Burricadas nº 32
Ai, Alan, Alan. que rica herança nos deixaste – IX
(E nós por cá?)
v “Não temos por cá nada disso”, afirmam, não sem um toque de arrogância satisfeita, os que mandam em Portugal. “Isso”, como é bem de ver, são os créditos hipotecários originados e distribuídos sob diversas formas pelos grandes Bancos internacionais.
v Nos Balanços dos Bancos estabelecidos entre nós é quase certo que não encontraremos créditos hipotecários localizados nos EUA - e, neste ponto, os que mandam têm razão para se mostrarem aliviados e contentes. Exposição directa dos “nossos” Bancos a instrumentos financeiros estruturados em torno de créditos hipotecários made in USA, por muitas e variadas razões, é pouco provável que exista - pelo menos com números que chamem a atenção. Um ponto mais a favor dos que mandam.
v Já quanto aos Fundos de Investimento que os Bancos de cá tão empenhadamente têm promovido, a coisa é capaz de fiar mais fino - sobretudo naqueles mais agressivos (grandes retornos prometidos / grandes riscos assumidos). Conviria não ser tão peremptório antes de se apurar bem o que por lá se passa. De qualquer modo, o peso destes Fundos agressivos no panorama financeiro português é diminuto – e, que diabo! os ricos que paguem a crise.
v Não podemos esquecer também que, com a livre movimentação de capitais, alguns de nós investem directamente em Fundos estrangeiros. Esta face da realidade é uma completa incógnita – seja como for, uma vez mais serão os ricos a pagar a crise.
v Comparar as características de um genuíno crédito hipotecário subprime com o que acontece por cá em matéria de operações hipotecárias é capaz de se revelar interessante. Então vamos a isso:
v Os créditos subprime têm prazos superiores a 30 anos? Por cá, também.
v Os créditos subprime têm os juros indexados, logo a variarem ao sabor dos altos e baixos da política monetária? Por cá, também.
v Os créditos subprime, em muitos casos, têm por devedores pessoas singulares que acumulam dois ou mais empréstimos? Por cá, supõe-se que também - mas ninguém sabe ao certo, porque ninguém se preocupa com tais detalhes.
v Os créditos subprime permitem, frequentemente, períodos mais ou menos longos de carência de capital (isto é, onde não há ainda a obrigação de proceder a reembolsos)? Por cá, também.
v Os créditos subprime, nos casos mais agudos, convencionam “amortizações negativas” (isto é, a capitalização dos juros contados)? Por cá, também há disso.
v Nos créditos subprime, a garantia hipotecária mal dá para cobrir o capital em divida? Por cá, ninguém sabe - uma vez que as garantias continuam a ser vistas pelo valor que inicialmente lhes foi atribuído, como se o tempo as congelasse. E não se conhecem estatísticas sobre o rácio de cobertura do capital em dívida pelo valor realizável da garantia hipotecária que lhe aproveita.
v Os contratos que originam créditos subprime são mal compreendidos pelos respectivos devedores? Por cá, também.
v O clausulado destes contratos varia de mutuante para mutuante, o que os torna praticamente incomparáveis? Por cá, também.
v Os devedores de créditos subprime, por regra, ignoram o esforço financeiro a que ficam obrigados? Por cá, também.
v A liquidação antecipada de um crédito subprime, ou a sua transferência para um mutuante que ofereça melhores condições, é fortemente penalizada? Por cá, também.
v Mentes mais viciosas concluiriam de pronto que, por cá, o que mais há são créditos hipotecários subprime – a representarem talvez umas 12-14 vezes os capitais próprios dos “nossos” Bancos. Ah! Mas os que mandam referiam-se, apenas, àqueles que teriam sido importados, não aos made in Portugal. Estes não contam, porque vão correr bem, de certeza.
v Bem vistas as coisas, os Bancos portugueses conseguem o feito de, em matéria de créditos hipotecários, se assemelharem simultaneamente aos grandes Bancos internacionais e ao Northern Rock Bank. Vejamos como:
v Tal como os grandes Bancos internacionais, também os “nossos” Bancos eram originadores de instrumentos financeiros estruturados a partir de créditos hipotecários. De tempos a tempos, constituíam umas sociedades instrumentais para titularizarem partes das suas carteiras de créditos hipotecários (e de crédito pessoal). Com a diferença de que entregavam a terceiros a tarefa de distribuir as correspondentes obrigações titularizadas.
v Tal como os grandes Bancos internacionais, também os “nossos” Bancos contavam com essas operações de titularização para gerirem a dimensão dos seus Balanços, cumprirem os rácios prudenciais, irem repondo a sua liquidez e obterem uma fatia importante dos seus proveitos (sob a forma de comissões e de mais-valias nos créditos titularizados).
v Tal como os grandes Bancos internacionais, também os “nossos” Bancos não se coibiram de encharcar os Fundos de Investimento que patrocinavam com as obrigações titularizadas que originavam – pelo que, para eles também, o risco de reputação já deve ter começado a ser uma realidade assaz incómoda.
v E tal como o Northern Rock Bank, também os “nossos” Bancos, especialmente os de maior dimensão, dependem estruturalmente dos mercados interbancários para financiar continuamente os seus Balanços.
v Mas, contrariamente ao Northern Rock Bank, que estava “pendurado” unicamente no mercado interbancário do Reino Unido (o seu mercado doméstico), os “nossos” Bancos captam fundos predominantemente nos mercados interbancários transfronteiriços. Encontram-se, assim, na dependência quase total de outros sistemas bancários.
v “Não temos nada disso”. Pois não. Antes tivéssemos. Assim, o que nos vale ainda é a “pesada herança”, com a Banca estrangeira convicta de que o Banco de Portugal a jogará em cima da mesa se a necessidade surgir. (FIM)
PS: O Banco de Espanha revelou que as operações hipotecárias representam uns 60% do Activo da Banca espanhola (cerca de 15 vezes os respectivos capitais próprios, já que os Bancos espanhóis operam tradicionalmente com níveis de alavancagem financeira muito elevados). Persiste a dúvida sobre se esta percentagem inclui, ou não, as participações que os Bancos espanhóis têm em sociedades imobiliárias e em sociedades de construção civil. Se não incluir, a situação é ainda mais preocupante. Inclua ou não, o primeiro resultado óbvio será um crescimento muito mais lento das novas operações de crédito bancário, com efeito imediato na liquidez que circula na economia espanhola. O lado bom da notícia é que a Banca de lá depende só marginalmente dos mercados interbancários internacionais, pelo que é um bocado mais resiliente do que a Banca de cá.
Lisboa, Abril de 2008
A. PALHINHA MACHADO
