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A bem da Nação

DESACORDO ORTOGRÁFICO

 

Malaca Casteleiro aponta «pequeno sacrifício» para obter

«grandes resultados»

 

A aceitação das regras propostas pelo Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa seria um «sacrifício pequeno» mas com grandes resultados, disse hoje o linguista João Malaca Casteleiro no Colóquio sobre o Ensino de Português para as Comunidades

 

Hoje vivemos numa «aldeia global», onde a alfabetização é cada vez mais importante, disse o docente universitário, acrescentando que a simplificação da ortografia seria uma óptima solução para tornar o processo de alfabetização mais fácil e eficiente.

Falando na sessão de hoje do colóquio de dois dias, que se realiza na Universidade Lusíada de Lisboa, João Malaca disse ser muito mais fácil para uma criança aprender a escrever acção sem c, ou óptimo sem p, acrescentando que
«não é assim tão grande o sacrifício para um adulto que já sabe ler e escrever". »

De acordo com o professor universitário, é extremamente importante que os falantes do Português de vários países sejam alfabetizados e a alteração que o novo acordo propõe vem ao encontro desta necessidade.

«A abolição das consoantes mudas, proposta pelo Acordo, apenas abrange dois por cento do vocabulário português mas estes dois por cento fariam uma grande diferença», sublinhou.

Ao referir que são mais de 200 milhões os falantes de Português, o Professor lembrou que «hoje vive-se uma fragmentação da Língua Portuguesa» e apelou aos meios de comunicação social para que tomem partida no processo de defesa e difusão da Língua Portuguesa fora de Portugal.

«Nós [portugueses] tendemos a limitar o Português a Portugal e aos países de Língua oficial Portuguesa mas, actualmente, em Angola, 40 por cento já reconhecem o Português como língua materna, quando em 1992 eram apenas 12 por cento», exemplificou João Malaca Casteleiro.

António Simões, Professor na Universidade de Fairfield, nos EUA e conselheiro do CCP, que também participou no painel, defendeu a importância do ensino na língua materna durante os primeiros cinco - seis anos no país estrangeiro, para o sucesso escolar dos alunos.

«Ao contrário daquilo que se pensa, ensinar as várias disciplinas do programa escolar, na língua materna, ajuda a criança a assimilar melhor a matéria, enquanto fora da escola vai aprendendo a língua do país que a acolheu», explicou o Professor, acrescentando que, só depois deste período, o aluno estará preparado para aprender as disciplinas na segunda língua.

«É importante manter a língua de origem por uma questão de cultura e tradição mas sobretudo por uma questão de sucesso profissional de cada um», explicou o Professor norte-americano de origem portuguesa.

Garantir um ensino de qualidade na língua materna da criança é muito importante para preservar os laços com o país de origem mas sobretudo para lhe garantir o sucesso escolar.

«Entre salvar a criança ou salvar a língua, por mais que me custe, admito que optaria por salvar a criança», confessou o professor norte-americano.

Lusa/SOL

Não concordei minimamente com tão doutas posições e fiz saber a minha opinião nos termos que seguem:

«As questões políticas não devem ser confundidas com questões técnicas; as técnicas podem ajudar mas não devem subjugar as decisões políticas.

O Acordo Ortográfico é uma questão política para cuja apreciação as questões técnicas têm uma relevância marginal.

Politicamente, entendo que o português falado em Portugal é o padrão quer ele tenha o sotaque minhoto, beirão, alentejano ou algarvio. Se deixarmos de ter um padrão, qualquer dia no futuro mais próximo ou longínquo perdemos o sentido do «centro» e as periferias gerarão tantas particularidades que a língua deixará de ter uma norma coesa, a do padrão, que correrá o risco de desaparecimento.

Assim, sou politicamente contrário ao Acordo Ortográfico e entendo as matérias técnicas como irrelevantes.»

