, o Grémio da Lavoura estava sedeado em Ponta Delgada, tendo na mesma Ilha representações ou dependências em outras localidades, como por exemplo, na Ribeira Grande.

 

Vamos à guerra, que começou quando Virgílio de Oliveira envia a Albano Cordeiro uma remessa de pontas douradas com esta quadra:

Albano dos meus pecados

Põe isso na montra em fila,

Porque são os embolados

Para os cornos dessa Vila.

 

Albano responde:

Das tais bolas recebidas

Cá não há necessidade.

Vão ser todas devolvidas

Aos cornudos da Cidade.

 

Outra vez Virgílio:

Não vieram devolvidas

As bolas encomendadas.

Há já pessoas servidas,

Que andam na Vila às marradas.

 

Albano:

Não servem os embolados,

Acreditem que é verdade.

Chegaram já amassados

Pelos cornos da Cidade.

 

Provavelmente deve ter havido uma outra estrofe de Virgílio de Oliveira que não foi anotada, porque na ordem dos papéis que tenho em meu poder, acabados os manuscritos seguem-se dois dactilografados:

Meu Virgílio de Oliveira

O tempo não me sobeja

P'ra andar na brincadeira

Com qualquer, qualquer que seja.

As bolas que tu mandaste  

Com cuidado e com carinho,

Quem mas pediu foi um traste

Que as perdera p'lo caminho.

Um gajo destes da Alta

Que não entra em qualquer porta

E que faz parte do gado,

Do gado que não se importa.

As bolas servem a esses,

A esses cornos supremos,

Que são o encanto da vida  

E têm coisas que não temos.

 

Virgílio Oliveira assina o tratado de paz a 6 de Setembro de 1960 com estes versos:

Não é isso falar novo,

Amigo Albano Cordeiro.

Sempre ouvi dizer o povo

Que "eles não trazem letreiro".

Nestas cantigas a nu,

Em tom menos delicado,

No "digo eu... e dizes tu",

Já é um tema estafado.

Lisura nos acompanhe,

Sem ofendermos ninguém...

Cada um lá que se amanhe

Com os chavelhos que tem.

Dou-te todos os poderes

No negócio de "embolados"...

Quanto mais bolas venderes

Mais cornos serão contados.

 

Para terminar só falta a famosa quadra do Cancioneiro Geral dos Açores, que meu padrinho Ferreira Moreno nos lembrou em um dos seus "Repiques da Saudade", há meia dúzia de anos. Ei-la:

Ó corno que estás pr'aí,

Nem os bons-dias te dão...

Quantos se riem de ti

Pensando que o não são!...

 

Fall River, MA, Abril de 2014

 

 Alfredo da Ponte

Correspondente em Fall River do Jornal Sol Português – Canadá

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