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A bem da Nação

ÍNDIA - 2

NACIONALISMO INDIANO 

 

You must become the change

you want to see”.

 

 

 

Quem chegue de avião a Bombaim logo depara com esta frase de Gandhi por cima da porta de desembarque.

 

Fez-me lembrar aquela outra de Theodore Roosevelt (habitual e erradamente atribuida a Kennedy) que diz Ask not what can your country do for you but what can you do for your country”.

 

Como seria bom que qualquer delas ou ambas fossem tema de primeira página dos jornais portugueses …

 

Permanece na mente indiana a preferência pelo que é nacional em desfavor do que é importado e se isso teve origem na luta pela independência contra os ingleses liderada por Gandhi, a política económica post-independência liderada por Nehru foi sobretudo mercantilista e protegida da concorrência externa. Socialismo, sim, porque houve um estreitamento de relações com a União Soviética como forma de mostrarem algum distanciamento dos EUA, mas nacionalista. E a propósito dessa dose maciça de nacionalismo, foi o quase-herói Netaji Subhas Chandra Bose que se aprontou para confundir este conceito de social-nacionalismo com o outro, o nacional-socialismo, mas a morte (ou o mero desaparecimento) no Japão em 1945 fê-lo sair do circuito. Contudo, ainda hoje incomoda alguma classe política indiana e incendeia uns quantos patriotas mais assanhados. Nehru pode assim prosseguir na sua política e instaurar uma dinastia que perdura.

 

Diz-se que a liberalização económica se fez em 1991 mas não é totalmente verdade. No plano interno, o sector público foi parcialmente privatizado mas em relação ao exterior ainda agora se dão passos relativamente tímidos na abertura e há sectores completamente vedados ao investimento estrangeiro como por exemplo o do transporte aéreo de passageiros.

 

Mas não poderá ser assim por muito tempo pois os empresários indianos já andam cá por fora a comprar tudo quanto se lhes depara como interessante e os Governos – europeus, nomeadamente – vão começar a querer contrapartidas. Aliás, se a Índia se ufana com o título de grande potência em perspectiva, bem pode ir pondo as barbas de molho com a concorrência externa fronteiras adentro pois, caso contrário, poderá ver cerceadas as suas exportações. E relativamente a problemas com as exportações já lhes basta a actual cotação da Rupia.

 

E aqui estão três temas por lá muito discutidos nos dias que correm: que nível de crescimento (8 ou 10%?); que nível de inflação (acima ou a baixo dos 6%?); que política cambial (nos 15 dias que lá estive testemunhei uma constante valorização da Rupia).

 

Mas se a Índia tem problemas – e quem os não tem? – reconheçamos que eles são livremente discutidos e essa é uma virtude fundamental: os indianos podem concordar ou não com as políticas em vigor, discutem essas políticas dentro e fora dos Parlamentos, nos meios de comunicação, nas ruas mas as políticas são conhecidas, têm uma lógica própria e os poderes constituídos têm toda a legitimidade democrática para acertarem e para errarem. O sistema é globalmente transparente. Do mesmo não se podem vangloriar os chineses que são nomeados voluntários para o trabalho e não podem discutir os objectivos que o Partido único define no seio de uma gerontocracia de legitimidade revolucionária e, portanto, opaca. Por isso acredito na Índia como potência do futuro a curto prazo e da China espero um estoiro a qualquer momento.

 

Relativamente ao regime de trabalho, confirmei que os serviços públicos indianos folgam ao Domingo mas achei estranho que houvesse tanta gente a trabalhar no primeiro Domingo que lá passei, nomeadamente nas obras públicas. Como certamente não estavam a trabalhar para me mostrarem, a mim, que são muito trabalhadores, perguntei e foi-me dito que as empresas têm que dar um dia de folga por semana aos seus trabalhadores mas cada uma escolhe o dia. Ou muito me engano ou, a ser verdade, o sistema não é controlável e na prática deve significar que a folga semanal fica na teoria e quem a fizer corre o risco de no regresso ao trabalho encontrar o posto preenchido por outra pessoa. Concluo que na Índia os privados não folgam mas, paralelamente, também soube que certo dia os bancários fizeram greve. Portanto, o sindicalismo indiano não é tão estéril e falho de sentido como o chinês.

