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A bem da Nação

O CHOURIÇO NAS ARÁBIAS

 

Ruy Coelho (1889-1986)

 

Relação difícil essa das Arábias com o chouriço. E compreende-se. Antigamente não havia meios de conservação de uma carne tão vulnerável como a do suíno e só a ameaça da ira divina poderia impedir que os fiéis trincassem tal iguaria. Mas hoje, com salmoura, fumo, criogenia e ASAE, é uma pena que os muçulmanos continuem impedidos de melhorar a cotação de tal espécie por aumento que fizessem da sua procura. O mesmo se diga dos do outro lado da eterna barricada, os judeus, cujos rabis insistem na mesma proibição. Pelos vistos, suíno lá nos confins do Mediterrâneo nascente faz o pleno das opiniões e completo jus ao nome que lhe damos cá no extremo ocidental: porco, com sua licença.

 

Quando eu era menino também tive uma rabina – presumo que este novo substantivo possa servir como feminino de rabi – que estabeleceu um tabu que muitos de nós, no Liceu, mantivemos até ao presente. Já lá vão cerca de 50 anos e temo que muitos dos meus colegas de então continuem a respeitar a dita proibição: Ruy Coelho.

 

A rabina era a professora de música do Liceu Francês em Lisboa e insistia que as músicas de Ruy Coelho eram insuportáveis, que não tinham melodia, os acordes não o eram e, pelo contrário, eram dissonantes, que nas peças vocais não havia sincronia entre a tonalidade e as sílabas, ritmos aleatórios, etc., um rol de malefícios tão graves para o tímpano que nos esmoreceu por completo qualquer réstia de interesse que pudéssemos vir um dia a ter por tão famigerado personagem. E dele nos ficou tal fama que o banimos do pensamento.

 

Até hoje, digo eu.

 

Entrando numa livraria e discoteca que visito semanalmente, perco-me quase sempre na leitura de badanas e contra-capas mas desta vez decidi começar pela secção de música e vasculhei a magra estante de autores e intérpretes portugueses. Sim, havia um CD de Ruy Coelho com as Sonatas nºs 1 e 2 para violino e piano interpretadas pelos manos Vasco e Grazy Barbosa, com “A princesa dos sapatos de ferro” e um conjunto de peças bucólicas sinfónicas interpretadas pela Orquestra da antiga Emissora Nacional dirigida por Silva Pereira.

 

Antes da música propriamente dita, não resisto à tentação de referir as interpretações: Vasco Barbosa com alguma da habitual agressividade acústica, Grazy a acompanhar o mano; a orquestra com o volume e veludo com que Silva Pereira nos deliciava e que nenhum outro Maestro português conseguia dela tirar.

 

E quanto à música, tenho a dizer que não ouvi dissonância assinalável e por certo muito menos daquela com que sou agredido quando a Antena 2 da RDP impõe “coisas” de Fernando Lopes Graça. Melodias? Sim, claro, mas envoltas nas roupagens que Ruy Coelho aprendeu a cerzir com Humperdink, Schönberg, etc. Ritmos aleatórios? Algumas peças até me espantaram pelo ritmo bem marcado e lembrei-me de que «os bailarinos do “Verde Gaio” não andavam pelos palcos com a vocação de arrastarem pernas toscas ou de partirem pés em passos de contradança» (não me lembro de quem era a expressão mas não é minha de palavra de honra e estou a plagiar alguém). Este CD não tinha peças vocais e por enquanto fiquei sem saber como o autor tecia as sílabas e os sons. Mas comparando o que a rabina dizia com o que hoje ouvi, estou em crer que não me espantarei muito com o que o futuro me reserva. Só não sei onde procurar pois que se naquela grande discoteca só havia um CD de Ruy Coelho, nas de menor porte poderá não haver nenhum. Em última instância hei-de pedir à Antena 2 que passe alguma gravação que por lá esteja esquecida.

 

E porquê este esquecimento e aquele tabu incutido na juventude da minha geração?

