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A bem da Nação

LIDO COM INTERESSE – 22

 

Detalhes do Livro 

Título: Mandela

Autor: James Gregory & Bob Graham

Tradutores: Maria João Diniz e João Paulo Diniz

Editores: Casa das Letras

Edição: 1ª, Setembro de 2007

 

 

Como notas prévias, tenho a referir que acho o título excessivamente longo “Mandela. Meu prisioneiro, meu amigo – GOODBYE BAFANA” e por isso decidi abreviá-lo como está acima e que se Bob Graham é Autor, não se dá pela sua presença pois todo o livro é escrito na primeira pessoa, a do outro co-Autor, James Gregory.

 

Foi numa das minhas visitas semanais aos escaparates que decidi não esperar pelo Pai Natal e comprar logo este livro cujas badanas e Prólogo me encantaram de imediato.

 

É um livro escrito ao contrário pois começa pelo fim, ou seja, pela tomada de posse de Mandela como Presidente da África do Sul, passa para a juventude do narrador em contacto muito próximo com a civilização zulu a que pertencia o seu grande amigo Bafana e daí para o ingresso numa carreira profissional que, no caso, foi a de guarda prisional ao serviço do apartheid.

 

Dá para adivinhar o futuro quando o jovem Gregory se apresenta ao serviço na prisão de Robben Island e lhe mostram Nelson Mandela:

«- Gregory – acenou [o Chefe dos guardas que o estava a introduzir no serviço] com óbvio desdém pelo homem – este aqui é Nelson Mandela.

A voz deste era firme e directa como os seus olhos:

- Bom dia – disse – Bem-vindo a Robben Island.

A minha resposta foi pouco usual:

- Bom dia – respondi – Eu vejo-te.

Era uma frase que eu tinha aprendido há muitos anos, em criança, a crescer perto dos Zulus, uma saudação de amizade. Imediatamente parei, pensando porque raio usara esta frase, pela primeira vez, desde Ongemak.»

 

Seguem-se 20 anos de convivência em que o não muito convicto racista branco se transforma em amigo e confidente do ‘seu’ prisioneiro.

 

Curiosidade literária que a tradução portuguesa terá permitido mas que no original em língua inglesa pode ser menos evidente: o guarda sempre tratou o prisioneiro por ‘tu’ e este sempre tratou o guarda por ‘Senhor Gregory’. Foram 20 anos de respeitoso relacionamento que se foi transformando em verdadeira amizade em que sempre foi patente a superioridade intelectual do prisioneiro e que culminou com uma frase final no momento da libertação em que o emocionado guarda agradeceu dizendo «-Obrigado, senhor

 

O estilo e o conteúdo provocam alguma voracidade na leitura e é com pena que se chega ao fim. Dá para imaginar que um dia destes o Autor vai publicar a continuação da história pois não apetece ignorar o que foi a vida do guarda (o narrador) depois da libertação do prisioneiro, o que foi a vida do cidadão comum na África do Sul enquanto Mandela assumiu a Presidência da República e onde está hoje Bafana, o miúdo preto do princípio do livro e cujo nome pertence ao título.

 

Bafana esse que pertence a uma civilização em que as mulheres se enfeitam com colares de contas pois «os espíritos que nós invocamos vêm sentar-se nos laços das contas e falam apenas aos nossos ouvidos».

 

Terá certa vez dito Kobie Coetsee, Ministro da Justiça nos Governos de Botha e de de Clerk, ao apresentar James Gregory a um afamado juiz, «Este é o homem que tirou a Nelson Mandela o ódio contra o homem branco.»

 

Como a História da África do Sul poderia ter sido diferente se Nelson Mandela não tivesse sido guardado por James Gregory, o homem que pacificamente derrotou o apartheid.

 

Lisboa, Novembro de 2007

 

Henrique Salles da Fonseca

2 comentários

  • Imagem de perfil

    Henrique Salles da Fonseca 25.11.2007 22:27

    Muito bem!
    Obrigado por comentário de tanta elevação.
    Relativamente à questão de se saber qual o resultado duma experiência não experimentada, não tenho dúvidas de que é impossível concluir seja o que fôr. Contudo, quero acreditar que os resultados seriam diferentes se o guarda de Mandela tivesse sido um facínora ao estilo dos que martirizaram o grupo de presos do ANC durante os 2 ou 3 primeiros anos em Robben Island em vez de ter sido James Gregory que em criança tanto conviveu com zulus cuja língua parece falar fluentemente (bem como chosa) e por cuja civilização revela tanto apreço.
    Longe de mim qualquer tentativa de diminuição do valor genuino e evidente de Mandela mas se também somos de algum modo o resultado do que nos rodeia, então o guarda Gregory terá certamente tido algum mérito em todo o processo quanto mais não seja pelo facto de ter ido convencendo ao longo de muitos anos os seus superiores hierárquicos (esses, sim, autênticos algozes) de que Mandela e companheiros de reclusão eram pessoas e não umas bestas feras selvagens.
    Eu, por mim, estou na disposição de lhe dar esse crédito.
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