 

Foi a minha amiga Manuela Magno, ex-candidata à Presidência da República, que hoje me fez chegar a petição que transcrevo e que pode ser localizada na Internet em http://www.PetitionOnline.com/acor1990/

 

Exmos. Senhores

Primeiro-Ministro de Portugal,

Ministra da Cultura,

Ministro dos Negócios Estrangeiros e

Ministra da Educação

Tomámos conhecimento da vontade do Governo Português de tomar uma decisão acerca do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em 1990 pelos países de língua oficial portuguesa.

Tendo consultado o texto do documento

http://www.necco.ca/faq_acordo_ortografico.htm não podemos deixar de manifestar o nosso desacordo e a nossa mais profunda indignação acerca das modificações previstas para a ortografia portuguesa que, além de contraditórias, só irão causar mais confusão para quem aprende e, mais importante, fala o português.

O próprio Acordo entra em contradição variadas vezes. Está previsto que se retirem os “c’s” e os “p’s” mudos, desprezando a etimologia das palavras, mas também está previsto que se mantenham os “h’s” mudos (“homem”, “harmonia”), devido à etimologia das palavras. Onde está a coerência nisto?

 Para além deste facto, a eliminação dos “c’s” e dos “p’s” mudos irá causar imensa confusão para quem aprende e fala a língua portuguesa em Portugal, visto que vai contra as regras da pronúncia do português neste país. Isto porque, apesar de não se lerem explicitamente, os “c’s” e os “p’s” são essenciais para indicar a abertura da vogal que lhes precede. Eis alguns exemplos práticos que o demonstram claramente:

• Na palavra “cação”, o primeiro “a” é fechado; lê-se, portanto, “câ-ção”. Na palavra “facção”, o primeiro “a” é aberto pela letra “c” que lhe sucede; lê-se, portanto, “fá-ção”.
Ora, o Acordo estabelece que se escreva “facção” como se escreve “cação”: “fação”. Mas nesse caso, qual a pronúncia correcta desta palavra? Segundo as regras da pronúncia do português de Portugal, deveria ler-se “fâ-ção”, visto que não há nenhum “c” que abra a vogal “a”!

• Na palavra “adoçar”, a letra “o” tem o valor de “u”; lê-se, portanto, “a-du-çar”. Na palavra “adopção”, a letra “o” é aberta pela letra “p” que lhe sucede; lê-se, portanto, “a-dó-ção”. Ora, o Acordo estabelece que se escreva “adopção” como se escreve “adoçar”:“adoção”. Mas nesse caso, qual a pronúncia correcta desta palavra? Segundo as regras da pronúncia do português de Portugal, deveria ler-se “a-du-ção”, visto que não há nenhum “p” que abra a vogal “o”!

• Na palavra “tropeção”, a letra “e” é muda; lê-se, portanto, “tru-p’-ção”. Na palavra “inspecção”, a letra “e” é aberta pela letra “c” que lhe sucede; lê-se portanto, “ins-pé-ção”. Ora, o acordo estabelece que se escreva “inspecção” como se escreve “tropeção”: “inspeção”. Mas nesse caso, qual a pronúncia correcta desta palavra? Segundo as regras da pronúncia do português de Portugal, deveria ler-se “ins-p’-ção”, visto que não há nenhum “c” que abra a vogal “e”!

Evidentemente que poderíamos continuar com um vasto rol de exemplos, mas estes parecem-nos bastante elucidativos das graves consequências que estas modificações irão trazer. É claro que, no Brasil, a eliminação dos “c’s” e dos “p’s” não trouxe nenhuma consequência, porque os brasileiros abrem naturalmente todas as vogais! Os brasileiros lêem, naturalmente, “cação” como “cá-ção” e “adoçar” como “á-dó-çar”. Mas para os portugueses e também para os africanos dos PALOP e timorenses, que temos tendência para fechar as vogais, necessitamos da presença dos “c’s” e dos “p’s” para que possamos saber como se devem pronunciar essas palavras. (Evidentemente que a eliminação dos “c’s” e dos “p’s” em palavras em que eles não exercem a sua função não causará problemas nestes países – são exemplos as palavras “árctico”, “didáctico” e “óptimo”, em que o uso de acento agudo inutiliza o “c” e o “p”.)

