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A bem da Nação

Histórias do Canal

 

«Entrando no porto sobre remos»

 

 

 

Era uma madrugada escura e ventosa. No caminho coberto de pequenas pedras de lava petrificada os pés do homem afundavam num ruído seco e crocante. Andava ligeiro. No peito o coração batia-lhe acelerado. Ele percebia-o. Era jovem, tinha cabelos e olhos castanhos.  A pele era branca, mas curtida pelo sol e maresia. A barba crescida e a testa marcada mostravam fisionomia apreensiva e cansada. Sua mulher dera à luz há poucos dias e estava mal. O médico que a havia atendido disse ao marido que ela precisava ser tratada com gelo, colocado no baixo-ventre, até que a febre cedesse. E naquela ilha, no inicio do século XX, só se arranjava gelo no cume da montanha do Pico ou na ilha que ficava em frente, a Ilha do Faial. Era o seu primeiro filho que nascia e a mulher prostrada no leito ardia em febre, podia morrer.

Os pensamentos surgiam em sua mente como flashes. Precisava chegar à vila da Madalena, ao amanhecer, quando os homens , no cais, avaliam o mar para saber se podem ou não navegar. Só mestre Vital, o domador de oceanos até as terras do bacalhau, poderia ajudá-lo a atravessar o canal. 

 

Era março, ainda no inverno, e o mar cinzento e mexido respondia ao vento norte que trazia nuvens ameaçadoras, rasgadas pelos primeiros raios da aurora. Entre Pico e Faial, um extenso canal de mar profundo e com fortes correntezas ligava e separava aquelas ilhas irmãs. O Pico, ilha montanha, mais atrasado, não tinha porto seguro, mas tinha homens corajosos, caçadores de baleia, grandes conhecedores dos segredos do reino de Netuno. O Faial, com o seu porto abrigado da Horta, recebia novidades de outros lugares e comerciava , tornando a ilha mais evoluída e cosmopolita. Porém, ambos, Pico e Faial eram filhos de vulcão, dividiam as alegrias e agruras, na luta pela sobrevivência.

 

Na vila o jovem encontrou o amigo, que após olhar pensativo para o mar decidiu ajudá-lo.

Dentro e fora do barco o mestre do mar era respeitado, sua palavra era sentença de sabedoria e responsabilidade. Ouvia os companheiros e podia até acatá-los. Mas a sua palavra era a última a ser dada, nunca discutida ou contestada. Era sempre executada. Cabeça arguta escolhia os marinheiros a dedo, dele dependia a segurança da embarcação.

 Naquele dia, mestre Vital chamou os braços mais fortes, os espíritos mais corajosos. Começou pelos da própria família. Não deixaria Julinha, aquela jovem que vira nascer, morrer por falta de gelo. Iria ao Faial, até a Central Elétrica, buscá-lo.

 Bradou para a tripulação: Vamos arriar!

 A movimentação começou no cais. Em angustioso murmurinho, aos poucos o povo se aglomerou no cais. Eles iriam atravessar o canal.

 

Com manobras seguras e precisas o barco desceu a rampa do varadouro, e entrou no mar, surgindo e desaparecendo no fosso das ondas até tornar-se invisível ao olhar.

Ninguém arredou o pé do cais. Tudo ficou em suspenso. Fizeram uma vigia, promessas e orações. Quando o sino da igreja da Madalena batia, todos se benziam. Por mais de duas horas as pessoas esperaram, até que novamente algo apareceu entre as ondas e veio dar ao varadouro. Era o barco de mestre Vidal Chatinha com o gelo. Julinha estava salva!

 

Maria Eduarda Fagundes

11/10/07

 

Dados :

A Comunidade do Canal (Tomaz Duarte Jr.)

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