CRUZEIRO DO SUL
SER MINEIRO
Foi no final da década de 70 que cheguei ao Triangulo Mineiro. Casada com um tupaciguarense e colega de profissão trazia dois filhos pequenos, um diploma e muita necessidade de trabalhar.
Acostumada à vida agitada e corrida da cidade grande, vinha do Rio de Janeiro, onde sequer conhecía nossos vizinhos, 'topar' com a maneira de ser do interiorano foi, no mínimo, para mim, desconcertante.
Minhas dificuldades começaram logo nos primeiros contactos. Vagaroso, lento no andar e no falar, ar respeitoso, observador, o mineiro avalia com atenção tudo que se faz e diz, sem contudo demonstrar uma pontinha que seja daquilo que lhe vai por dentro, na caixola, numa capacidade inigualável de dissimulação. O palavreado arrastado, comedido, recheado de termos regionais, era incompreensível. Eram as "gasturas", os' perrenges", os "trens"que necessitavam de tradução para que eu pudesse ter entendimento e ação.
Certo dia, já trabalhando, após passar visita nos leitos da maternidade, encontro no corredor do hospital meu marido, angiologista, que se dirigia para o centro cirúrgico. Apressado, pediu-me para avaliar, sob o aspecto ginecológico, uma paciente dele que ia ser operada para tratar as varizes e que desejava também fazer a laqueadura de trompas, aproveitando uma única anestesia.
Dirigi-me para o quarto indicado. Bati e entrei. Lá, encontrei uma senhora franzina, magra, de ombros estreitos e ar humilde, de pele enrugada, castigada pelo sol, vestida de camisola de algodão, calçando chinelas havaianas que mostravam pés limpos mas encardidos, acostumados à liberdade e à terra vermelha, massapé, dos campos férteis das Gerais.
Avaliei a paciente e verifiquei os exames que ela portava. Como estava tudo bem, decidi operá-la. Foi então que ela me perguntou, numa voz mansa, o quanto custaria a cirurgia. Pensando em ajudá-la, sem humilhá-la, dei-lhe um valor simbólico, que correspondia ao de uma consulta. Ela me olhou incrédula e tornou a perguntar. E eu, ingênua, agora já achando que a senhora não poderia pagar, confirmei o valor, mas disse para tranquilizá-la que não havia pressa, que ela me pagaria quando pudesse. Ela calou e entramos para o Centro Cirúrgico onde ela foi operada.
Mais tarde, à hora do café, num momento de folga, encontro novamente meu marido, que é filho de fazendeiro, comentando com um colega sobre a qualidade do renomado gado de D. Rosa, nossa paciente, que descobri naquele momento ser a dona de um dos maiores rebanhos zebuínos da região...
Assim são os mineiros!
Uberaba, 2006