 

Há que ver o «filme» ao contrário. Ruy Coelho era casado e pai de família, não era comunista nem entrava na política de um modo acutilante. Como tantos outros artistas que não hostilizavam Salazar, era conotado pelos anti-salazaristas como situacionista, independentemente de o ser ou não. E como se inspirava em temas históricos que não perturbavam o status quo, era dado pelos internacionalistas como nacionalista. E porque não hostilizava ninguém, o Estado abria-lhe as portas e muitas épocas de S. Carlos incluíam óperas dele. Os outros, à míngua de encomendas, vá de o desancarem e até houve um comunista solteiro seu concorrente nas pautas que escreveu um livro com o título de “Abriu a caça aos coelhos” só para poder dizer mal de quem estava a facturar enquanto ele, sem graça nenhuma, compunha “coisas” que ainda hoje desgosto de ouvir.

 

Ah, já me esquecia: a rabina era comunista mas nós não o sabíamos.

 

Finalmente, o município da naturalidade de Ruy Coelho – Alcácer do Sal – não sendo propriamente a sede da direita política portuguesa traça-lhe um quadro biográfico que transcrevo com prazer:

 

“Músico de temperamento revolucionário e educado nos princípios mais avançados da sua arte” era assim que o escultor e escritor, Diogo de Macedo, descrevia, em 1942, Ruy Coelho, compositor que nasceu em Alcácer do Sal a 2 de Março de 1892.

 

Filho de um barqueiro do Sado, Ruy Coelho iniciou os seus estudos musicais muito cedo, primeiro no Conservatório Nacional e, mais tarde, em Berlim, na Alemanha, onde foi aluno de Engelbert Humperdink – mestre que Richard Wagner escolheu para professor do seu filho, Siegfried Wagner. Ainda por terras germânicas, trabalhou com Max Bruch, director da Liverpool Philarmonic Society, e com o compositor austríaco, Arnold Schönberg.

 

De regresso a Lisboa, apresentou, em 1913, no Teatro São Carlos, O Serão da Infanta, a primeira ópera cantada em português, por artistas portugueses. Um ano mais tarde, chocou a burguesia lisbonense com a sua Sinfonia camoniana n.º1, obra que faria parte da banda sonora do filme Camões, realizado em 1946 por José Leitão de Barros.

 

Dono de um espírito inovador e de um notável ecletismo, Ruy Coelho teve um papel fundamental no surgimento de um teatro lírico de características assumidamente portuguesas, de que as peças Crisfal, Rosas de todo o ano, Auto da Alma ou Orfeu em Lisboa são exemplo. Também de inspiração nacionalista foram criadas as Sinfonias camonianas, a Abertura comemorativa da chegada dos portugueses à Índia, os seis ciclos das Viagens na minha terra e a ópera Inês de Castro. Já as Suites portuguesas, constituídas por pequenos trechos descritivos, recriam algumas das mais belas e típicas paisagens nacionais, o que facilmente poderá ser percebido pelos títulos Promenades d’été au Portugal, Alentejo, Peninsular ou Alcácer.

 

Se a ópera e a música sinfónica foram as áreas em que Ruy Coelho mais se notabilizou, o compositor foi também pioneiro no campo do bailado. Em 1918, estreou A Princesa dos sapatos de ferro. Criada a partir de um conto de António Ferro, esta foi a primeira produção nacional de bailado.

 

Pianista e maestro ilustre, faleceu a 5 de Maio de 1986. A sua vastíssima obra permanece, porém, quase remetida ao silêncio, uma vez que são muito poucas as edições discográficas de peças suas.

 

 

Afinal, nem o Maestro era mau compositor nem o tabu fazia qualquer sentido como já o não faz a proibição do chouriço nas Arábias. Mas como depois de 1974 a doutrina política não lhe era favorável, a propaganda deu-nos outras músicas de graça, essas sim, dissonantes e chatas até dizer BASTA!

 

Lisboa, Fevereiro de 2008

 

Henrique Salles da Fonseca

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