Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

LIDO COM INTERESSE – 24

 

 

 

 Título: Longo caminho para a liberdade –

            - autobiografia de Nelson Mandela

        

Autor: Nelson Mandela

Editores: Campo das Letras

Edição: 5ª, Abril de 2006

 

 

Todos gostamos de saber que, à boa maneira dos filmes americanos, o drama tem um final feliz. Neste caso o drama desenrola-se ao longo de mais de 600 páginas enquanto a felicidade se vive durante escassas 80.

 

A capacidade de resistência que Mandela demonstrou durante tão longo martírio ficou por certo a dever-se a uma sólida formação ética e a uma grande tenacidade individual.

 

Relativamente à liberdade, diz ele que “(…) Enquanto obedecesse ao meu pai e respeitasse os costumes da minha tribo [princípio ético essencial], não me incomodava com as leis do homem ou de Deus. Foi só quando comecei a aperceber-me que a minha liberdade de criança era uma ilusão, quando descobri, como jovem, que a minha liberdade já me fora tirada, que comecei a ansiar por ela. Ao princípio, quando era estudante, queria liberdade apenas para mim, as liberdades transitórias de poder ficar fora à noite, ler o que me apetecesse e ir onde quisesse. Mais tarde, jovem em Joanesburgo, ansiava pelas liberdades básicas e honradas de realizar o meu potencial, de ganhar a vida, casar e ter uma família – a liberdade de não ser obstruído numa vida de acordo com a lei. (…)” - pág. 690

 

Cristão convicto tomou para si a moral que lhe foi ensinada na Igreja Wesleyan o que lhe garantiu a manutenção do optimismo, trave importante da sobrevivência durante tão longo martírio: “ (…) ser optimista consiste em manter-se na direcção do Sol, a caminhar para a frente. (…)” – pág. 422

 

Advogado com uma licenciatura sul-africana e uma post-graduação da Universidade de Londres obtida por correspondência durante a prisão em Robben Island, lutou durante toda a vida contra um sistema jurídico que ele considerava profundamente imoral mas não hesitou em saudar o seu opositor Frederick de Klerk, então Presidente da República, quando lhe viu sinais de tentar as reformas fundamentais para o desmantelamento do apartheid. Quando percebeu que de Klerk constatara que estava “do lado errado da História”, avançou para as negociações com uma esperança que o decorrer dos acontecimentos justificou. Em plena televisão, no final do único debate que fizeram em directo durante a campanha para as primeiras eleições não-raciais, escreve: “(…) inclinei-me para lhe pegar na mão e disse:        - Orgulho-me de lhe dar a mão para seguirmos para a frente. (…)” – pág. 681

 

Esperava encontrar referências mais longas ao guarda prisional James Gregory que escreveu um livro tão interessante acerca do relacionamento que mantiveram ao longo de tantos anos na Prisão de Robben Island e nos estabelecimentos prisionais que se seguiram até à libertação final [Lido com interesse - 22] mas a simpatia é demonstrada sobretudo em relação ao cozinheiro privativo que lhe puseram ao serviço na Prisão de Victor Verster. Julgava eu que ia ficar com uma leitura da questão sul-africana observada dos dois lados da barricada mas constato que o cenário não ficou completo. Já que não há grande correspondência entre estes dois livros, o de Mandela e o de Gregory, a visão do outro lado da barricada só ficará assegurada quando surgir nos escaparates um livro de Frederick de Klerk onde possamos observar na outra perspectiva os mesmos acontecimentos descritos nesta autobiografia do primeiro Presidente sul-africano não-racial.

 

Para quem, como eu, conhecia a África do Sul branca, este livro é uma viagem fundamental ao que se passava por trás dos tapumes que nos isolavam da África do Sul negra.

 

Mandela assegurou a transição pacífica do apartheid para a democracia e considerou essa a missão da sua vida. Cumprida a missão, sentiu-se no direito – e na obrigação – de passar o testemunho a outros. Thabo Mbeki pareceu um sucessor digno mas, pelas notícias que correm, já houve «quem lhe fizesse o ninho a trás da orelha».

 

A História continua a ser escrita na África do Sul.

 

Lisboa, Março de 2008

 

Henrique Salles da Fonseca

 

 

 

1 comentário

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2009
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2008
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2007
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2006
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2005
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2004
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D