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A bem da Nação

Burricadas nº 10

 

Chuva de molha-tolos (cont.)

v      Quando se pronunciam sobre a actual turbulência nos mercados financeiros internacionais, os nossos políticos e outros “fazedores de opinião” cá do sítio são de um optimismo a toda a prova, animados por um raciocínio que, à primeira vista, parece sólido, incontroverso e de meridiana clareza: dos Balanços do Bancos portugueses não constam posições de crédito sobre o mercado hipotecário norte-americano, muito menos as temidas operações subprime; logo, tudo isto não passa de uma tempestade lá nos antípodas. Ponto final, assunto arrumado.

v      Assim será, de facto, quanto às aplicações financeiras dos Bancos portugueses. Mas não é só aí que os efeitos da crise no segmento subprime podem poisar e fazer ninho. Por isso, a conclusão é capaz de ser um pouco precipitada, e o sentimento de alívio algo exagerado.

v      Mesmo olhando só para as posições longas (os items do Activo, no dialecto dos financeiros), haverá que investigar com mais cuidado o que se passa nos Fundos de Investimento, sobretudo os mais agressivos que, por norma, investem fortemente em instrumentos derivados “fornecidos” pelos grandes operadores internacionais. Não haverá por lá nada que tenha subjacente o risco subprime ?

v      Não sei, mas duvido – certo como é que o clima de taxas de juro nominais muito baixas que se arrastou até finais de 2006 foi propício a investimentos de maior risco, na busca de uma rentabilidade que não envergonhasse. Acontece que os Bancos portugueses nunca hesitaram em jogar a sua reputação nos Fundos que promoviam, competindo arduamente por rentabilidades – e o perigo está à vista, ainda que os tais Fundos “agressivos” tenham reduzida expressão, entre nós.

v      E as Seguradoras? E, principalmente, os Fundos de Pensões? Não terão caído eles também na tentação de enveredar por estratégias credoras, subscrevendo CDO (Collateralised Default Obligations) e CDS (Credit Default Swaps), na esperança de que os modestos prémios que vinham engrossar os modestíssimos proveitos de hoje não se transformassem em pesadas indemnizações a pagar amanhã? Ora, muitos destes CDO e CDS têm subjacentes operações estruturadas construídas a partir dos tais créditos hipotecários subprime. Valeria a pena verificar melhor – já que medir com precisão riscos financeiros está longe de ser uma das nossas mais assinaláveis virtudes.

v      Mas não são só as posições longas que expõem um sistema bancário ao risco. O modo como os Bancos se financiam - conjugado com a composição das suas carteiras de crédito bancário - também pode revelar vulnerabilidades insuspeitadas.

v      Os aumentos de capital que os cinco maiores grupos bancários portugueses (CGD, BCP, BES, BST e BPI) levaram a efeito em 2006, reduziram significativamente a alavancagem monetária externa (isto é, a rácio entre o endividamento nos mercados interbancários internacionais e os capitais próprios exibidos) que era, aliás, o seu selo de marca desde 1999 - e a emissão de dívida no mercado de capitais também terá dado uma boa ajuda para tal. Já não era sem tempo.

v      Mesmo assim, a alavancagem monetária externa, bruta (isto é, sem tomar em linha de conta as aplicações em Bancos não residentes – já que estas são por prazos muito curtos), no fecho do exercício de 2006, oscilava entre 1.3x e 3.8x os capitais próprios destes cinco Bancos.

v      Forçoso é concluir que os grandes Bancos portugueses continuam a depender dos fundos obtidos nos mercados interbancários internacionais para prosseguirem com as suas actividades correntes (os Bancos portugueses de menor dimensão, esses, encontram nos mercados interbancários internacionais, quanto muito, soluções para a gestão pontual das suas tesourarias, mas não financiamento estável).

v      No capítulo da composição do Activo (expressa como deve ser em múltiplos dos respectivos capitais próprios), em quatro destes cinco Bancos a exposição ao mercado residencial ultrapassava 7x (oscilando entre 3.6x e 10.5x) os respectivos capitais próprios. A exposição directa ao mercado imobiliário (somando os empréstimos hipotecários residenciais, os empréstimos hipotecários não residenciais e os financiamentos à construção) poderá ser, talvez, o dobro. O peso da fileira da construção civil (isto é, de todas as actividades que confluem para a construção civil) na economia, e o facto de se tratar de empresas que operam tradicionalmente com níveis de endividamento bancário muito elevado, deixa entrever que, por cá, as coisas podem tornar-se verdadeiramente complicadas.

v      Não será exagerado afirmar que estes Bancos são, uns mais que outros, predominantemente originadores de empréstimos hipotecários residenciais. Créditos que mantêm em carteira – ou que titularizam, dispersando-os pelo mercado de capitais, mas retendo quase sempre uma grossa fatia do correspondente risco.

v      Poderão os Bancos portugueses demonstrar, quer nos mercados interbancários internacionais, quer no mercado de capitais, a qualidade das suas carteiras de operações hipotecárias?

v      Muito dificilmente, visto que, em Portugal, não existe um verdadeiro mercado imobiliário, antes um feixe de operações avulsas onde impera a assimetria de informação (selecção adversa). Ninguém consegue demonstrar qual o valor de mercado de um qualquer imóvel – tudo dependendo das circunstâncias em que tenha de ser vendido.

v      Com a agravante de que nenhum destes Bancos dá a conhecer os respectivos rácios loan-to-value (a cobertura dos capitais em dívida pelas garantias reais que lhes aproveitam, avaliadas estas a preços de mercado). Por isso, será muito difícil obter, a partir do exterior, uma visão clara do risco a que os Bancos portugueses estão expostos – e a que, por sua vez, expõem.

v      Neste ambiente de aversão ao “risco hipotecário” que a crise subprime veio criar, a estratégia de captação de fundos que os Bancos portugueses têm prosseguido (até 2006, privilegiavam os mercados interbancários internacionais; mais recentemente, viraram-se para o mercado de capitais, já directamente, com dívida emitida, já indirectamente, através de operações de titularização de créditos) fica, deste modo, seriamente comprometida.

v      E uma Balança de Transacções Correntes estruturalmente deficitária só agrava o que já de si não era nada fácil.

v      Os que transpiram optimismo e se crêem ao abrigo da tormenta, fariam melhor se começassem a escorar as suas casas.

A. PALHINHA MACHADO

Novembro 2007

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