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A bem da Nação

ACORDO ORTOGRÁFICO – 5

 

DESACORDO ORTOGRÁFICO

 

 

Caro amigo Henrique

 

    

Muito obrigado por me ter enviado o ´Manifesto em Defesa da Língua Portuguesa´[1], que subscrevo e assino, mas não exactamente pelas razões aí expressas pelos notáveis. Há muito mais do que a ortografia em questão.

 

Na minha opinião, todo este movimento de ´normalização´ da língua não tem outra motivação senão a económica e comercial de algumas editoras, que cada dia se consolidam em multinacionais e lobbies fortes, à custa da qualidade das publicações e em favor de não só bestselling mas fastselling. Não é só Rupert Murdock e Bertelsman, Portugal também tem os seus jogadores.

 

Este Acordo Ortográfico é completamente absurdo se não criminal pelo que representa pela extinção da cultura portuguesa acumulada ao longo da sua história. Em vez de procurar normalizar a língua portuguesa em todo o mundo, deviam empenhar-se exactamente no contrário: destacar, elevar e assimilar as ricas variantes da língua. Por outras palavras, acarinhar as diferenças, ainda as ortográficas [como em Áustria-Alemanha, Espanha-Latinoamerica, França-Canadá, sem esquecer, Martinica e tantos outros exemplos].

 

Tenho aqui um livro que comprei em 1986, The Story of English, escrito por três autores, um editor-escritor e outros dois das médias, dois ingleses e um americano. No Prefácio podemos ler, de H.L. Mencken [jornalista, editor, analista da cultura famoso]:

 

           A living language is like a man suffereing incessantly

           from small haemorrhages, and what it needs above

           all else is constant transactions of new blood from other

           tongues. The day the gate goes up, that day it begins

           to die.

 

Não só línguas estrangeiras, mas também as variantes da língua materna.

Imagine, neste livro há não só ortografias diferentes entre Inglaterra e Estados Unidos, mas muitas outras, veja os títulos de alguns dos capítulos:

 

                           4 – The Guid Scots Tongue

                           5 -  The Irish Question

                           6 – Black on White

                           7 – Pioneers! O Pioneers!

                           8 – The Echoes of an English Voice

                           9 – The New Englishes

                          10 – Next Year´s Words

 

                           etc., etc.

 

Qual é a história que Vasco e companhia lamentam que se vai perder, essa história que já está quase totalmente perdida, dos quatro cantos do mundo onde foram os descobrimentos? Pergunta retórica. Portugal não só está de costas voltadas para a vizinha Espanha mas desconhece os países e culturas onde foi: não conhece jindungos, ambotiks, go-ji, konkani, nem kalunga.

 

Não se trata de ortografias nem de nada tão isolado. Os problemas aqui são de duas vertentes, se me permitir, sem querer ofender: uma cultural e outra cognitiva. O que tem que mudar é essa tão falada mentalidade, eu prefiro a palavra abordagem. Portugal tem a obrigação de encarar a sua própria história e aceitá-la, com as suas belezas e os seus defeitos – esse livro de história não foi escrita todavia. Terá que aceitar também que o Português tipo é uma rica mistura de culturas, raças, etnias, e espíritos, e tem que se congratular por isso.

 

E depois, a pequena peça ortográfica do puzzle encontrará o seu legítimo lugar na Big Picture (´in color´, or is it ´in colour´?)

                

John Howard Wolf



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