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A bem da Nação

PÁGINAS SIMPLES DE DOMINGO - 5

A REMAR CONTRA A MARÉ

 

 

Nos tempos revolucionários do Exército Popular de Libertação, o chinês, os comandantes assumiam-se pela capacidade de liderança e não pelas insígnias com que alguém lhes adornasse os ombros ou a lapela. Aliás, nem sequer havia galões ou divisas e, à moda maoísta, também não havia lapelas. Mas em contrapartida, havia quem dissesse que essa ausência de identificação nada tinha a ver com o espírito revolucionário contra as hierarquias mas sim e apenas com o medo de que o inimigo identificasse os líderes e os abatesse logo na primeira emboscada.

 

Lembrando o mesmo estilo mas nada tendo a ver com a dita doutrina, também os Autores do “A bem da Nação” se apresentam através dos escritos que nos oferecem e se impõem ao nosso respeito com a maior naturalidade. Por isso me abstenho de os apresentar formalmente quando se estreiam nas nossas páginas. Pouco tempo depois da estreia passamos a conhecê-los da maneira mais profunda que poderíamos imaginar: pelos raciocínios que desenvolvem.

 

Quando, em Janeiro de 2004, dei início ao “A bem da Nação” nunca imaginei que ele alcançasse a dimensão que hoje tem quer no que respeita à qualidade quer à quantidade. Também não imaginava que fosse possível encontrar quem me quisesse acompanhar com uma remuneração igual à minha, ou seja, gratuitamente. Só sabia ao que vinha: afirmar urbi et orbi que há solução para os problemas com que a Comunicação Social constantemente nos bombardeia.

 

Sim, a Comunicação Social parece ter apostado na exploração do que de mais mórbido e mesquinho os consumidores de ideias alheias possam ter. E se essas duas perniciosas características existem à custa de níveis de cultura infinitesimal, logo são exploradas de modo a que se desenvolvam e assumam uma dimensão que torna o ambiente social insuportável. E como quem tem níveis menos insignificantes de cultura se isola desse rol de desgraças, há que manter as audiências nos níveis intelectuais mais baixos de modo a que se prendam avidamente ao que lhes é incutido, nomeadamente que um certo detergente lava mais assim ou mais assado, que o Banco tal é o melhor do mundo e que os poluidores é que devem pagar a crise. E enquanto essas audiências acreditarem nessas coisas todas, logo os seus propaladores receberão as maquias por que tanto anseiam e que os mandantes interessadamente lhes pagam.

 

E quem ganha com esse ambiente de insatisfação, inveja e revolta permanente? Exactamente esses ditos mandantes, os pagadores.

 

Os pagadores de encapotada manipulação de vontades – por exemplo, os gestores da especulação bolsista – não pactuam com mentes esclarecidas pois não as conseguem influenciar. À semelhança dos antigos que queriam manter a plebe ignara para que a tivesse servil, também hoje a pujança desses germina no estrume da ignorância vulgar. E quando essa capito diminutia entra na exigência da abastança imediata que os demagogos lhe incutiram como um direito inalienável, deixa de lado qualquer laivo de sábia lucidez ancestral e, seguindo as orientações do mercado e ignorando os sinais ocultos da mão de Vilfredo Pareto, ruma em direcção ao risco que não sabe medir. E quando tudo dá para o torto, logo aparece alguém dizendo que a ‘bolha’ tinha fatalmente que rebentar. Sim, os cabedais não somem como que por magia mas mudam das mãos de muitos para as de poucos e é nisso que reside a imoralidade do jogo vigente.

 

Vilfredo Pareto

(1848-1923)

 

Ora, é precisamente contra esta ignóbil exploração da ignorância que o “A bem da Nação” batalha. Podemos não arvorar os galões da liderança das audiências e podemos andar a remar contra a maré mas é útil que se saiba que nós sabemos ao que eles andam.

 

Lisboa, Maio de 2008

 

Henrique Salles da Fonseca

 

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