 

Em Delhi, Bombaim e Goa vê-se a classe média a funcionar mas em Jaipur e Agra não se vê a mais remota sombra de alguém que ostente um nível de vida menos apertado. Aquele nível padrão definido pelos taxistas aplica-se na Índia com grande evidência: as sociedades em que os taxistas têm uma relativamente alta condição, são sociedades pobres; as sociedades em que os taxistas têm uma relativamente baixa condição, são sociedades ricas. Mal da sociedade em que o taxista é um Senhor. No Rajastan e no Uttar Pradesh os taxistas têm um relativamente alto padrão. E quando em Jaipur pedi que me mostrassem um bairro onde pudesse ver como vivem os remediados, levaram-me a ver o palácio do Marajá. Sim, realmente tudo evidencia que é remediado ou mais do que isso mas à sua volta nada vi que pudesse induzir algum equilíbrio social. Disseram-me que a classe média vive misturada com o resto da população e que, por isso, não há um bairro onde ela se concentre. Não acredito. Não há ninguém que esteja habituado a tomar banho uma vez por mês que se sujeite a viver no meio do que vi. Pura e simplesmente não deve haver classe média naqueles Estados e isso é um barril de pólvora com rastilho cujo comprimento não imagino.

 

As Universidades indianas já habituaram o mundo à qualidade dos seus licenciados e são um passaporte para o mundo globalizado que funciona fora da Índia. A título de mera curiosidade, registei que em Jaipur a Universidade se localiza longe da cidade num campus cercado e com portão fechado que só se deve abrir pontualmente; nas outras cidades que visitei (com excepção de Agra onde não tratei de esclarecer a situação) as Universidades estão à mão de semear, ou seja, em estreito contacto com a sociedade envolvente. Creio que nada disto acontece por acaso e só fico sem saber se aquela Universidade se isola por motu proprio ou se é a sociedade que a rejeita. Quando a Universidade vive na cidade é porque dela faz parte com naturalidade mas, mesmo assim, todos sabemos que há Universidades que esmagam a sociedade envolvente (tradicionalmente, o caso de Coimbra) e outras que são verdadeiros motores do desenvolvimento (Évora e Aveiro). A Universidade de Goa não terá ainda o mais elevado prestígio dentro do ranking universitário indiano mas tem duas qualidades fundamentais: existe e não esmaga.

 

Tendo o quadro jurídico goês raízes portuguesas, é notável o trabalho que a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa vem desenvolvendo em parceria com a Universidade de Goa mas talvez fosse interessante lançar mais algumas pontes noutras áreas do conhecimento de modo a que o estreitamento das relações bilaterais permitisse maior arejamento de ideias em ambos os lados da cooperação. A Escola Médica de Goa tem tradições que fazem parte da História de Portugal mas estou certo de que novas áreas como as da Engenharia e da Economia poderiam ser motivo para a definição de um modelo de desenvolvimento que Goa tem que redefinir para confirmar a autonomia que tanto lhe custou obter depois de 1961. Se o não fizer corre o risco sempre presente de ser absorvida por um dos Estados vizinhos. Um Estado só existe se tiver particularidades que o distingam das zonas envolventes. Goa tem particularidades que não deveria enjeitar e que, pelo contrário, devia realçar e promover.

 

É claro que me refiro à língua e à religião mas assim como a língua dá sinais de não morrer, a religião nunca quis saber da língua para nada. Contudo, foi à custa da língua que a religião lá entrou …

 

Lisboa, Fevereiro de 2008

  Henrique Salles da Fonseca

(na Grande Mesquita de Delhi)

 

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