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A bem da Nação

ÍNDIA - 4

 

O TIGRE DE AÇO

 

 

Há quem diga da economia indiana que “o tigre está em perigo de vida”.

 

A afirmação foi abundantemente proferida durante a discussão parlamentar do Orçamento para 2008 (o ano fiscal começa em 1 de Abril) pretendendo com isto criticar a política cambial em curso. Por seu lado, o Ministro das Finanças, Palaniappan Chidambaram, justifica a valorização da Rupia com o combate à inflação ao que os opositores replicam com a demagogia pré-eleitoral que, essa sim, introduz elevadas pressões inflacionistas no sistema.

 

E que realidades estão por detrás destas afirmações?

 

A valorização por que a Rupia vem passando resulta de um significativo saldo positivo na Balança de Transacções Correntes tanto na componente das trocas comercias como das transferências para a Índia de vultosas verbas com origem nas poupanças dos emigrantes e no IDE sem que o Banco da Reserva intervenha no sentido da desvalorização. Contudo, essa política tem o reverso que se traduz na inviabilização dos Sectores exportadores de relativamente baixa tecnologia, de mão-de-obra barata, de magro valor acrescentado. O sector têxtil de confecções está a ser severamente castigado e as deslocalizações já se fazem no sentido de países com moedas mais fracas de que sobressaem o Vietname, a China, a Indonésia e o Sri Lanka.

 

Mas o Ministro das Finanças responde que nos últimos três anos a taxa média de crescimento do PIB foi de 9% e isso permite-lhe preocupar-se com o poder de compra das classes mais desfavorecidas que não poderiam sobreviver num processo inflacionista resultante de uma politica cambial diferente. Ao que a oposição lhe responde com a falta de consolidação orçamental: a inverdade do anúncio de défices de 3,1% para este ano e de 2,5% para 2009 pois nessas contas não estão considerados os aumentos do funcionalismo público que o Partido do Congresso sempre faz nas vésperas de eleições. E esse aumento já representa um agravamento de mais 3,5% no défice de 2008, verbas essas totalmente dedicadas ao consumo. Implicando, portanto, uma enorme tensão inflacionista. Se a esta benesse destinada aos cerca de 10 milhões de funcionários públicos somarmos o perdão total das dívidas bancárias acumuladas por cerca de 30 milhões de pequenos agricultores, dá para imaginar a que nível irá chegar o défice neste ano fiscal eleitoral e que tensões inflacionistas serão geradas.

 

Nos últimos três anos a produção agrícola vem crescendo cerca de 3% ao ano confirmando a autosuficiência alimentar do país alcançada há mais de uma década e essa dinâmica vem sendo da maior importância na Indústria a qual beneficia desde a independência em 1947 de uma perene política mercantilista, de forte protecção pautal e de proibição de certas importações.

 

A política educacional e de formação profissional assumiu uma responsabilidade muito grande na sustentação das políticas conducentes à autosuficiência alimentar e industrial e se em tempos a Índia exportava mão-de-obra sem formação, actualmente o cenário é bem diferente e a procura de recursos humanos indianos é uma das justificações para os actuais fluxos de IDE no país.

 

Assim se criaram estruturas industriais que cresceram para notáveis dimensões. É conhecida a trajectória internacional da indústria indiana de conteúdos informáticos e, mais espectacularmente, a dinâmica do sector siderúrgico.

 

E assim começam os problemas com a protecção da produção nacional. Efectivamente, se a Índia aborda os mercados externos com a dinâmica de que vem dando provas, lógico é que tenha que dar contrapartidas liberalizando o acesso dos estrangeiros ao seu mercado doméstico.

 

O problema está em saber se a indústria indiana está em condições de competir com a concorrência que lhe venha brevemente a ser feita no seu próprio território, não em termos de preços mas sim em qualidade.

 

Agora é que vamos ver se o tigre é mesmo de aço.

 

Lisboa, Março de 2008

 

 Henrique Salles da Fonseca (na Mesquita de Delhi)

 

 

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