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A bem da Nação

Histórias da minha Ilha

 

 

História de um assassinato

 

 

Nos tempos dos reinados, para ocupar cargos políticos, militares ou administrativos, era comum que nobres de segunda linha fossem enviados às regiões insulares e ultramarinas para prestarem serviços à coroa portuguesa. Por serem locais mais afastados da civilização e conforto da metrópole, também eram destinos de muitos homens, nobres ou não, que praticavam delitos ou crimes, como uma forma de exílio ou castigo.

 

Estava-se nas primeiras décadas do século XIX, quando Vicente Alexandrino chegou à cidade da Horta, Ilha do Faial. Vinha do Continente, não se sabendo ao certo o porquê e para quê. Natural de Atalaia (Comarca de Castelo Branco, Portugal) era filho do fidalgo português José Fonseca da Mota. Vinte e oito anos, estudante de Coimbra, porte garboso, altivo, atitudes enérgicas, logo despertou a atenção daquela acanhada e provinciana comunidade açoriana.

 

Maria Isabel da Silveira Linhares era uma jovem e bela viúva, com o atrativo adendo de ter origem fidalga e avultado património. Na pequena ilha faialense, despertava o interesse de cobiçosos pretendentes, desde o administrador do Conselho a outros nomes de menor porte e suporte social. Distante e impávida a todos tratava com cortesia, porém a nenhum demonstrava sinal de interesse. Até que, um dia, não se sabe se por acaso ou se por caso pensado, conheceu o jovem estudante português do Continente.  O que se sabe é que trocaram empáticos olhares, vivamente interessados, que deram lugar a encontros cada vez mais frequentes. No coração da viuvinha nasceu um amor cego, incondicional, que a fez esquecer  todas as referências e conveniências que sua posição e nome exigiam. Ignoraram a maledicência do povo, a recriminação religiosa, e passaram a viver em mancebia. Envaidecido com a escolha, possessivo e ciumento, com o tempo tornou-se senhor tirânico e absoluto da vida e da casa de Maria Isabel, a ponto de dominá-la à humilhação e até maltratá-la, cabendo a ele sempre a palavra final sobre todo e qualquer assunto.

Passados os anos, nasceram-lhes duas filhas, mas o génio de Vicente Alexandrino não abrandava. Naturalmente irascível, agora se inflamava por qualquer coisa, a ponto de transformar um incidente de pequena monta numa tragédia que iria se abater sobre ele a família.

 

Nas casas abastadas e fidalgas de antigamente era comum haver uma entrada recuada e espaçosa, chamada saguão, onde transeuntes não muito educados utilizavam os cantos mais escondidos, na tentativa de preservar a decência, como local de utilidade pública para as suas mais urgentes e agudas necessidades fisiológicas. Era um dos aspectos da rudimentar higiene da população urbana daquela época que com frequência usava e abusava do rapé e dos borrifos de almíscar para disfarçar os maus odores amoniacais e corporais das gentes.

 

Certo dia, ao sair de casa, Vicente Alexandrino deparou na entrada com um camponês em atitude duvidosa fazendo do lugar mais que um simples mictório.  Enfureceu-se, tomou o acto como mera velhacaria  pois o homenzinho acabara de sair de sua casa, aonde fora  para pagar as rendas. E como era de costume das casas mais abastadas, acabara de se banquetear com o almoço que a senhoria dava aos empregados e seus arrendatários, quando estes vinham à cidade. Num ímpeto, atirou-se ao homem cheio de raiva e o expulsou a ponta-pés para o meio da rua. Ali, humilhado o rendeiro jurou para si mesmo uma desforra.

 

Poucos dias após esse episódio, ao anoitecer, quando ia  à Botica do Silva, como fazia de costume, Vicente foi surpreendido  por dois homens que tentaram com paus bater-lhe, porém só o ferindo de raspão, na testa.  Ágil e destemido como era revidou o ataque e avançou contra os delinqüentes. Tirou-lhes as armas e correu atrás deles, mas logo foi impedido pelos vizinhos que, surpreendidos pelo barulho, acorreram ao caminho. As autoridades descobriram e pegaram os malfeitores. Presos, processados e condenados, foram enviados para cumprir pena de seis meses de degredo na exígua e isolada Ilha do Corvo.

Vicente Alexandrino não ficou satisfeito com o castigo que os  amigos do campesino desavergonhado receberam. Achava pouco para reparar sua dignidade. Resolveu então, por conta própria, fazer justiça quando houvesse oportunidade. E assim o fez quando eles voltaram do exílio. Contratou alguns homens e arquitectou um plano para se vingar.

 

Numa noite ele e os comparsas saíram armados. Procuraram o primeiro homem em casa. Lá chegando, bateram na porta e protegidos pela escuridão, chamaram-no para fora. Queriam falar-lhe. Desconfiado, o campesino escondeu-se no desvão da atafona e mandou a mulher dizer que não estava em casa. Os assaltantes indecisos, sem saber ao certo o que se passava, resolveram partir em busca do outro ex-condenado. Desta vez mudaram de tática.  Ao chegar à morada do segundo homem, chamaram-no à rua dizendo serem enviados das autoridades. Como o intimidado não se apresentava, arrombaram-lhe a porta e o arrastaram para fora de casa, retirando-o do meio da família que aos gritos o abraçava. Indiferente aos rogos desesperados da mulher e filhas, ali mesmo, de chofre, no meio da estrada e às vistas dos visinhos que acudiram  ao ouvir todo aquele alarido, Vicente Alexandrino matou o homem com um tiro no peito. Horrorizadas com tanta violência,  as testemunhas não titubearam em acusá-los.  No dia seguinte, toda a cidade comentava a cena bárbara.   Em poucos dias todos foram presos, julgados e condenados. A pachorra açoriana não tolerava esses graves destemperos.

 

Já na prisão do Castelo de Santa Cruz, Vicente recusou o auxilio do seu irmão, que viera de Portugal Continental, para dar-lhe assistência legal, com muitas chances de êxito. Confessou o delito e assumiu todas as implicações do seu acto. Podia ser tachado de criminoso, mas nunca de covarde!

É provável que Maria Isabel suspeitasse das reuniões que o amante fizera em casa antes do crime. Mas o temor que tinha dele e a incerteza do que tratavam, fizeram-na calar e aguardar o desfecho da conspiração, que como se viu acabou na morte do rendeiro e na perdição do amante.

Ainda no Faial, durante as visitas que recebia na prisão, jurava amor eterno à Maria Isabel e propunha casamento para regularizar a união deles. Queria dar o seu nome a ela e às filhas. Mas ela deixara de amá-lo. Inflexível, agora liberta da tirania e dos maus tratos que o amásio lhe infringia, recusou a oferta. Mesmo assim  visitava-o, às vezes, afinal ele era o pai de suas filhas, o homem que um dia amara loucamente.

 

Maria Isabel reabilitou-se no amor filial. Dedicou-se à família até o fim dos seus dias.

Vicente Alexandrino e os seus cúmplices foram condenados à morte. No entanto, tempos depois por alguma interferência maior e mais potente, a pena foi computada em degredo perpétuo em África. Mas o que se conta na história da ilha, é que passados alguns anos, não muitos, alguém do Faial o reconheceu em Lisboa, ao cruzar com ele numa rua da capital portuguesa...!

 

 Maria Eduarda Fagundes

Uberaba, 11/05/08

 

 

Dados e referencias bibliográficas

Famílias Faialenses (Marcelino Lima)

Maria Isabel da Silveira Linhares (Faial, 1804-1877).

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