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A bem da Nação

O GOVERNADOR PORTUGUÊS E O ALMIRANTE INGLÊS

 

 

 

Dom Augusto Paes da Graça de Almeida e Silva, formou-se em Direito na Universidade de Coimbra, muito novo, com ótima classificação. Vivo, inteligente, porte digno como convinha a um aristocrata, atrevido. Louro, desempenado, bonitaço, grande desportista.

A história da Associação Académica de Coimbra, fundada em 28 de Outubro de 1922, cuja equipa de futebol ficou conhecida como a Briosa, calção e camisa pretos, cor da capa dos estudantes, começa com o primeiro jogo de futebol contra uma seleção de Braga, em 23 de Março de 1923, onde os estudantes venceram por 2 a 1.

O primeiro golo de toda a história desta Briosa equipa deve-se ao nosso futuro Governador da Horta. Foi ainda capitão da mesma Académica no ano em que foi à final de um importante torneio nacional, contra o Sporting, sendo capitão deste o grande internacional Jorge Vieira, talvez em 1923.

Além disto, no I Torneio de Atletismo organizado pelo jornal “A Voz Desportiva”, também em 1923, o nosso finalista de Direito ganhou o primeiro lugar na corrida dos 100m com 11s e 7/10, venceu a estafeta 3 x 100m em que participou o seu irmão caçula, Fernando, que foi mais tarde bibliotecário da Biblioteca da Universidade, e o colega Luís Rodrigues, e ainda conquistou o 2º lugar no arremesso do disco com a marca de 26,74m. Há oitenta anos! Era, como se vê um atleta. Bom estudante, boa figura, boa linhagem.

Enveredou pela magistratura, e um dia, tinha só vinte e nove anos, foi convidado para Governador Civil do Distrito da Horta, nos Açores, onde não aqueceu o lugar porque não dizia que sim só para manter o importante e político cargo. Incomodou os superiores burocratas com a sua dinâmica e inteligência, e não tardou a ser exonerado, a seu pedido, menos de um ano após ser empossado, voltando para a promotoria pública prosseguir a carreira escolhida.

Torna aos Açores, em 1936, como Comissário do Governo junto da Caixa Económica Monte Pio Terceirense que sofrera uns arreveses administrativo-financeiros!

Enquanto Governador da Horta, correndo o ano de 1932, num daqueles dias de Mau Tempo no Canal, em que o vento sopra com violência e o mar lhe responde alteroso, como briga de titãs, recebe Sua Excelência um telegrama enviado de bordo do couraçado HMS Hood, o famoso navio de guerra inglês, glória da arrogante marinha de sua majestade britânica, que foi afundado durante a II Guerra Mundial com um único tiro disparado de bordo do navio alemão Bismarck. Mas não cabe aqui contar a história desta outra guerra.

 

 HMS Hood

O telegrama, recebido já o sol encostara no poente, dizia mais ou menos

ALMIRANTE “X” COMANDANTE NAVIO ALMIRANTE HMS HOOD STOP APRESENTA CUMPRIMENTOS AUTORIDADE PORTUGUESA STOP PEDE AUTORIZAÇÃO FUNDEAR SUAS AGUAS TERRITORIAIS STOP (já estava fundeado, stop) PARA ABRIGAR TEMPORAL STOP LAMENTA NAO PODER IR TERRA APRESENTAR PESSOALMENTE CUMPRIMENTOS STOP ESTADO MAR  MUITO PERIGOSO.

Não seriam estas as palavras exatas, tanto mais que o big almirante telegrafou em inglês, mas a verdade é que, se sempre os ingleses se estiveram bem lixando para Portugal, não era um importanterrimo almirante que se ia incomodar para cumprimentar um simplerrimo governador de quatro miserrimas ilhas!

- Vá chamar o capitão João Costa.

O capitão João Costa era o comandante da polícia da terra, e foi padrinho da filha do Governador que nasceu entrementes lá na Horta. História contada por este.

Chega o capitão debaixo de chuva e mau tempo ao gabinete do Governador que lhe lê o telegrama.

- Oh! Capitão! E se a gente fizesse uma partida a estes sujeitos?

O capitão estremeceu, porque já sabia que da cabeça do jovem governador alguma aventura extravagante ia sair.

