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A bem da Nação

João Gaspar Simões

 

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João Gaspar Simões

(pintura de Mário Eloy Pereira - 1900/51)

 

“ (…) Vivemos num país onde predomina, na interpretação de qualquer atitude humana – assim pensava Fernando Pessoa – o «sentido degradante da Brasileira do Chiado» e em que tudo que é íntimo, por mais belo que seja, se desenha aos olhos da maioria segundo uma perspectiva vulgar.

 

Ai de nós, porém, se não ousarmos afrontar tão degradante deformação intransigentes com a mediocridade e firmes no propósito de arrancar à mesquinhez dos costumes nacionais tudo que ainda respira grandeza, quer na alegria quer na dor, quer na virtude quer no vício. O que antes de mais nada nobilita o homem é a sua coragem de viver e morrer sem arriscar um dia que seja da sua vida na mesa em que se jogam quotidianamente os acomodatismos, as hipocrisias, o farisaísmo, a pusilanimidade de carácter, tudo que na falsa escala de valores que nos rege é considerado triunfos e cartadas da respeitabilidade social. Não diminui ninguém ter vivido humano e ter morrido humano. Só é aviltante para a condição humana o tornar-se o homem instrumento de interesses, de paixões, de aspirações, em essência negação do que nele generosamente responde ao apelo da vida.

 

O homem meio, o homem instrumento, quer para o bem quer para o mal, o homem ponte de passagem seja para o que for que não ele próprio e o seu nobre destino espiritual – eis o que degrada e avilta a condição humana. (…)”

João Gaspar Simões INTRODUÇÃO (págs. 27 e 28) a «Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões», Ed. Publicações Europa-América, Março de 1957

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