Estranha e injustamente, o Acordo só prevê que este sacrifício da pronúncia em primazia da ortografia se dê em Portugal, Timor e nos PALOP. Porque é que não está previsto no acordo que os brasileiros substituam o acento circunflexo das palavras “antônimo”, “tênis”, por acento agudo (“antónimo”, “ténis”)? Porque não é assim que os brasileiros pronunciam. E assim continuamos com duas ortografias diferentes no que concerne a estas palavras. Mas não era precisamente com a dupla ortografia que o acordo vinha acabar? Então e porque é que o acordo cede quando está em jogo a pronúncia brasileira e não cede quando está em jogo a pronúncia portuguesa, africana e timorense? Mais uma vez, onde está a coerência nisto?

A implementação do Acordo irá causar ainda outros estranhos fenómenos, tais como a eliminação de certos “c’s” e “p’s” em Portugal, mas que se manterão no Brasil, por serem lá pronunciados. Isto acontece em palavras como “recepção” e “infecção”: escrevem-se assim no Brasil, pois os brasileiros lêem o “p” e o “c”, mas em Portugal passariam a ser escritas “receção” e “infeção” (mais uma vez, contradizendo as regras da pronúncia).

No telejornal do passado dia 27 de Novembro, foi entrevistado um perito brasileiro que se questionava: “Como se escrevem os documentos das Nações Unidas? Em português do Brasil, em que se escreve “teto” sem “c” e “ótimo” sem “p”? Ou em português de Portugal, em que se escreve o “p” e o “c”, mas não se lêem?” As duplas ortografias não existem apenas na língua portuguesa. A língua inglesa tem diferenças de ortografia (naturalmente menos que a língua portuguesa), mas nunca se viu isso como um empecilho, como um defeito do idioma a corrigir a todo o custo. Além do mais, existem profundas diferenças a nível gramatical entre o português de Portugal e o português do Brasil que também se reflectirão na escrita (exemplo: em Portugal escreve-se “Porquê?”; no Brasil escreve-se “Por quê?”). Não só o Acordo prevê que continue a existir inúmeras diferenças na ortografia, como irá continuar a haver diferenças na gramática dos dois países, que farão com que continue a ser possível distinguir um texto em português de Portugal e um texto em português do Brasil. Então porquê implementar este Acordo se ele não cumpre o seu suposto objectivo, o de unificar as ortografias de todos os países de língua oficial portuguesa?

Através dos vários exemplos apresentados, parece-nos ser bem notório e visível que, ao contrário de facilitar, o acordo só vem dificultar ainda mais o ensino, a divulgação e a própria comunicação em português, além de apresentar absurdas incoerências. Uma língua não se reduz apenas à sua ortografia: há uma série de implicações directa e indirectamente inerentes a esta e que têm uma importância basilar. Se realmente se pretende alterar a ortografia, tem necessariamente de se alterar toda uma série de fundações da língua, isto para não falar na tradição etimológica e nas características próprias e intrínsecas de cada dialecto. A pronúncia é uma das, senão a base mais forte e fundamental de um idioma, e este Acordo despreza-a e relega-a para um plano de fundo, pondo em causa toda a estrutura da língua e aumentando o risco do seu desmoronamento.

Pelo exposto, pode concluir-se que, não sendo por razões intrínsecas à própria língua que se promove este Acordo, ele parece ter um objectivo simplesmente comercial e diplomático. Será razoável reduzir a língua portuguesa, com a sua riqueza e diversidade próprias, a uma mera moeda de troca?

Solicitamos, pois, que seja suspensa a implementação do referido Acordo.

Ass) Nuno Raimundo

(Segue-se um rol de assinaturas no qual a minha tem o nº 664)

 

Lisboa, Janeiro de 2008

 

Henrique Salles da Fonseca

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