- Já que estes ingleses são tão importantes que não podem vir a terra, vamos mostrar-lhes o que valem os portugueses. Veja se arranja algum pescador que se queira arriscar a entrar no mar com este tempo, e envie um telegrama para bordo a dizer a esse almirante que se ele não pode vir a terra o governador pode ir a bordo!

- Mas, senhor Governador, o mar está imenso. Isso é loucura.

ALMIRANTE “X” STOP FACE SUA IMPOSSIBILIDADE DESEMBARCAR STOP SUA EXCELENCIA GOVERNADOR  NAO VE DIFICULDADE IR BORDO STOP

- Veja se há algum pescador que queira ir.

Havia, como seria de esperar, porque os açoreanos são experientes e destemidos homens do mar que os cerca, e assim não foi difícil arranjar mais do que um voluntário que logo correu a preparar a sua fragilissima embarcação, um baleeiro, à vela!

- Capitão! Vista a sua farda de gala. Eu vou também vestir-me a preceito, e já nos encontramos no cais para embarcar.

Ainda não haviam embarcado já outro telegrama de bordo estava em terra:

NÃO VENHAM STOP MAR  MUITO PERIGOSO STOP

- Responda: para os portugueses não há mar perigoso!

Governador e comandante da polícia debaixo de grossa capa de oleado para se molharem um pouco menos, lá vai a embarcação baleeira, conduzida por experientes e calejadas mãos, voando por cima daquele mar imenso.

O almirante ficou aterrado porque se acontecesse algo ao governador ele teria que dar alguma explicação oficial o que lhe seria, no mínimo, desagradável.

O grande couraçado logo se avistou, todo iluminado, botes salva vidas prontos a serem lançados à água, para um quase certo resgate, oficiais no convés à espera daquele novo Gil Eanes, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, reencarnado.

A casquinha de noz num instante emparelhava ao longo do longo costado do imenso vaso de guerra, ora no topo da ondulação chegando ao convés deste, como desaparecendo lá em baixo na cava da onda. Na havia como estabilizá-la para subir a escada de portaló, mas para um atleta isso foi resolvido com simplicidade. Ao passar junto à escada, um salto, e lá vai Sua Excelência o Governador, de fraque, altivo, imponente, a subi-la.

Apitos, continências, guarda de honra, recepção no salão dos oficiais, discurso do embasbacado almirante, em inglês, perante a coragem dos navegadores portugueses ali consubstanciada naquele gesto, resposta do Governador, em português.

A seguir, confraternização em inglês, para novo espanto do mono linguista almirante, e rápida visita ao navio.

Segundo contava o já então coronel aposentado João Costa, o ar de espanto da marinhagem a olhar para aquele homem louro, vestido a rigor, que se atrevera a sair de terra com forte temporal, teria sido digno de um quadro de Goya!

Hora da despedida. O mesmo cerimonial.

- Capitão! O senhor desce primeiro, senta-se no fundo da embarcação para me segurar as pernas enquanto eu fico de pé para corresponder às saudações.

Mar enorme, saltar da escada de portaló do navio para dentro daquele baleeiro, qual ínfima tábua perdida, era necessário ser artista de circo! Mais artistas ainda os marinheiros açoreanos para governarem a pequena embarcação sem a deixarem espatifar-se contra o monstro encouraçado.

Finalmente, outro salto atlético, entra o Governador. De bordo, continências, música e outros cerimoniais da praxe.

No fundo do baleeiro o capitão João Costa, agora todo molhado segura com força as pernas do Governador para que este, cartola na mão, possa permanecer de pé, firme naquele balançar imenso da minúscula embarcação.

De manhã o governador recebeu outro telegrama, desta vez com protestos de admiração e respeito de toda a tripulação do majestoso Hood.

Ainda dizem que os ingleses são desportistas. Neste caso a única nota do seu desportivismo terá sido o telegrama final de cumprimentos. O mínimo que poderiam ter feito. Mas, e o nosso governador? Esse é que era um grande desportista.

Se alguém procurar nos arquivos do Governo da Horta, lá pelo ano 1932, deve encontrar, não a história, mas algum dos citados telegramas. STOP

 

 

01-dez-03

in "Se as minhas imbambas falassem" de Francisco Gomes de Amorim

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