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A bem da Nação

A PROVÍNCIA PLATINA – Parte 7

                                   O TROPEIRISMO NO BRASIL
 
 
 
Conclusão da parte 6: O regime pastoril, ao sul do Brasil, torna-se pouco a pouco absoluto, mas com característica bem diversas das anteriores de simples aventura, pois articula-se em torno da estância, que introduz na campanha a fixação, a hierarquia, a discriminação social, a mudança no processo de aproveitamento do gado a partir da introdução da charqueada.
A charqueada adquire importância e peso no conjunto da economia a partir do momento em que se liga e depende da concessão de sesmarias, da transformação que acontece quando os campos começam a ser apropriados. Até então eles eram livres, mas a concessão de sesmarias na região de melhores pastagens confere o sentido de propriedade, que fundamenta o estabelecimento e o desenvolvimento da estância, característica económica fundamental da região sul. A estância confere status, estabelece a sociedade de classe apenas esboçada e indefinida na fase anterior. A concessão da sesmaria representava positivo acesso na escala social. Equivalia a um título nobiliário, o ponto de partida para o predomínio económico e político.
 
***
 
Parte 7: Ao lado da apropriação da terra, consequência da distribuição de sesmarias concedidas aos mais altamente colocados na escala económica e social aconteceu  transformação no processo de tratar a carne. Na fase dos tropeiros, a carne não tinha valor económico. O que importava era a rês, que levavam de pé ao mercado consumidor da mineração. Depois o couro ocupou lugar de importância como bem económico, objecto de troca e aproveitamento. Quando os povos platinos atravessavam o período de independência, o movimento comercial do couro em São Pedro foi intenso. A possibilidade de vencer as condições que tornavam a carne género perecível, só destinado ao consumo imediato, fez aparecer e mudar seu processo de produção. As charqueadas transformaram a carne em produto comerciável capaz de resistir ao tempo, de ser consumida longe do local de produção. Assim o gado adquiriu valor económico. Com a salga, a carne passa a produto principal, mercadoria valiosa de exportação crescente e o couro fica reduzido a produto complementar, enquanto as actividades militares ampliavam o mercado próximo pelas necessidades das forças em luta.
 
Na fase anterior apenas o couro interessava porque inexistia o processo de produção e o mercado consumidor; a alimentação do homem da campanha era fácil e só nisso a sua vida era fácil. O gado disperso estava ao seu alcance na campanha. Pertencia a todos. Quando a carne passou a produto de comércio, a representar mercadoria de valor, o gaúcho teve de pagar a sua alimentação. Transitou com a charqueada e a estância para um regime de trabalho diferente, o que causou o seu empobrecimento. Desde então começou a perder as características de autonomia para se resumir em trabalhador de campo. Essa transformação coincide com a apropriação da terra, com a estância. O que era comum, a campanha, passa a propriedade de alguns e o gaúcho permanecia sem posses.
 
A estância e a charqueada impõem mudanças económicas que abalam a sociedade sulina e introduz os mais profundos e novos traços no quadro social e político do Rio Grande.
Na campanha surge a hierarquia inevitável – o proprietário, o estancieiro, elemento dominante, aquele que recebeu a posse da terra com as sesmarias e que estabelecia ou não a charqueada. Em torno do estancieiro girava a peonagem vivendo as mais diversas formas de remuneração de trabalho. Os peões dependiam do estancieiro e a ele deviam obediência motivada pela subordinação económica já consolidada.
A estância era o latifúndio que exigia mando, o exercício da autoridade sobre os que dele dependiam ou a ele se ligavam dentro ou à margem da lei, por cobiça ou por instinto de conservação. A indisciplina da fase alimentar impunha aos recentes proprietários a aplicação de métodos enérgicos. Cada fazenda representava um Estado dentro do Estado. O estancieiro significou um condensador das queixas e aspirações dos grupos locais; o líder deles junto ao governo, armando-os muitas vezes ora contra, ora a favor do governo para defesa sua, deles ou da pátria. A sua influência resultava da soma das dedicações pessoais com que contava por simpatia, temor, relações de parentesco, gratidão ou por dependência de interesse.
 
Continua na parte 8
Therezinha B. de Figueiredo
Belo Horizonte, 6 de março de 2008

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