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A bem da Nação

CURTINHAS SOBRE A NOSSA ECONOMIA - 2

CURTINHAS II....

Miguel Magalhães, leitor atento, pergunta-me com perspicácia, onde pretendia eu chegar com a minha primeira “Curtinhas...” Na verdade, pretendia chegar a vários sítios: desde logo a um local que me abrigasse dos críticos que me acusam de eu escrever a metro; depois, ao fundo do problema português.
Quem sonha com bens que não produz, produzindo, em contrapartida, coisas que os outros pouco apreciam (hoje diz-se, de escasso valor), em circunstâncias normais, fica-se pelo sonho, porque não terá dinheiro para mais – ou, então, empreende uma promissora carreira como “amigo do alheio”. Entre nós, porém, os sonhos têm estado ao alcance da mão e do cartão de crédito e de todas as variantes do crédito ao consumo – tantos, à vez, a esgatanharem-se para financiar os nossos sonhos. Só isto nos tem permitido sonhar, comprar – e ir seguindo empregados. Até ao dia em que as dívidas tenham de ser pagas – e o desemprego disparar. Perigosíssima conjunção, no desfecho de uma longa série de circunstâncias anormais.
Quem quer ganhar bem, trabalha bem, produz melhor – caso contrário, se as circunstâncias forem normais, só encontrará produtos caros para comprar ou, pior do que isso, não encontrará comprador para os seus produtos (os outros também gostam de pechinchas), não terá dinheiro nem para comprar barato – e acabará no desemprego. Para comprar aos outros mais do que aquilo que eles nos compram a nós, alguém terá de entrar com a diferença – no caso, financiando os deficits da Balança de Transacções Correntes. É o que os Bancos têm feito alegremente, desde 1998. Mas, como a capacidade de endividamento dos Bancos (igual a qualquer outra empresa) é função dos seus capitais próprios, e como, para os Bancos, a capacidade de captação de fundos no mercado de capitais depende também do risco a que eles próprios se encontram expostos – tudo tem um limite. No caso, Bancos fortemente endividados, com dívidas de prazo muito curto (no mercado interbancário internacional), expostos a riscos positivamente correlacionados com o ciclo económico (perdoe-se-me o calão) e garantidos por bens não transaccionáveis (imóveis) - as perspectivas não são risonhas. A isto nos conduziram outras mais circunstâncias nada normais.
Foi o crédito bancário promovido com agressividade – e, sobretudo, o destino que lhe foi dado – que tornou possível que prolongássemos por tanto tempo um desequilíbrio externo que não pára de crescer (atenção, o crédito bancário, em concreto, amorteceu temporariamente o desequilíbrio interno). Aqui, como na praia, a banhos, o problema é ir mar adentro, longe de mais, e perder o pé.
Olhando em volta, o que se vê? Uma turba de pelintras que só quer imitar o fidalgote de província: viver de rendas e com regras feitas só para ele. O mundo já não é assim. Mudou. É hoje um imenso mercado, com regras universais muito estritas, onde para sobreviver é necessário ter algo para oferecer e que outros estejam na livre disposição de comprar. Mas nós continuamos personagens do Júlio Dinis.
Repare-se como no sector público e no sector cinzento (sector privado que mais parece público pelos hábitos em que caiu): àquele que deixou de estar, os que estão apontam logo um lugar acolá, para que não lhe falte, nem o sustento, nem as benesses a que qualquer “fat cat” se sente com direito. E nunca há ninguém que lhe pergunte, uma vez por outra, o que fez para que os seus gastos pudessem ser pagos. Em resumo. O problema é o dinheiro (excessiva criação de moeda através do crédito bancário), o endividamento (excessivo, sobretudo, o dos Bancos aos seus congéneres, algures, no exterior) - a falta de rigor na governação das organizações, que se perpetua porque a ninguém são exigidas responsabilidades de forma consequente (a supervisão pelo método “só nós dois é que sabemos”, à Tony de Matos, é pior que ineficaz - é nefasta).
Soa a anarquista? Soa a comunista? Soa a esquerdista? Engano. Trata-se do mais puro modelo de mercado, que se alicerça em realidades muito simples: (boa) governação, (consequente) prestação de contas e restrições nominais equilibradas.

A.PALHINHA MACHADO

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