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A bem da Nação

ÍNDIA - 1

NAMASTÉ

 

 

 

Foi com um simpático namasté que a hospedeira da companhia aérea que fomos tomar a Londres nos recebeu à entrada do avião. Nunca tínhamos ouvido falar daquela empresa e ficámos agradavelmente surpreendidos. Felizmente, em toda a deambulação voámos sempre na “Jet Airways”. Ficámos clientes. Trata-se de uma empresa de capitais privados concorrente da de capitais públicos, a “Air India”.

 

Namasté quer dizer olá mas como na Índia tudo tem um significado profundo, então o sentido da expressão ronda qualquer coisa como ‘o deus que há em mim saúda o deus que há em ti’. No nosso pragmático hemisfério ocidental não queremos estar com tanta delonga mas erramos a pontaria se criticarmos os indianos por excesso de formalismo. Sim, eles foram pragmáticos ao inventarem uma só palavra para expressarem tão longo conceito; nós é que somos superficiais e nos quedamos pelo totalmente estéril olá! Este sentido de profundidade na mais simples saudação revela bem a dimensão que as ideias assumem no subcontinente que tanta civilização exportou.

 

Pertenço ao grupo dos que entendem que a Fé não se discute e cumpro fielmente este conceito mas não deixo de reparar que num país em que persistem situações chocantes de miséria, as vacas sejam sagradas.

 

De ti saíram as primeiras águas…

Oh Vaca!, tu és o alimento e o leite…

A vaca é a mãe do chefe do nosso clã

Oh ablução!, a vaca é a tua mãe…

 (Atharva-veda, hino à Vaca Sagrada)

 

As vacas da raça a que no nosso hemisfério chamamos ‘brâmane’ são sagradas na Índia mas os bois da mesma raça não passam de simples animais de trabalho. O mesmo se diga de cavalos, burros, camelos e búfalos. Já as búfalas, essas, são profanas produtoras de leite.

 

Notei com agrado que todos os animais daquelas espécies estavam relativamente bem tratados mas já na espécie humana a generalização não foi tão exaustiva. Por isso me questiono sobre a verdade absoluta da afirmação de que a Índia é a maior democracia do mundo. Não, enquanto as vacas tiverem um estatuto superior ao de certas pessoas; não, enquanto sendo proibido buzinar, todos os camiões têm inscrito na traseira em letras garrafais o pedido de “Blow horn” ou de “Horn please”. E por mais que se apite, não há quem os arrede do meio da estrada pelo que é vulgar ultrapassar pelo lado proibido. É impressionante vê-los a acelerar em direcção aos engarrafamentos que se formam nos cruzamentos, é incrível a convicção de que onde cabe um hão-de caber dois … ou mais. Poderão ser uns grandes democratas mas não deixam de lançar a confusão na via pública e de fazerem uma derrogação permanente do Código da Estrada e, portanto, do Estado de Direito. A uma derrogação permanente chama-se revogação, o que leva os ocidentais a acreditar que naquele país a lei só é para cumprir quando apetece. Ou seja, é uma democracia formal de cúpulas porque na base ela não funciona, tal a desconsideração por certas camadas da população – as castas formalmente abolidas mas persistentes na vida real – e por sistemáticos incumprimentos da lei.

 

E quando estabelecemos paralelos entre os pragmatismos indiano e europeu, logo me ocorre o sistema de sacralização das vacas. Ganhará anos no Paraíso todo aquele que alimentar as vacas. Então, para que o próximo alcance a eternidade ideal, os donos das vacas soltam-nas logo pela manhã a fim de que elas se dirijam à cidade onde os crentes compram molhos de erva verde e tenra que lançam na via pública para que as vacas se alimentem. Saciadas, ao fim do dia as pachorrentas cornúpetas regressam a casa onde os donos diligentemente as ordenham dirigindo-se logo de seguida à cooperativa leiteira local onde vendem o leite cuja produção lhes ficou bem barata. Passei frente a uma dessas cooperativas em Jaipur em hora de ponta e decidi não beber leite a não ser super fervido ou mesmo refervido. Ah, já me esquecia: nada impede que a tal erva verde e tenra vendida nas cidades não tenha sido produzida pelos donos das vacas que dela se alimentam. A sacralização da vaca conduziu assim a uma situação perfeitamente leonina em que os donos das vacas só têm receitas e os custos são disseminados pelo resto da população.

 

Paralelamente, no ocidente os pecuaristas alimentam o seu gado herbívoro e ruminante com farinhas de carne e eufemisticamente chamamos loucas às vacas em vez de o fazermos aos respectivos donos.

 

O pragmatismo indiano mais uma vez a ganhar pontos face ao nosso.

 

Delhi é uma cidade relativamente limpa mas Jaipur mede medo e Agra é sua vizinha. Nunca imaginei que fosse possível viver no meio de tanto lixo acumulado na via pública. Nunca imaginei que um dia haveria de ver gente adulta a aliviar-se em plena selva urbana. Se o Estado de Rajastan se puser a queimar lixo vai por certo produzir energia durante um bom par de anos e, no entanto, poderia recorrer à solução encontrada em Mumbai (a que nós chamamos Bombaim) que permitiu a um determinado grupo social (as castas foram banidas pelo que há que contornar a palavra) estabelecer-se no centro da cidade com o negócio da recolha e separação de lixos para selecção dos recicláveis. A higiene pública em Mumbai não chega aos níveis europeus nem sequer aos de Goa mas parece uma sala de cirurgia quando comparada com Jaipur, capital do Rajastan, ou com Agra, capital do Uttar Pradesh.

 

 Ao lado deste espectáculo corria uma passadeira vermelha que nos conduzia a um restaurante que se pretendia luxuoso ... ou quase

 

A Índia não será uma verdadeira potência mundial enquanto não tiver mais cuidado com a qualidade de vida dos seus cidadãos. Impõe-se um nível mínimo de cuidados na higiene pública, o lançamento de redes de saneamento básico, a criação de hábitos de higiene pessoal na classe política. Enquanto os políticos não tiverem hábitos de higiene pessoal não será possível convencê-los a seguirem políticas de higiene pública.

 

Não há democracia quando tantos milhões de indianos resvalam no esterco e chafurdam em busca de sobrevivência.

 

Se os empresários portugueses que se dedicam à protecção do Ambiente quiserem fazer negócio na Índia, daqui sugiro que lancem uma campanha de higiene pessoal a nível do Parlamento em Delhi e nas Assembleias Legislativas dos vários Estados. Nada melhor do que lidar com gente asseada do que com mal cheirosos. Aconselham as más-línguas que convém induzi-los a lavarem as mãos pois parece que as têm bem sujas …

 

Lisboa, Fevereiro de 2008

 

 Henrique Salles da Fonseca

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