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A bem da Nação

Burricadas nº 28

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Ai, Alan, Alan. que rica herança nos deixaste - V

v      De início, no Verão passado, era apenas uma simples turbulência com epicentro nos empréstimos hipotecários subprime - coisa de americanos.

v      À medida que o final de 2007 se aproximava, ouvia-se já falar de crise, circunscrita embora a uns poucos mercados hipotecários nacionais. E havia mesmo quem predissesse (sotto voce, é certo) que os efeitos poderiam extravasar a economia dos EUA.

v      Poucos dias volvidos, com muitos dos Bancos internacionalmente mais activos a divulgarem perdas em crescendo, a coisa passava a crise bancária – e os Bancos Centrais das maiores economias ocidentais andavam já numa roda-viva para manter os mercados interbancários suficientemente líquidos.

v      Mais recentemente, conhecidas as contas deste 1º trimestre, tudo aponta para uma crise que se instalou bem no âmago do sistema financeiro internacional - uma crise financeira profunda que não deixará incólume a esfera real da economia.

v      Resta saber se esta crise vai acabar por irromper, sabe-se lá quando, no mercado da dívida de taxa fixa - muito especialmente a que é emitida pelas agências imobiliárias norte-americanas (FANNY MAE, FREDDIE MAC; GINNY MAE, etc.). Se isso acontecer, será o colapso do sistema financeiro internacional, tal como tem vindo a ser laboriosamente construído nos últimos vinte e cinco anos.

v      Decorridos todos estes meses, uma conclusão parece, desde já, segura: os esteios do sistema financeiro internacional (as Autoridades Monetárias, os Reguladores, os Supervisores, as Agências de Rating) falharam em toda a linha.

v      Falharam quando deixaram que as taxas directoras se arrastassem demasiado tempo por níveis muito inferiores ao ritmo a que as suas economias estavam a crescer.

v      Falharam quando faziam vista grossa a taxas de retorno (pricing) nas operações de crédito bancário que mal cobriam as perdas a que os Bancos se expunham.

v      Falharam quando subestimaram repetidamente desequilíbrios nos mercados financeiros cuja gravidade era por demais evidente.

v      Falharam quando não se aperceberam dos sinais que prenunciavam tempos de crise – se é que chegaram a detectá-los alguma vez.

v      Falharam quando permitiram que o quadro de regulação prudencial que tinham instituído, e que tudo faziam para preservar intacto, fosse perdendo aderência à realidade.

v      Falharam quando lhes escapou a verdadeira dimensão do risco que se acumulava nos Balanços dos Bancos – designadamente, a espiral risco de mercado (preços das casa) / risco de crédito (posições longas em crédito hipotecário) / risco de mercado (cotação dos instrumentos de titularização); mas outras havia, e há.

v      Falharam quando não cuidaram de tipificar as cláusulas nucleares dos activos subjacentes às operações de desintermediação e de titularização (Atenção! Não estou a defender a fixação de contratos tipo que tolham a liberdade das partes e espartilhem a vida financeira).

v      Falharam quando tomaram por bom, para efeitos prudenciais, todo e qualquer contrato de transferência de risco, por mais abstrusas e imprecisas que fossem as respectivas condições de exercício.

v      Falharam, quando toleraram durante tanto tempo que as regras da contabilidade bancária capturassem de modo extremamente deficiente os efeitos patrimoniais dos instrumentos derivados e dos contratos contingentes, em geral.

v      Falharam, enfim, quando permaneceram agarrados a modelos de informação financeira que pouco tinham a ver já com as actividades que lhes competia orientar, regular e supervisionar.

v      Na raiz de tantos e tão persistentes falhanços: (a) a ineficiência dinâmica – lançada a propósito, e prolongada a despropósito, pelo FED e por tantas outras Autoridades Monetárias - que criou a ilusão de que eram possíveis ganhos substanciais sem trabalho e sem risco; (b) a crença dos Supervisores de que o risco se deixaria amestrar pelos rituais e formalidades de uma burocracia acomodada; (c) muita displicência a propósito das operações de transferência de risco; (d) a fé cega de todos, Supervisores e Bancos supervisionados, em esquemas concebidos unicamente para recolher e tratar o que aconteceu, mas completamente inadequados para proporcionar uma visão razoável sobre o que possa vir a acontecer (ou seja, sobre a incerteza e o risco inerentes à actividade económica e aos mercados financeiros).

v      Em comum, como se vê, uma só coisa: risco.

v      Melhor: por um lado, o modo como todos os intervenientes nos mercados financeiros (sem esquecer, Autoridades Monetárias, Reguladores e Supervisores) abordavam, mediam e lidavam com o risco; por outro, o modo como era divulgada a exposição ao risco para que a disciplina do mercado pudesse actuar e assim reforçar a estabilidade dos sistemas financeiros. E, até ver, nada mudou.

v      As falhas apontadas mais acima que não envolvem directamente a gestão do risco podem ser prontamente corrigidas. Agora, verdadeiramente difícil será ver Autoridades Monetárias, Reguladores e Supervisores, todos eles, comprovadamente habilitados para, primeiro, avaliarem a exposição dos seus sistemas financeiros ao risco e, seguidamente, determinarem o capital adequado a esse perfil do risco.

v      Ora, é justamente para o risco e a disciplina do mercado que a presente crise veio chamar a atenção, numa altura em que o Novo Acordo de Basileia dá os seus primeiros passos (começou a ser aplicado em 2007). Daí o sentimento de que, bem vistas as coisas, se trata de uma crise muito, muito oportuna. (cont.)

 

Lisboa, Abril de 2008

 

A. PALHINHA MACHADO

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