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A bem da Nação

Burricadas nº 27

 

 

Ai, Alan,Alan. que rica herança nos deixaste - IV

v      Hoje, perante a crise do crédito hipotecário, não é difícil chegar à conclusão de que o FED levava muito a peito as suas preocupações com a estabilidade dos Bancos norte-americanos, mas que o fazia de modo algo canhestro: mal surgiam nuvens negras no horizonte, por isto ou por aquilo, vá de injectar liquidez - sem cuidar de verificar que uso era dado a essa liquidez e se os Bancos dispunham de capitais próprios suficientes para a “digerir” (melhor se diria: para a reciclar através novas operações de crédito que iriam aumentar a exposição do sistema financeiro ao risco).

v      A fragilidade do sistema financeiro norte-americano não era só institucional: aqui, operadores arrumados em grupos estanques para efeitos de regulação e de supervisão; acolá, vários Supervisores, cada um para o seu grupo, que entre eles mal se falavam; mais além, operadores com grande influência na dinâmica dos mercados financeiros (brokers de operações hipotecárias e hedge funds) e que ninguém cuidava de regular ou supervisionar.

v      Ia mais fundo, atingindo as operações de open market (as operações onde o FED era parte) e a ideia que o FED fazia dos riscos a que os Bancos se encontravam expostos. Ou seja, contaminava não só o terreno que a política monetária mais prezava (as operações de open market), mas também o próprio exercício da supervisão prudencial. E a teoria pouco ajudava para que as coisas fossem feitas de maneira diferente.

v      Desde logo, passava despercebido o contra-senso que era o Supervisor levar os Bancos a estarem cada vez mais atentos ao risco de crédito que pudesse vaguear pelos mercados interbancários (aquilo que o FED, e com ele todo o Comité de Basileia, designava por “disciplina de mercado”) e a Autoridade Monetária, nas suas operações de open market, tratar sempre todos os Bancos por igual. Contra-senso mais evidente quando, como era o caso, as figuras de Autoridade Monetária e de Supervisor se confundiam. Contra-senso que, diga-se, lá vai prosseguindo a sua carreira sem que ninguém (muito menos os Bancos de maior dimensão e com capitais próprios mais “à pele”) se sinta, ainda hoje, incomodado.

v      Mas difícil, difícil era medir de forma consistente e comparável os riscos a que os Bancos supervisionados se expunham. O facto de os modelos de supervisão, desde os idos da Grande Depressão, se terem acomodado a umas quantas “verdades” não ajudava mesmo nada. E que “verdades” eram essas?

v      Que o risco de crédito dependia fundamentalmente da natureza jurídica do devedor. Que um Banco, salvo se se debatesse já com dificuldades óbvias, representava tanto risco quanto qualquer outro Banco – o que é dizer, praticamente nenhum. Que os preços das casas e dos terrenos urbanos (não tanto dos imóveis comerciais e, certamente que não, dos solos agrícolas) nunca viriam por aí abaixo. Que, para os Bancos, as perdas jamais excederiam uns coeficientes fixados com burocrática certeza. Que, em matéria de risco criado, as cláusulas contratuais valiam todas por igual, mesmo aquelas que nunca tinham sido postas à prova em tribunal. Que uma contabilidade certinha mais uma aritmética simples bastavam para comprovar se um Banco representava, ou não, uma ameaça para a estabilidade do sistema financeiro.

v      A presente crise veio demonstrar que estas “verdades”, afinal, não eram tão verdadeiras assim. Bendita crise, pois - que mais não seja, só por isto.

v      Desde logo, um Banco é, por mais que se negue, causa de risco. E o risco por ele criado reflecte, inevitavelmente, todos os riscos a que se encontrar, por sua vez, exposto (risco de crédito, risco de contraparte, riscos de mercado, vários riscos operacionais e tantos outros), ampliados por uma gestão inábil (mais riscos operacionais, o risco de reputação entra em cena) e amortecidos pelos capitais próprios que existirem. Por isso, considerar - como o Acordo de 88 fazia, e como muitos Supervisores ainda hoje fazem - que os Bancos, em condições normais, pouco ou nenhum risco representam é contar tão-só com a fiança prestada ad perpetuum pelos contribuintes (sob a forma de mutuante de último recurso), sem ter a honestidade de o admitir publicamente.

v      Por certo, os preços das casas não exibem a volatilidade típica das cotações de muitos outros instrumentos financeiros: é frequente permanecerem relativamente estáveis, em termos reais, durante longos períodos. Mas também não é raro formarem-se “bolhas” especulativas, aqui e acolá, ora neste, ora naquele segmento do mercado imobiliário, alimentadas por expectativas que se auto-justificam. Os preços das casas, quando desatam a subir, crescem, crescem, apenas com tímidos recuos pelo meio, como se não tivessem limite...até ao momento em que, por nenhuma razão aparente, caem de forma abrupta, arrastando com eles famílias, investidores e instituições financeiras. Esta fraca volatilidade histórica torna completamente inúteis os modelos de previsão financeira baseados em volatilidades constantes ou facilmente previsíveis. Por estranho que pareça, as dificuldades que o mercado imobiliário coloca à política monetária e à supervisão prudencial resultam precisamente do facto de os preços das casas não serem suficientemente aleatórios: neles, o acaso só irrompe de tempos a tempos – e metade das vezes para dar más notícias.

v      Os coeficientes (8%, ou menos) usados para determinar o Capital Mínimo Adequado às posições longas que os Bancos mantenham nos seus Balanços são completamente falhos de suporte estatístico – facto que ninguém quer reconhecer. Se, para as posições “investment grade” (de AAA até BBB, na escala da Standard&Poor’s) isoladamente consideradas, coeficientes entre 4% e 8% parecem ser suficientes para respaldar confortavelmente as perdas não esperadas (isto é, a parcela que vai da perda esperada à perda máxima provável), já para as carteiras de crédito que são geridas por grandes números (como é o caso da Banca Comercial e da Banca de Retalho) são manifestamente insuficientes pelo menos em dois cenários: conjunturas de recessão profunda (ainda que circunscrita a um dado recanto da economia) e cúmulo de risco (ou seja, várias posições longas vulneráveis a um único factor de risco). Acontece que esta insuficiência mais se acentua quando as taxas directoras se situam em níveis muito baixos, posto que, em tais circunstâncias, os Bancos têm dificuldade em repercutir no pricing dos empréstimos o risco de crédito a que se expõem – e, então, o Capital Mínimo Adequado terá de acautelar também a modéstia das taxas de retorno.

v      Cúmulo de risco (um mesmo bem e, quantas vezes, uma mesma entidade causadora do risco associados a um amplo leque de instrumentos financeiros, firmes uns, contingentes outros, cujo capitais, somados, são múltiplos da dívida original) e pricing claramente desajustado é o que mais se vê por todo o lado, na presente crise. E os Supervisores não conseguiram detectar nem uns nem outros. Nisso estamos. (cont.)

Lisboa, Abril de 2008

A. PALHINHA MACHADO

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