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A bem da Nação

Crónica do Brasil - 2

"Na babugem do êxodo"
Um livro de Inácio Rebelo de Andrade
Editora Vega – Lisboa 2005

Em sub-título está indicado que se trata de um romance. Não vou dizer que seja mentira – jamais me atreveria a contradizer o autor ou até autoridades em literatura. Este livro do Inácio Rebelo de Andrade é, não um romance, mas um muito valioso documento histórico.
Escrito sem pretensões literárias, que só o valoriza, texto simples, pode até chamar-se-lhe de modesto, claro, directo, tem nessa sua simplicidade grande parte do seu interesse.
O restante vem, como seria de esperar, pelas descrições que faz, com pequeninos e incríveis detalhes que, para quem viveu situações semelhantes, as revive com um colorido tão natural que chegam a impressionar, e pela clareza com que nos mostra o que foi o fim de uma época.
Ali estão os corredores estreitos dos navios passageiros, aquele cheiro perturbador misto de tinta e comida, os menus em cima das mesas, os detalhes das paragens no Funchal e S.Tomé, a viagem na “carrinha” até ao Longonjo, a vida nas casas comerciais do “mato”, os nomes das ruas e lojas de Nova Lisboa e, por fim, o desmoronar de tantas vidas construídas com um imenso e sempre jovem entusiasmo e dedicação, em cima do absentismo e ignorância política duma metrópole longínqua, cega, surda e gananciosa.
O entusiasmo e a vontade de crescer e transformar um “mato” num país, conseguiram enganar os olhos aos que queriam ignorar o óbvio: o fim desastroso de todos os lugares em África, com uma rara excepção, para a África do Sul anos mais tarde, que o deve a um dos maiores líderes mundiais do século XX, Nelson Mandela.
Sem dúvida que este livro é um precioso documento para a história daquele lugar a que hoje eufemisticamente se chama de Huambo, porque nada quase existe do que foi uma cidade trabalhadora, bonita, agradável, limpa e em constante progresso.
Completam o “documento histórico” as referências a leis, decretos e nomes de indivíduos que ocuparam em Angola lugares de responsabilidade, sempre relativa, porque a falta de liberdade não lhes permitia, mesmo que tivessem querido, proceder de modo diferente.
Obrigado ao Inácio por nos deixar um retrato tão vivo e autêntico daquela época, daquele lugar e das gentes de viveram e sofreram para serem de repente jogadas no lixo da política ignorante e incapaz.
Obrigado ainda por se ter abstido de pretenciosidades pseudo literárias, onde a maioria de outros que procuram debruçar-se sobre o mesmo tema, acabam se perdendo nas palavras em prejuízo da visão e da vivência.
Só não posso agradecer o ter terminado a sua leitura tão rapidamente. O livro com mais de trezentas e cinquenta páginas... de repente acaba, porque se lê de um só fôlego! Queria mais!

Rio de Janeiro, 27 Nov. 05

Francisco G. de Amorim

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