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A bem da Nação

Burricadas nº 11

A justa ira dos deuses

v      Por fim, os Supervisores acordaram do seu dolce far niente. Deo gratias. Mas duas perguntas continuam por aí a envenenar os espíritos, ainda sem resposta.

v      Cadê os outros?

v      É que ninguém, em seu perfeito juízo, acredita que o BCP tenha tido, entre nós, o monopólio da gestão imprudente do risco de crédito. Talvez ele, porque desde sempre viveu obcecado com a conquista de quota de mercado a qualquer preço, tenha ido longe de mais na imprudência. Mas a diferença para os restantes Bancos cá do burgo, se diferença houver, será, quanto muito, de ordem de grandeza - nunca de substância.

v      O que é verdadeiramente reprovável na conduta das sucessivas administrações que o BCP já conheceu são os esquemas a que lançaram mão para fazer de cada emissão de acções um sucesso retumbante.

v      Financiar sistematicamente e em grande escala (mas poderia ter sido apenas em pequeníssima escala, que não é a dimensão do facto que dá razão à crítica ) terceiros para que estes acorram aos aumentos de capital (pior, pôr como condição de empréstimos a subscrição de umas quantas acções do Banco) é exemplo rematado de uma clara situação de conflito de interesses (agency problem).

v      Ganha a administração- que faz um brilharete e se perfila para receber uns bem merecidos prémios. Ganham os consultores - que a aconselhem na aventura. Ganham umas comissões mais os que distribuam essas novas acções pelo mercado. E perdem todos os outros.

v      Perdem os que já eram accionistas - os quais vão suportar um duplo prejuízo: (1) aquele que resulta do efeito de diluição das novas acções na cotação das acções existentes; (2) e aquele outro inerente ao risco de crédito agravado que esses financiamentos tão especiais sempre representam (com os devedores, inadimplentes ou apenas sem vontade de pagar, a darem essas acções em pagamento, pelo preço que as subscreveram, pondo assim termo a uma situação que não lhes era favorável).

v      Perdem credibilidade as Bolsas onde as acções antigas estavam cotadas - posto que, sem se aperceberem, foram alvo de uma manipulação de mercado grosseira.

v      Perde o sistema bancário – e perde duplamente também: (1) porque o Banco que assim procede goza, por uns tempos, de uma supremacia competitiva que é meramente fictícia; (2) porque um Banco que, por esperteza saloia ou imprudência, se tornou mais frágil vai fragilizar todos os restantes (isto é, agrava o risco sistémico).

v      Enfim, perdem os contribuintes – porque, se esse Banco entrar em crise, é a eles, contribuintes, que, no final do dia, a factura de reequilibrar o sistema bancário vai ser apresentada.

v      Os nossos Supervisores, com enorme desfaçatez, comportam-se agora como se tudo isto tivesse ocorrido ontem mesmo – vá lá, com boa vontade, algures no corrente ano. Qual quê?

v      Quase todos os factos que formam a “saga do BCP” ocorreram há mais de 3 anos. Como podem os Supervisores pretender passar para a opinião pública a ideia de que, atentos e vigilantes, estão a actuar em cima do acontecimento?

v      Não tiveram eles todos os dias destes últimos anos (e, se recuarem no tempo, outras surpresas aguardá-los-ão por certo) para detectar os actos que hoje, com pompa, circunstância e grandiloquência, declaram ilícitos?

v      Não são eles pagos justamente para prevenir, primeiro, detectar prontamente, quando necessário, e interromper com firmeza estas práticas?

v      Que contas prestaram eles, então? E que contas vão prestar, agora?

v      E tantos accionistas do BCP, objectivamente prejudicados pela actuação mais diletante (para não escrever menos escrupulosa) das suas administrações (responsabilidade contratual) e pela negligência dos Supervisores (responsabilidade extracontratual) nos quais confiavam?

v      Não vão exigir de umas e de outros a justa reparação a que têm inegavelmente direito?

Lisboa, Dezembro de 2007

 A. PALHINHA MACHADO

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