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A bem da Nação

Histórias açorianas

 

 

                                  Brasão dos Hurtere ou D’Utra  açorianos

 

 

Isabel Corte-Real era filha do algarvio João Vaz Corte-Real, fidalgo da casa real,  que passou com a mulher Maria Abarca e família para a Ilha Terceira, Açores, por volta de 1474, como alcaide-mor do Castelo de Angra e da Ilha de São Jorge. Era irmã de Gaspar e Miguel Corte-Real, jovens navegadores que atingiram a Terra Nova dos Bacalhaus.

 

Recentemente descobertos, os Açores eram nos séculos XV e XVI ilhas vulcânicas despovoadas a serem ocupadas. Para lá eram enviados degredados, fidalgos em apuros que no reino haviam cometido algum tipo de crime, galegos que no tempo das contendas da Beltraneja, refugiados em Portugal, ficaram sem lar. Também naquela ocasião foram colonos flamengos, algarvios, nortenhos e escravos africanos que vinham com os nobres de segunda linha (donatários, capitães, militares, juizes e religiosos), aqueles que recebiam como prêmio terras, tenças, benefícios, títulos e distinções, por serviços relevantes prestados à coroa portuguesa. E até judeus e cristão-novos que fugiam de perseguições políticas e religiosas.

 

 Joss Hurtere, ou José, ou Jorge de Utra, que assumia a donataria da Ilha do Faial herdada pela morte de seu pai o fidalgo flamengo Joss van Hurtere, foi a Angra e lá casou com Isabel Corte-Real. Mal sabia a senhora que o seu infortúnio estava selado com aquele casamento. Jorge era um homem de gênio autoritário, difícil e intolerante.

Na ilha ficou sobejamente conhecido o caso de sua irmã, Joana de Macedo, casada com Martim Behaim (Martim da Boemia), o autor do famoso Globo de Nuremberg, primeiro globo feito em pele de cabra, onde se vêem os paises e suas localizações no tempo dos descobrimentos. Martim Behaim era, como o sogro, flamengo e culto. Através dele conheceu e casou com Joana, formosa e bem mais jovem do que ele.

 Martim foi para Nuremberg para assumir o patrimônio herdado e lá ficou por quase dois anos executando o famoso trabalho de cartografia. Nesse tempo chegara ao Faial Fernão de Évora, mamposteiro-mor (procurador) dos cativos de todas as Ilhas dos Açores. Ao que parece, após conhecer Joana eles se enamoraram e relacionaram-se mais do que deviam. Enfurecido, ao encontrá-los juntos, Jorge de Utra tomou as dores do cunhado. Prendeu o biltre e enviou-o com grilhões de volta para Lisboa.   Lá, D. Manuel o perdoou e deu-lhe carta de seguro. Abusando da sorte, Fernão volta ao Faial e novamente é preso pelo donatário, que ignora a carta real. Desta vez Jorge envia-o para a prisão da Vila da Praia, na Terceira, para matá-lo. Fernão reclama e pede para ser enviado para Lisboa. Seu pedido é recusado. Desesperado, pede a um filho que interceda por ele junto ao rei. Porém quando este volta do reino, com novo e favorável despacho, já Fernão havia fugido e se abrigado sob a proteção da Igreja. O rei perdoou-o novamente e determinou que o donatário do Faial acatasse a nova carta de seguro. Depois disso, silêncio absoluto. Não se soube mais notícias dele na Ilha do Faial.

 

Jorge de Utra agia como senhor absoluto.  Já com os filhos crescidos apaixonou-se por uma jovem da família Izeu Pinheiro. Seguiu os instintos. Não respeitou a mulher, D. Isabel Corte-Real, senhora de estirpe, filha do donatário da Terceira e São Jorge, e nem os filhos, Francisca Corte-real e Manuel de Utra. Amancebou-se com a jovem mulher e com ela teve um filho, Jorge Macedo, sem se importar com a sociedade e familiares.

Passou a maltratar e a menosprezar a esposa e os filhos, apesar dos protestos destes. Mas à amante e ao filho ilegítimo dava toda a atenção, cuidados e afeto. Com Manuel de Utra, seu primogênito, entrou em querelas e expulsou-o de casa. Vitima de tantos desgostos a senhora definhou e faleceu. Viúvo, imediatamente colocou a amante dentro de casa e passou a infernizar a vida da filha com maus tratos. Negava-lhe comida, amaldiçoava-a, dizia que haveria de matá-la, como fizera com a mãe dela. Às escondidas, com pena, as negras escravas levavam-lhe comida para que não morresse de fome. Desesperada, sem saber o que fazer, abandona a casa do pai. Só no mundo vai viver com um mercador, Heitor Rodrigues, que a requesta e com quem casa clandestinamente, segundo diziam os cronistas do seu tempo. Mas morre de parto, após conceber um filho. No testamento, deserda o pai e descreve com amargor todas as injurias que ele lhe fez passar.

 

Jorge de Utra morreu velho, octogenário, sem que Manuel, seu sucessor e futuro donatário, quisesse vê-lo. No seu testamento não mencionou suas mulheres e nem seus filhos legítimos, unicamente dizia ter um filho, concebido fora do casamento, Jorge Macedo, a quem dedicava especial carinho. Pediu para ser enterrado na ermida que construiu, junto às suas casas.

Foi uma personalidade arbitrária e forte, de meio-sangue flamengo, que marcou a família e a sociedade quinhentista faialense.

 

Maria Eduarda Fagundes

Uberaba 11/01/2008

 

Dados bibliográficos:

 

Genealogia da Ilha Terceira (Vol. I e III) (Antonio Ornelas Mendes e João Forjaz).

DISLIVRO HISTÓRICA- 2007

 

Anais do Município da Horta

Subsídios para a História da Ilha do Faial (Marcelino Lima)

Gráfica Minerva - 1940

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