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A bem da Nação

PÁGINAS SIMPLES DE DOMINGO – 2

 

MOLEZA

 

 

Há momentos em que nos dá a moleza e nos perguntamos se valerá a pena batermo-nos pelas coisas que consideramos importantes. E enquanto não retomamos o fôlego para nova arrancada, apetece-nos divagar pelas redondezas das nossas principais motivações.

 

Foi isso que me sucedeu na passada deambulação semanal que fiz pela livraria-discoteca da minha rotina e eis que me encontrei numa digressão paulatina em vez de na habitual busca de novidades.

 

Comecei pela música e acabei na poesia deixando para a próxima a tradicional passagem pelas estantes da Economia, da História e da Filosofia.

 

Mas eu sabia ao que ia. Não fui sem rumo e muito menos às cegas. Comecei pelo Erlkönig de Franz Schubert, passei para o dueto Au fond du temple saint do final do segundo acto de Os Pescadores de Pérolas de Georges Bizet donde saltei para Cesário Verde de que só conhecia Os calceteiros e daí para uma antologia de António Gedeão que tomei como sendo edição recente.

 

E quando estava quase em levitação, tocou o telefone a chamar-me à realidade: as compras no supermercado estavam prosaicamente concluídas e chegara a hora da despedida do etéreo.

 

 

 

Franz Schubert (1797 - 1828) nasceu nos arredores de Viena e morreu nessa mesma cidade pouco antes de fazer 32 anos. Estroina, morreu minado pela sífilis mas apesar de ter vivido tão pouco tempo deixou uma obra enorme. Em vida, apenas houve um concerto público com obras suas; todos os outros eventos foram de cariz privado, em círculos restritos ou, de preferência, durante as noitadas vienenses a que tanto se dedicava com um ruidoso grupo de amigos. Mas isso não o impediu de pôr na pauta “coisas” de enorme subtileza hoje profusamente editadas e muito conhecidas. Bastaria referir a grande quantidade de Lieder que compôs musicando poemas dos mais ilustres da cultura alemã. Sugiro que se aprecie o que ele fez do poema Erlkönig de Goethe que inesperadamente encontrei na Internet em http://www.youtube.com/watch?v=VdhRYMY6IEc na voz de Anne Sofie von Otter com orquestra sob a regência de Cláudio Abbado. É que, apesar da qualidade que se adivinha no poema, Goethe é passado para segundo plano, o que conta é a música e o nível da interpretação. Melhor, não é fácil.

 

Georges Bizet (1838-1875) também não viveu muito mais tempo mas, mesmo assim, escreveu muito. E se a sua ópera mais conhecida é a Carmen, assinale-se que escreveu mais sete que continuam em representação um pouco por toda a parte. Eu ia à procura do dueto Au fond du temple saint cuja ópera ele escreveu quanto tinha 25 anos. Há quem diga – e eu concordo – que há trechos que suplantam a obra em que se enquadram a ponto de ganharem vida própria nas preferências dos ouvintes. Qualquer pessoa é capaz de trautear o tema principal da 9ª Sinfonia de Beethoven, o Vá pensiero do Nabucco de Verdi que também encontrei na Internet em http://www.youtube.com/watch?v=4BZSqtqr8Qk ou tantas outras melodias que passaram a fazer de suporte da nossa Civilização. Para mim, é o caso evidente do dueto que procurava e que encontrei na discoteca numa gravação nem boa nem má, antes pelo contrário e que por isso mesmo lá ficou na estante. O que eu não estava à espera era de o encontrar também na Internet no http://www.youtube.com/watch?v=4tLrPVkfCIQ numa interpretação de que verdadeiramente gostei. Ignoro totalmente o que dizem os versos cantados, desconheço quem foram os autores do libreto por muito ilustres que tenham sido, quiçá marcos importantes da cultura francesa. Considero a melodia absolutamente sublime e, até, emocionante. A não perder e a levar-nos a pensar que aquela harpa é de facto celestial.

 

Refeito das emoções mais etéreas, passei à livraria à procura de Cesário Verde (1855 - 1886), o poeta da realidade. Várias alternativas à escolha do cliente. Folheei a esmo e gostei do que li en passant como sempre faço com os líricos. Deu para reter o que transcrevo de seguida pois não estava minimamente à espera de tal estilo em quem morreu tão novo, tuberculoso, aqui bem perto de Lisboa, em Linda a Pastora:

Manias!
O mundo é velha cena ensanguentada,
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.
 
Eu sei dum bom rapaz, – hoje uma ossada, – 
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.
 
Aos domingos a deia já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,
 
Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa,
O livro com que a amante ouvia missa!
*  *  *
Esperava dele uma poesia acabrunhada pelas cavernas pulmonares mas,
como esta, encontrei outras em que o poeta não se mostra minimamente
constrangido com a falta de saúde e, pelo contrário, revela uma dose de
libertinagem que nada tem a ver com o materialismo dos calceteiros. Afinal,
até devia ser um fulano bem divertido, ao contrário da imagem que nós, os
ignorantes, dele fazemos.

foto de Rómulo de Carvalho

Já ao Professor Rómulo de Carvalho (1906 – 1997), dando nome a António Gedeão, todos os portugueses o conhecemos; por mérito dele próprio e também pela música com que lhe decoraram a sua Pedra FilosofalEles não sabem que o sonho é uma constante da vida…

 

Uma antologia por que não esperava e eis-me embrenhado a folhear menos aleatoriamente do que é meu hábito na poesia. Espero ter ficado com uma ideia mais aproximada da obra do poeta e que a leitura breve não tenha sido uma

 

Amostra sem valor

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

*  *  *
Eis como deambulei esta semana a moleza que me atacou. 
Espero voltar brevemente à realidade. Mas este foi um modo claramente
 diferente de saborear esta nossa Velha Lusitânia. 

 

Lisboa, Abril de 2008

 

Henrique Salles da Fonseca

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