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A bem da Nação

A CRISE

 

 

Crise? Qual crise?

 

Cada crise é uma crise e muito provavelmente cada uma nada tem a ver com a outra. Portanto, há que saber exactamente de qual falamos.

 

Estamos a falar da que se diz que está a acontecer mas que outros dizem que ainda não começou enquanto há quem afirme a pés juntos que o pior já passou.

 

Ficamos sem saber a quantas andamos mas eu temo que alguma coisa de muito inesperado esteja para acontecer. Não tenho o dom da profecia e não tomo em consideração as adivinhações com bolas de cristal, cartas, búzios ou aciganadas leituras de palmas da mão mas não gosto de alguns sintomas evidentes e, portanto, acredito que vem por aí borrasca.

 

E que sintomas são esses de que não gosto?

 

Os preços dos combustíveis nada têm a ver com o desencontro entre a procura e a oferta. A começar pelas estatísticas oficiais da China em que não há qualquer motivo para que se possa acreditar nelas, passando pela completa implausibilidade do crescimento exponencial da procura indiana de combustíveis, chegando à viabilização de inúmeros poços que rejubilam com preços mais elevados, só há uma explicação: especulação. Se a isso juntarmos a desvalorização do Dólar americano, então ainda mais somos levados a concluir pela especulação energética na Eurolândia.

 

Essa especulação incitou os preços dos cereais entretanto apontados como sucedâneos do petróleo. Todos os derivados dos cereais, nomeadamente pão e carne, vêem os custos de produção subir e eis que o impacto nos preços da alimentação se fazem sentir numa escala para que não estávamos preparados.

 

Com a gasolina mais cara arrumávamos o carro e usávamos os transportes públicos mas com os alimentos a encarecerem de modo escabroso, ainda haverá quem pense que nos havemos de habituar a não comer, como o cavalo do inglês. E Napoleão dizia que era pela barriga que se disciplinavam os soldados.

 

Entretanto, como o negócio da banca é emprestar dinheiro e cobrar os respectivos juros, em época de juros baixos vá de forçar a concessão de crédito, mesmo a quem não o merece. Restava a esperança de que sempre fossem mais os que pagavam e cobriam os prejuízos causados pelos caloteiros. Mas não se estava à espera que a concessão de crédito tivesse atingido tais níveis de desbragamento e eis que o nível de incobráveis alcançou tal dimensão que há casas à venda nos EUA por US$ 100,00 e não há quem lhes pegue por excesso de oferta e dúvidas quanto à transparência das condições publicitadas do negócio. E como os falidos Fundos Imobiliários americanos tinham circulação mundial, eis que o impacto do desbragamento bancário americano acaba por se repercutir com maior ou menor intensidade por toda a parte.

 

Então, de que crise tratamos? Da da energia, da dos preços dos alimentos ou da da banca?

 

A resposta mais fácil é a de que tratamos da crise provocada por todas estas situações mas eu acho que a verdadeira resposta tem a ver com uma outra questão: ganância.

 

Ganância generalizada encoberta pelo anonimato das grandes praças e sabiamente gerida pela manipulação da informação, eis a grande causadora da crise.

 

A miragem do lucro fácil e imediato, a maximização do liberalismo à outrance e privatização sistemática de tudo quanto perspective lucro, a diabolização de qualquer tipo de intervenção no sacrossanto mercado, fizeram-nos chegar a uma situação de tal forma anómala que nem dá para os analistas se entenderem sobre se a crise já chegou, se está em pleno ou se o pior já passou.

 

Pois eu acho que o pior está para vir se não houver quem encontre uma fórmula de recuperação da Ética e do bem-comum, esse que hoje se encontra totalmente vilipendiado.

 

E é bom que esse alguém não tarde pois os soldados não ficam serenos quando têm a barriga vazia.

 

Lisboa, Maio de 2008

 

Henrique Salles da Fonseca

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